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Vício em bets: publicidade de influencers atinge cada vez mais jovens e adolescentes

Endividamento, conflitos familiares, depressão e pensamentos suicidas estão entre os problemas relatados por pacientes que perderam o controle das apostas

Publicado: 22 Setembro, 2026 - 14h35 | Última modificação: 22 Setembro, 2026 - 15h00

Escrito por: Rosely Rocha

Ahead/CUT
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A expansão das apostas esportivas no Brasil aparece nos consultórios e serviços de emergência de saúde mental. O problema não se resume ao dinheiro perdido nas plataformas: o jogo compulsivo está provocando endividamento, conflitos familiares, ansiedade, depressão e, nos casos mais graves, pensamentos e tentativas de suicídio. O alerta é do psiquiatra Augusto Ribeiro Silva, que atua no Instituto Perdizes, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, é supervisor da residência médica no Hospital Geral de Itaim Paulista e coordenador da equipe de psiquiatria de uma unidade privada.

Nos atendimentos observados pelo psiquiatra, predominam homens entre 20 e 40 anos. Segundo ele, o perfil mais frequentemente observado combina juventude com maior exposição ao esporte, impulsividade e a expectativa de ganhar uma grande quantia de dinheiro rapidamente.

“É o perfil de homem jovem que está mais exposto a risco e está mais habituado a mexer com dinheiro e tem uma questão mais de ambição de ganhar uma grande quantia numa jogada de sorte”, afirma.

A publicidade esportiva amplia essa exposição. “O principal público dessa publicidade é o homem jovem”, diz.

Embora os atendimentos observados pelo psiquiatra sejam principalmente de homens adultos, ele destaca a necessidade de proteger adolescentes. A preocupação está relacionada não apenas ao acesso às plataformas, mas à exposição contínua à publicidade e à menor capacidade de controle dos impulsos durante essa fase da vida.

“Eles são muito mais vulneráveis a desenvolver uma compulsão. Eles têm menos discernimento e uma capacidade de controle de impulsos menor do que os adultos.” Por isso, Silva defende que qualquer política de regulamentação leve em conta a proteção dos jovens.

A preocupação, segundo ele, guarda relação com mecanismos já utilizados por empresas de jogos eletrônicos. Pequenas compras realizadas repetidamente dentro dos jogos podem resultar em gastos elevados e foram usadas, na avaliação do psiquiatra, como estratégia para manter crianças e adolescentes envolvidos.

“Você vai jogando e aí você faz pequenas compras ao longo do jogo e isso vai se acumulando e se torna um grande gasto.”

O poder dos influencers

O psiquiatra chama atenção para o papel de pessoas que se apresentam nas redes sociais como especialistas em apostas e ensinam estratégias para apostar ou prometem transformar o jogo em fonte de renda.

“Tem gente que são influenciadores disso. E é complicado. E algumas pessoas entram nessa.”

Para Silva, o problema está também na mensagem de que seria possível obter lucro de maneira sistemática com as apostas.

“Não pode ser encarado como um investimento e, em geral, leva a uma perda, não ganhos. Não existe dinheiro fácil.”

Ele considera que o poder de influência de jogadores de futebol e de grandes personalidades das redes sociais é subestimado. Na avaliação do psiquiatra, as bets passaram a ocupar um espaço muito grande na publicidade digital.

Durante uma partida de futebol, segundo o psiquiatra, a presença das marcas de apostas se tornou praticamente constante. Além da publicidade tradicional, há ainda os influenciadores digitais que apresentam as apostas como uma possibilidade de renda.

“É um problema social e econômico muito grande porque as bets meio que monopolizaram o espaço publicitário das redes sociais”, afirma.

Segundo ele, a quantidade de dinheiro envolvida nas campanhas torna difícil para alguns influenciadores recusarem contratos. Na sua avaliação, isso também reduz o espaço destinado à divulgação de empresas de outros setores.

Família costuma perceber quando o problema já avançou

Um dos obstáculos para identificar a dependência é que os primeiros sinais podem ser pouco evidentes. A pessoa pode continuar levando uma vida aparentemente normal enquanto aumenta progressivamente o tempo e o dinheiro dedicados às apostas.

“Geralmente, a família não percebe nenhum sintoma. A pessoa que está compulsiva, apostando, pode não apresentar nada aparentemente assim”, explica.

Entre os sinais possíveis estão a concentração excessiva no celular, o envolvimento constante com resultados de jogos e o aumento da ansiedade provocado pela espera das apostas. Para o psiquiatra, porém, esses comportamentos isoladamente não são suficientes para que a família ou mesmo um profissional identifique uma dependência.

Na prática, a descoberta costuma acontecer quando o prejuízo financeiro já é grande.

“A família geralmente percebe quando começa a perceber as dívidas criadas, quando começa a perceber o prejuízo financeiro. Então, alguma reserva que a família tinha, que some, que é sacada, ou dívidas, cobranças, e aí a família começa a prestar atenção a isso. E aí já é muito tarde. Tem um prejuízo difícil de recuperar.”

