Machosfera: a masculinidade frágil a serviço da violência contra a mulher
Conteúdos misóginos crescem impulsionados por algoritmos e monetização; impacto na juventude acende alerta e reforça a necessidade de responsabilizar plataformas e transformar a cultura
Publicado: 19 Março, 2026 - 18h18 | Última modificação: 20 Março, 2026 - 08h00
Escrito por: André Accarini
Tema cada vez mais presente nos debates sobre o combate à violência contra a mulher, a disseminação de misoginia e ódio nas redes sociais, por meio de perfis “especializados” que enaltecem a masculinidade em detrimento das mulheres, é um problema que precisa ser enfrentado com efetividade a partir de uma série de ações, em especial, com a responsabilização das plataformas digitais.
Conteúdos de ódio contra mulheres se expandem com apoio de algoritmos e mecanismos de monetização. Por isso, especialistas alertam para o impacto na formação de jovens e defendem mudanças estruturais, que passam tanto pela regulação quanto pela transformação cultural. “A violência, além de ser um desvio de caráter, é um negócio lucrativo”, diz Amanda Corcino, secretária da Mulher Trabalhadora da CUT.
Machosfera:
A chamada ‘machosfera’, um conjunto de perfis que propagam misoginia, violência simbólica e até apologia a agressões permanecem ativos, ampliam seu alcance e, muitas vezes, são recompensados com engajamento e monetização.
Para Amanda Corcino, esse cenário revela uma falha estrutural das plataformas digitais. “A internet virou um terreno livre e fértil para esse tipo de violência. Livre porque não há punição efetiva, e fértil porque os algoritmos entregam esse conteúdo para mais pessoas, ampliando alcance e monetização”, afirma.
A avaliação aponta para um modelo que premia o engajamento — independentemente do conteúdo — e permite que discursos violentos ganhem escala.
Crescimento acelerado e alcance ampliado
Os dados confirmam essa tendência. Levantamento do NetLab, da UFRJ, mostra que, mesmo com a redução no número de canais misóginos monitorados, o alcance dessas redes aumentou significativamente.
Em 2024, eram 137 canais, com cerca de 105 mil vídeos e 19 milhões de inscritos. Dois anos depois, o número de canais caiu para 123, mas a produção subiu para 130 mil vídeos, e o total de inscritos chegou a 23 milhões.
O dado revela uma mudança qualitativa: menos canais, porém mais ativos, mais produtivos e com maior audiência — um indicativo de que o discurso misógino não apenas persiste, mas se fortalece.
Como funcionam os perfis de ódio
Esse crescimento está diretamente ligado à atuação de influenciadores e canais que operam dentro da chamada “machosfera”, um ecossistema digital que reúne conteúdos voltados à promoção de uma masculinidade baseada na dominação e no controle sobre as mulheres.
Perfis como o de Thiago Schutz, conhecido pelo “Manual Red Pill Brasil”, exemplificam esse funcionamento. Sob o discurso de “desenvolvimento pessoal” ou “melhoria masculina”, esses canais difundem ideias que inferiorizam mulheres e reforçam papéis de gênero rígidos.
Entre as características centrais desse conteúdo estão:
- A ideia de que homens são prejudicados por uma suposta sociedade que favorece mulheres
- A generalização de comportamentos femininos por meio de estereótipos
- A defesa de que o homem deve exercer controle e autoridade nas relações
- A redução da mulher ao papel doméstico ou de submissão
Além disso, há uma forte presença de “coaches de masculinidade” que vendem cursos, mentorias e conteúdos pagos, transformando a misoginia em produto.
Da ideologia à violência
Esse universo está associado à chamada cultura “red pill”, que constrói uma narrativa de antagonismo entre homens e mulheres.
O educador Marcos Ribeiro, em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, explica que essas redes operam a partir de uma lógica de disputa. “É uma rede que incentiva os garotos a verem a mulher como sua concorrente.A gente retomou uma masculinidade tóxica total”, diz, ao destacar que jovens passam a internalizar valores baseados na culpa atribuída às mulheres.
Esse processo é especialmente preocupante na formação de crianças e adolescentes. Ainda segundo o educador, nesse ambiente, jovens “aprendem a odiar as mulheres”, o que pode se manifestar em diferentes formas de violência — moral, psicológica e física.
Normalização da agressão
Dentro dessas comunidades, a violência não aparece de forma isolada, mas como parte de um processo de normalização.
Conteúdos começam com memes e piadas misóginas e evoluem para:
- ameaças diretas
- assédio e perseguição (stalking)
- chantagens com imagens íntimas
- apologia à violência física
Há também vídeos que simulam agressões – com socos, chutes e ataques – acompanhados de frases que naturalizam a violência diante da rejeição feminina.
Esse tipo de conteúdo contribui para banalizar o desrespeito e transformar a agressão em comportamento aceitável.
