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Dilma: o desastre estava escrito, mas a mídia escondeu a conspiração

“Jornais e canais de TV controlados por seis famílias ocultaram situação real do país. E transformaram em caos no Brasil um momento de crise internacional. Tinham uma conspiração de silêncio”

Publicado: 08 Outubro, 2021 - 09h02 | Última modificação: 08 Outubro, 2021 - 09h11

Escrito por: Cláudia Motta, da RBA

Marcelo Camargo/Agência Brasil
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“Uma mulher que é símbolo de resistência política e pessoal.” Assim o jornalista Juca Kfouri definiu a convidada do Entre Vistas da TVT, nesta quinta-feira (7), a ex-presidenta Dilma Rousseff. Com a “saúde estabilizada” após uma intervenção cardíaca, Dilma contou a Juca que está feliz em sua casa, em Porto Alegre. “O Palácio da Alvorada (residência dos presidentes da República, em Brasília) é muito bonito mas não é uma casa, é algo muito grande. Uma casa tem de ser aconchegante, um lugar onde tudo está a mão. Então eu prefiro meu lar.”

Como gestora de um grande lar chamado Brasil, Dilma falou sobre sua tristeza com o estado de coisas no país que afunda enquanto o dólar e a inflação sobem e a gasolina encarece tudo, os brasileiros voltam estarrecidos ao Mapa da Fome. Um país que piora todos os dias desde o golpe de 2016, que a retirou da Presidência da República. “Eles fizeram todas as bobagens do mundo. Sem exceção”, disse sobre a gestão de Jair Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes. “Cumpriram à risca o receituário da política neoliberal mais radical. E com isso, ao mesmo tempo, diminuíram a taxa de crescimento no país. Não se preocupam com investir em infraestrutura. Não se preocupam em assegurar condições de desenvolvimento econômico e social para o conjunto da população brasileira.”

Triste de ver

Um vídeo que tomou as redes sociais esta semana faz uma montagem com previs˜˜ões feita em discurso da ex-presidenta no Senado, no momento do golpe do impeachment em 2016. E as compara com falas do atual presidente da República e de Paulo Guedes. “E infelizmente eu estava certa. Esse desastre que aconteceu no país estava escrito, era visível naquele momento”, lembra Dilma. “É óbvio que tinha uma conspiração de silêncio da mídia, para que não se visse isso. É interessante que os jornais e canais de TV controlados por seis famílias ocultaram a situação real do país. E transformaram em caos um momento de crise internacional que o Brasil estava passando. Uma das críticas mais duras feitas a mim era por não deixar que o preço do petróleo bruto brasileiro crescesse de acordo o padrão internacional.” Confira o trecho:

Para Dilma havia, então, uma situação de conspiração com o objetivo claro de assegurar as condições para enquadrar o Brasil, econômica, social, política e geopoliticamente ao neoliberalismo. “A esse padrão que vem sendo imposto ao mundo pela hegemonia dos Estados Unidos. E que aqui é refletido nas nossas elites, que são internacionalizadas, de uma forma que não há espaço para processos sociais de ampliação do combate à pobreza, à miséria, à fome, de aumento do emprego. Enfim, não pode colocar o pobre no orçamento, como diz o presidente Lula.”

Os “crimes” de Dilma

A ex-presidenta afirma, ainda sob a emoção do vídeo que relembra sua fala de 2016, que no Brasil é crime tributar os mais ricos. “E é outro crime discutir por que nós cobramos taxas de juros tão altas quando o país estava sob estabilidade. O que leva a esse sugamento, essa extorsão da riqueza brasileira. Temos uma elite insensível ao povo brasileiro, mas tendo a achar que essa insensibilidade aqui bate todos os recordes. Ela extrapola, ela tem origem, acredito, na escravidão. Na forma pela qual a elite brasileira jamais respeitou o povo do país, jamais teve qualquer interesse por ele. É o que se vê nas falas do Guedes.”

