Ódio organizado nas redes amplia violência a mulheres e expõe falhas de regulação
Ataques coordenados, impunidade e radicalização digital transformam assédio em máquina de violência; ativista defende responsabilização das plataformas, educação e ação coletiva para conter escalada
Publicado: 19 Março, 2026 - 18h27 | Última modificação: 20 Março, 2026 - 07h59
Escrito por: André Accarini
A violência digital contra a mulher no Brasil tem chamado atenção da sociedade e autoridades dado o número alarmante de perfis nas redes sociais que propagam o ódio e a misognia. O que antes se manifestava de forma episódica, em ofensas pontuais e dispersas, consolidou-se como uma engrenagem estruturada, capaz de produzir, amplificar e normalizar o ódio em escala. A luta pelo fim da violência contra a mulher, pauta permantente da CUT e que ganha ainda mais visbilidade neste março de 2026, Mês Internacional da Mulher, passa pelo fim da violência digital - que se origina no ambiente das redes e ganha o mundo real de forma cruel.
Em entrevista ao Portal CUT, Kriska Carvalho, comunicadora da Fundação Perseu Abramo (FPA), ativista e militante, traça um panorama detalhado desse processo e alerta para o papel central das redes sociais na consolidação de um ambiente que deixou de ser apenas espaço de interação para se tornar um verdadeiro “celeiro” de radicalização e misoginia.
Ela reforça que há compreensão sobre o fenômeno, mas falta ação concreta capaz de interromper sua expansão. Diz ainda que a primeira, mais efetiva, porém não única medida a ser tomada é punir as plataformas que fazem vista grossa a perfis que disseminam ódio pelas mulheres nas redes.
E mais, afirma que apenas ‘discurso’ não resolve o problema. “Se a gente não agir de verdade, isso só vai piorar”.
Alto e bom som
É fato que a mídia tem dado destaque a esse tema, “falando de perfis nas redes sociais que fomentam o ódio contra a mulher, que incentivam e colocam ideias na cabeça dos homens para tratar as mulheres como seres inferiores”, afirma Krisca. A exposição dos modos de operação desses grupos, para ela, é uma transformação que não ocorreu de forma abrupta, mas foi sendo construída ao longo dos últimos anos, especialmente a partir de 2018, em meio às mudanças políticas e ideológicas, comportamentais e nas próprias dinâmicas das plataformas digitais.
Da ofensa pontual ao ódio estruturado
Se o machismo sempre esteve presente no ambiente online, a natureza dos ataques mudou profundamente. Durante o período eleitoral de 2018, contra a comunicadora, as agressões eram mais limitadas, menos articuladas e, em alguma medida, ainda sujeitas a mecanismos de contenção.
“As ofensas existiam, claro, mas não eram tão organizadas. No máximo, chamavam a gente de ‘marmita’ ou repetiam slogans políticos. E quando você denunciava, havia resposta. O perfil caía”, recorda.
Naquele contexto, o assédio – muitas vezes de caráter sexual – já era recorrente. “A gente recebia muitos nudes sem solicitação, era comum. Era uma situação grave, mas diferente do que vemos hoje.”
A mudança de patamar ocorre gradualmente, acompanhando alterações nas políticas de moderação das plataformas e a percepção, por parte dos agressores, de que o terreno se tornava cada vez mais permissivo. “Eles foram sentindo o terreno. Começaram com ataques menores, testando até onde podiam ir. E, como nada acontecia, avançaram.”
Impunidade como motor da violência digital
Esse avanço está diretamente ligado, segundo Kriska, à lógica da impunidade. “A pessoa percebe que pode ofender, ameaçar, e nada acontece. Então ela vai avançando. Vai escalando, até chegar em níveis extremos.” O resultado é a consolidação de um ambiente em que a violência se torna rotina e previsível.
“Hoje não existe uma publicação de mulher, principalmente ativista, militante, que não tenha alguém agredindo, ofendendo e ameaçando.”
A organização desses ataques revela um nível ainda mais preocupante do problema. Não se trata apenas de indivíduos isolados, mas de redes estruturadas, com páginas e grupos dedicados à perseguição sistemática de mulheres, muitas vezes com milhares de seguidores. “São páginas enormes, organizadas para recrutar e expor mulheres”, explica.
Ataques coordenados, doxing e perseguição em massa
Um episódio relatado por Kriska ilustra a gravidade dessa engrenagem. Uma companheira de militância tentou denunciar uma página organizada para expor mulheres, descrita como um espaço em que “pegam uma puta por dia”. A reação foi imediata e coordenada.
“Eles pegaram a foto dela, conseguiram telefone, CPF, endereço, nome da mãe e publicaram tudo. Direcionaram ataques. Ela foi ameaçada de morte.”