Algoritmos e radicalização
A lógica das plataformas intensifica esse cenário. Ao recomendar conteúdos semelhantes, os algoritmos criam ciclos de reforço que levam usuários a consumir materiais cada vez mais extremos.
Esse processo, muitas vezes descrito como um “buraco de coelho” digital, faz com que jovens sejam expostos repetidamente a conteúdos que:
- culpabilizam mulheres por frustrações pessoais
- reforçam visões distorcidas de relacionamento
- incentivam comportamentos agressivos
O resultado é uma radicalização progressiva, que combina isolamento, ressentimento e validação social dentro dessas comunidades.
Redes amplificam misoginia e tornam violência contra mulheres rotina digital
Em entrevista ao Portal da CUT, a comunicadora da Fundação Perseu Abramo, Kriska Carvalho, descreve um ambiente em que ataques são constantes, estruturados e incentivados por dinâmicas digitais que favorecem o engajamento pelo ódio. Nesse cenário, mulheres, em especial ativistas, se tornam alvos permanentes de ofensas, ameaças e campanhas coordenadas de perseguição.
A ausência de punição é, segundo ela, o principal combustível dessa escalada, já que sem consequência, a violência se intensifica. Grupos organizados operam com milhares de seguidores, promovendo exposição sistemática de mulheres e utilizando ferramentas como o doxing para ampliar o impacto dos ataques.
Em um dos casos relatados, após uma denúncia, uma militante teve seus dados pessoais divulgados e passou a ser alvo de ameaças, enquanto o conteúdo permanecia ativo na plataforma.
Diante desse quadro, Kriska defende que o enfrentamento passa necessariamente pela responsabilização das empresas de tecnologia e por medidas que ultrapassem o campo do discurso. “Discurso não vai resolver. Se a gente não agir de verdade, isso só vai piorar”. Para ela, sem regulação eficaz, educação e mobilização social, a tendência é que a violência continue se expandindo — cada vez mais organizada, visível e naturalizada.
Regulação em debate
Diante desse cenário, cresce a pressão por respostas institucionais. Projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional buscam enfrentar a misoginia digital tanto do ponto de vista criminal quanto da responsabilização das plataformas.
A adequação da legislação é proposta no Projeto de Lei 872/2023, da deputada Dandara (PT-MG), e no Projeto de Lei 1225/21, do deputado Denis Bezerra (PSB-CE). As duas proposições sugerem alterações na Lei Caó, que tipifica crimes resultantes de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, tornando-os inafiançáveis e imprescritíveis, com penas de reclusão, para incluir a misoginia no rol de crimes de preconceito, equiparando o rigor punitivo ao já aplicado em casos de racismo.
Já o PL 6396/25, apresentado pela deputada Erika Hilton (Psol-SP), foca na governança digital ao alterar o Marco Civil da Internet. O projeto estabelece a responsabilidade solidária das plataformas digitais quando não retirarem conteúdos que incitem a violência contra a mulher.
Já o chamado “PL anti-redpill” (PL 6075/2025), da deputada Samia Bonfin (Psol-SP) propõe criminalizar a promoção de conteúdos que incentivem hostilidade ou violência contra mulheres. Outras propostas preveem:
- remoção prioritária de conteúdos misóginos
- suspensão de monetização de perfis violentos
- responsabilização das plataformas por omissão
Para Amanda Corcino, iniciativas como essas são fundamentais.“As redes sociais precisam ser responsabilizadas. Não é possível que continuem lucrando com conteúdos que incentivam a violência”, afirma.
Educação e responsabilidade social
Ainda assim, o enfrentamento do problema exige mais do que legislação. A raiz da questão está na formação social e cultural.
Amanda Corcino defende que o combate à misoginia começa dentro de casa.
“É preciso que pais e mães entendam que não dá para deixar crianças livres nesse ambiente sem orientação. É necessário ensinar respeito, igualdade e solidariedade desde cedo”, diz.
Segundo ela, a ausência desse processo formativo permite que jovens cresçam sem compreender princípios básicos de convivência e igualdade de gênero.
Um ciclo que precisa ser interrompido
O avanço da misoginia nas redes revela um problema que conecta tecnologia, cultura e política. Não se trata apenas de conteúdos isolados, mas de um sistema que
- produz e distribui discurso de ódio
- recompensa financeiramente quem o dissemina
- influencia a formação de jovens
- e contribui para a reprodução da violência no mundo real
Dado o cenário, para Amanda Corcino, a resposta precisa ser coletiva. “É preciso denunciar, responsabilizar e, principalmente, entender que a mulher não é inferior em nenhum aspecto. Violência não é opinião. É crime.”
Ela pontua ainda que sem regulação, educação e mobilização social, o ambiente digital “vai seguir sendo palco de violência e amplificando desigualdades”.