E lembra que suas palavras no Senado, naquele 2016, refletiam a luta que o PT travou desde 2003 para governar o Brasil. “Todo cerco ao presidente Lula. Todos os preconceitos que queriam desqualificar como gestor e que se mostrou um gestor fantástico. Além disso, um político excepcional, o que levou o próprio Obama a reconhecer que ele era ‘o homem’.”

Brasil secundarizado

A atuação internacional do Brasil, então a sexta economia no mundo, também incomodava, acredita Dilma. “Não vamos esquecer que optamos naquele momento de unipolaridade por uma política externa multipolar. Tanto é que participávamos dos Brics (o banco composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), tínhamos relações com a África e toda da América Latina prioritariamente. E mantínhamos relação qualificada, não subalterna ou submissa, com os países europeus, o Japão e os Estados Unidos. Então fomos devidamente enquadrados.”

E isso tem a ver, como avalia a ex-presidenta, com a nova tecnologia da chamada guerra de quarta geração. “Ou seja, dos golpes híbridos que começam com os impeachments, passam pelos lawfares (manipulação do sistema de Justiça com objetivos políticos) e elegem ultradireitistas como foi com o caso do Bolsonaro. Insensíveis, desligados completamente dos destinos da população desse país. E a gente que era a sexta economia, hoje caímos vários pontos. Somos um país que não tem respeito nenhum na comunidade internacional. O Brasil sempre foi chamado, sempre liderou as conferências do clima. Hoje nem sequer é chamado, e ser for, é secundarizado.”

Povo é a maior riqueza

Como fazer o Brasil “voltar a ser feliz de novo”?, quis saber a presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Ivone Silva. A ex-presidenta Dilma falou sobre a importância da volta das grandes mobilizações conforme a pandemia amaina. E a esperança expressa pelas pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial de 2022, que apontam amplo favoritismo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Nossa busca dessa eleição é algo crucial para mudar a correlação de forças”, disse, destacando a importância de reverter a desnacionalização das estatais, como Petrobras, Correios, Eletrobras, Banco do Brasil, Caixa, BNDES, todas ameaçadas pelo governo Bolsonaro. “São as armas que temos para a reconstrução do nosso país. Por isso, essa eleição é muito importante, para estancar a sangria dessa perda de um pedaço da nossa soberania. O outro pedaço é a proteção do meio ambiente e das populações indígenas, elemento fundamental da nossa soberania. Se não pudermos interromper e reconstruir logo, teremos problema seríssimo no futuro, porque algumas coisas não se recuperam mais.”

Dilma ressaltou ainda a insegurança alimentar que assola em torno de 112 milhões de crianças e adultos. “Há quatro meses calculava-se que 19 milhões passavam fome. Quero enfatizar: crianças e adolescentes passando fome, porque isso significa danos à saúde, à nossa capacidade como país. Pois nossa maior riqueza é nossa população, querendo ou não a elite.”

Gestão catastrófica

A crise energética e o risco de apagão foi o tema da questão do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana. “Um apagão que coloca em risco novos investimentos no país”, destacou o dirigente.  

Dilma lembrou o apagão ocorrido em 2001 e 2002. “Quando o presidente Lula assumiu, mudamos a política do governo e começamos a planejar. A não deixar as coisas ficarem descontroladas e sem gestão.”

Segundo a ex-ministra de Minas e Energia do governo Lula, hoje o Brasil teria muita mais condição de enfrentar essa crise, diante da ampliação de hidrelétricas, termelétricas, os gasodutos feitos pela Petrobras e agora vendidos. “Estamos em melhor situação em termos de parque. Mas estamos catastróficos na área da gestão. Eles ignoraram todos os sinais de que haveria um problema de seca no Brasil e nunca tomaram as providência que deveriam tomar”, disse sobre a gestão do governo Bolsonaro.   

Confira íntegra do Entre Vistas com Dilma e Juca Kfouri

Dilma respondeu ainda perguntas do pesquisador Marco Fernandes, do Instituto Tricontinental, na China, que abordou desde a espionagem feita pelos Estados Unidos contra seu governo até a parceria comercial com os chineses.