Especialistas criticam estratégia do BC e apontam efeitos negativos dos juros altos
Diretora-técnica do Dieese e professora de economia da Unicamp criticam os argumentos do Copom, órgão do BC, para a redução de apenas 0,25 % da taxa Selic
Publicado: 06 Maio, 2026 - 13h35 | Última modificação: 06 Maio, 2026 - 13h44
Escrito por: Rosely Rocha
O último boletim do Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central (BC), publicado na terça-feira (5), em que defende a redução tímida na taxa básica de juros (Selic) em apenas 0,25 ponto percentual reacendeu críticas de estudiosos em economia que defendem uma mudança mais estrutural na condução da política monetária no Brasil. Para esse grupo, o uso recorrente de justificativas para a atual taxa de 14,50% ao ano, definida pelo BC no dia 30/04, como inflação, contas públicas e, mais recentemente, conflitos internacionais, revela uma estratégia excessivamente conservadora e, em alguns casos, desconectada da realidade econômica do país.
Enquanto o Banco Central sustenta a necessidade de cautela diante de incertezas globais, cresce entre estudiosos da economia do país a avaliação de que a política monetária atual pode estar mais contribuindo para os problemas do que oferecendo soluções.
A diretora-técnica do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adriana Marcolino, questiona a coerência das justificativas apresentadas pelo Banco Central ao longo do tempo. Segundo ela, há uma mudança constante de argumentos para sustentar a manutenção de juros elevados.
“Agora é a guerra. Antes eram as contas públicas. Ou seja, sempre há uma justificativa supostamente técnica para manter os juros altos. A questão é: isso atende à economia real ou às expectativas do mercado?”, questiona.
Para Adriana, embora o impacto de conflitos internacionais sobre o preço do petróleo seja real, a resposta via política monetária é ineficaz e até contraproducente.
“O aumento da taxa de juros não vai reduzir o preço do combustível. O que ele faz é restringir a atividade econômica em outros setores, como investimento produtivo e consumo”, explica. “A gente está vendo famílias cada vez mais endividadas porque o crédito está caro. Ou seja, não resolve o problema da inflação e ainda cria outros”, afirma.
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Ela também aponta fatores estruturais internos como determinantes da pressão inflacionária, especialmente no setor de combustíveis, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) que vendeu abaixo do preço refinarias e a BR Distribuidora da Petrobras.
A diretora-técnica do Dieese também critica o impacto da privatização de refinarias. “Essas empresas não têm compromisso com a inflação. Mesmo com custo baixo, seguem o preço internacional. Então, estamos falando de um modelo em que se mantém juros altos para conter a demanda enquanto empresas privadas lucram com preços elevados. Não faz sentido do ponto de vista do desenvolvimento econômico e social”.
“A alta do diesel tem relação direta com a perda de capacidade da Petrobras de produzir e refinar internamente, resultado de políticas adotadas nos últimos anos. Ficamos mais dependentes do mercado externo”, diz. Nesse contexto, ela defende que a solução passa por ampliar a produção nacional. “A saída estratégica seria fortalecer a soberania energética, não manter juros altos. Essa é uma falsa solução”, ressalta Adriana.
Meta da inflação X juros altos
Na mesma linha, a professora de economia da Unicamp, Marilane Teixeira, avalia que a postura do Banco Central reflete um “excesso de prudência” que acaba travando a economia. “O Copom continua na retranca. Mesmo com indicadores que já permitiriam uma redução maior dos juros, opta por cortes mínimos, sempre ancorado em algum risco como o de agora, o conflito no Oriente Médio”, afirma.
Ela destaca que, pelas próprias regras do Banco Central, já haveria espaço para uma flexibilização mais significativa da política monetária. “Os dados mostram que a inflação acumulada já estava dentro da meta em vários meses recentes. Ou seja, havia um ambiente favorável para reduzir os juros. Ainda assim, optou-se por um corte muito conservador.”
Para Marilane Teixeira, a repetição de justificativas externas levanta dúvidas sobre os reais motivos da manutenção dos juros em patamares elevados. “Se não fosse a guerra, seria outro fator como a taxa de juros americana, o cenário internacional, qualquer coisa. Sempre há um argumento para conter a queda. Isso revela uma lógica que vai além da inflação”, critica.
Ela chama atenção para um ponto menos debatido: o próprio impacto dos juros altos sobre os preços. “Existe uma linha de estudos que mostra que juros elevados podem pressionar a inflação, e não reduzi-la. As empresas dependem de crédito para operar. Se o custo financeiro aumenta, isso pode ser repassado aos preços”, explica. “Ou seja, o juro pode funcionar como custo de produção”. Sobre a tese de que juros altos aumentam a inflação, Marilane se refere ao economista André Lara Resende que critica os juros altos praticados no Brasil.
“Só em 2025, o Brasil gastou cerca de um trilhão de reais com juros da dívida pública. Isso alimenta uma dinâmica de expectativas e o mercado financeiro passa a projetar aumento de impostos ou de preços administrados no futuro, o que também pode pressionar a inflação”, diz.
Marilane vai além ao afirmar que o atual modelo favorece o rentismo. “A manutenção de juros altos atrai capital financeiro externo, interessado em aproveitar uma das maiores taxas de retorno do mundo. Isso ajuda a manter reservas internacionais e certa estabilidade cambial, mas tem um custo enorme para a economia real, especialmente para o investimento produtivo”, acredita.
A professora de economia também relativiza o nível atual da inflação no país. “Estamos falando de uma inflação anual em torno de 4% a 4,5%, com taxas mensais abaixo de 1%. Isso não representa um risco significativo para a economia brasileira. Há um certo exagero na resposta monetária”, avalia.
Para as duas especialistas, o debate sobre juros no Brasil precisa ir além da lógica tradicional. “Essa ideia de que a única forma de controlar a inflação é com juros altos é uma construção teórica que não necessariamente se aplica à realidade brasileira. É uma invenção que precisa ser questionada”, afirma Marilane.
Adriana Marcolino concorda e reforça a necessidade de alternativas. “O Brasil precisa investir na sua capacidade produtiva, reduzir dependências externas e usar outros instrumentos de política econômica. Manter juros altos como resposta automática não é eficaz e penaliza principalmente a população”, conclui.