O uso de robôs e técnicas de doxing (exposição de dados pessoais) amplia o alcance e o impacto da violência. Mesmo diante da gravidade, não houve resposta efetiva das plataformas. “A gente denunciou, falou com várias pessoas, e nada aconteceu. A página continuou no ar.”
Para a ativista, esse tipo de resposta – ou a ausência dela – é determinante para a escalada da violência. “Tudo aquilo assim tá sendo banalizado... virou um celeiro mesmo.”
Juventude, pandemia e radicalização online
A compreensão desse fenômeno passa também pela análise de quem são esses agressores. Kriska aponta para a presença significativa de jovens que tiveram seu processo de socialização atravessado pela pandemia.
“Tem muito menino jovem envolvido nisso. E isso tem muito a ver com o período da pandemia”. Como mãe e avó, ela avalia que o isolamento prolongado, aliado ao uso intensivo da internet como única forma de convivência, criou condições para a captura desses adolescentes por discursos de ódio. “A internet virou o único parâmetro de convivência. E o ódio engaja, dá visibilidade.”
Nesse ambiente, diferentes vetores se combinam: a atuação da extrema direita, a disseminação de ideologias misóginas e a lógica algorítmica das plataformas. “As redes sociais engajam ódio, o ódio engaja”, ela reafirma.
Grupos como os chamados ‘incels’ (celibatários involuntários) e ‘redpills’ (comunidades online que difundem a ideia de que mulheres são inimigas ou manipuladoras e que os homens precisam ‘despertar’ para essa suposta realidade) reforçam uma visão de mundo em que a mulher deixa de ser reconhecida como sujeito. “Eles não veem a mulher como pessoa. Veem como coisa.”
Da violência virtual à brutalidade real
Para Kriska, os efeitos não ficam restritos ao ambiente digital. “Isso não para na internet. Vai para a vida real.” Ela aponta uma mudança na natureza da violência, cada vez mais brutal.
“Não é só agredir. É destruir a mulher, desfigurar.”
A desumanização presente nos discursos online se materializa em práticas concretas, evidenciando que a violência digital não é paralela. É parte de um mesmo sistema que sustenta o feminicídio e outras formas de agressão.
Responsabilizar plataformas é ponto de partida
Diante desse cenário, a responsabilização das plataformas aparece como elemento central. “Se a plataforma permite conteúdo criminoso e não derruba, ela tem que ser penalizada. Não dá para tratar isso como liberdade de expressão.”
Para Kriska, a ausência de regulação eficaz cria um ambiente em que ninguém é responsabilizado – nem quem comete a violência, nem quem a viabiliza. “Se começa a derrubar perfil, derrubar postagem, a pessoa entende que não pode fazer aquilo.”
Caso a prática persista, ela defende investigação e responsabilização direta. “A pessoa precisa saber que está cometendo crime.”
Educação, famílias e ação coletiva
Apesar disso, ela ressalta que não existe solução única. “É um conjunto de elementos.” A educação surge como eixo estratégico. “A gente precisa falar disso desde cedo. Explicar o que é misoginia, o que é discurso de ódio.”
As famílias também têm papel central. “Os pais precisam orientar. Não dá para fingir que não vê o que o filho faz na internet.”
O enfrentamento exige ainda engajamento coletivo. “Isso não é um problema só das mulheres. É um problema da sociedade.” Nesse sentido, Kriska destaca o papel dos homens. “Os homens que estão do nosso lado têm o dever de ajudar a levar essa pauta adiante.”
E reforça: “Quando o homem ele fala... ele levanta uma mulher ali para que ela tenha voz, faz toda diferença.”
Entre o cansaço e o abandono
Mesmo com a clareza sobre o problema, o sentimento predominante é de exaustão. “É muito cansativo. A gente denuncia, expõe, e nada acontece.” A própria ativista relata ataques recentes. “Me ofenderam, me ameaçaram. E você pensa em processar, mas é caro, leva tempo.”
Diante disso, muitas mulheres recuam – fecham comentários, deixam redes ou limitam sua atuação. Outras resistem, mas enfrentam um ambiente cada vez mais hostil.
Um problema conhecido, sem resposta à altura
Para Kriska, o mais preocupante é que não se trata de falta de diagnóstico. “Todo mundo sabe o que está acontecendo. Todo mundo sabe qual é o resultado disso.” O que falta é ação concreta. “A gente fala muito, mas age pouco”, ela diz.
E pontua que eem enfrentar as plataformas, educar novas gerações e responsabilizar agressores, a tendência é de aprofundamento da violência, que se tornará cada vez mais organizada, mais visível e mais brutal.