O endividamento, segundo ele, pode chegar a um ponto em que a pessoa deixa de enxergar uma saída.

Não há, segundo Silva, um período definido para que uma pessoa desenvolva dependência em relação às apostas. O comportamento nocivo pode aparecer rapidamente.

“É difícil dizer, assim, um tempo pra ficar viciada. É possível a pessoa já desenvolver um hábito nocivo imediatamente.”

Por isso, ele considera importante que familiares prestem atenção a mudanças de comportamento, sobretudo quando há aumento dos gastos e envolvimento excessivo com apostas e esportes.

Entre os sinais que podem despertar atenção estão acompanhar compulsivamente diferentes partidas, e não apenas jogos do próprio time, apresentar gastos sem explicação, enfrentar problemas financeiros e contrair dívidas. Também é importante ficar atento a informações trazidas por amigos, já que a pessoa pode esconder o problema da própria família.

“Esses são sinais que infelizmente não são tão precoces. A gente tem poucos sinais precoces para identificar dependência, compulsão por jogos.”

Quando esses sinais aparecem, a orientação é buscar ajuda o mais rapidamente possível.

“Quando aparece, a gente precisa perceber o mais rápido possível para fazer uma intervenção, dar apoio a essa pessoa se ela precisar e, às vezes, fazer ela perceber que ela tem um problema, o que muitas vezes ela não percebe, e procurar ajuda profissional.”

O desafio, acrescenta o psiquiatra, é que ainda existem poucos profissionais capacitados para atender especificamente pessoas com transtorno relacionado ao jogo.

O problema pode avançar ainda mais. Segundo o psiquiatra, quando o apostador passa a dever dinheiro a agiotas, surge também uma preocupação com a própria segurança.

“Ele pega empréstimo, aí ele pega cartão de pessoas próximas, aí depois ele vai pegar dinheiro com agiota, aí ele pega dinheiro com mais de um agiota, e aí ele começa a ter problemas, inclusive, de segurança. Porque ele começa a ter medo pela vida dele, de estar sendo cobrado constantemente.”

No Hospital Geral de Itaim Paulista, onde Silva trabalhou em pronto-socorro de psiquiatria, ele relata receber pelo menos um caso por mês de pessoas que chegaram ao serviço em situação grave após se endividarem com apostas.

Silva já atendeu pacientes que chegaram a procurar internação por causa do problema. Em um dos casos relatados, o endividamento passou a afetar diretamente a família. O dinheiro perdido não era apenas do apostador, mas também comprometia os recursos da casa.

“Eu já recebi também casos de pacientes que tinham simplesmente o problema com as apostas e que identificaram que estavam perdendo o controle, já tinham contraído empréstimos, tinham tido prejuízos na relação, porque é claro que a esposa desse paciente, por exemplo, vai ficar muito frustrada com a situação, porque o dinheiro é dela também, e aí a dívida torna-se dela também”, diz.

“Problemas financeiros são um fator de risco para depressão e suicídio, e acaba internada depois de uma tentativa de suicídio ou com pensamentos suicidas, porque está endividado por causa da bet”, afirma.

Dependência 

A associação entre jogo patológico e dependência química não ocorre necessariamente porque um vício provoca diretamente o outro. Silva aponta três fatores que podem ajudar a explicar a relação.

O primeiro é o próprio perfil comportamental. Pessoas mais impulsivas e com maior propensão a comportamentos compulsivos podem apresentar risco tanto para a dependência química quanto para o jogo patológico.

O segundo é o efeito do uso de álcool e cocaína, por exemplo, sobre o controle dos impulsos.

“Uma pessoa que está intoxicada, ou seja, usando cocaína, álcool, ela tem uma dificuldade de controle de impulsos, fica ainda mais impulsiva. Então isso aumenta o risco dela tanto para ela abusar de outras substâncias quanto para ela agir de uma forma mais imprudente com o próprio dinheiro no jogo, por exemplo”, diz o psiquiatra.

O terceiro fator aparece diante de grandes crises pessoais. Uma perda financeira importante ou uma separação, por exemplo, pode desencadear um episódio depressivo ou aumentar o consumo de substâncias, especialmente entre homens adultos que já enfrentam problemas relacionados ao jogo.

“Diante de uma situação financeira ruim, de uma ruptura muito grande na vida deles, por exemplo, perder as economias ou separação, essa pessoa tende a abrir um episódio depressivo ou abusar de substâncias nessas situações.”

Um problema de saúde pública

Um estudo sobre o impacto financeiro no Sistema Único de Saúde (SUS), com dados divulgados pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), é estimado em R$ 38 bilhões por ano dos quais cerca de R$ 30 bilhões seriam relacionados à saúde. O psiquiatra ressalta, porém, que os números são projeções baseadas em estudos realizados em outros países, especialmente na Inglaterra.

“É complicado fazer essa afirmação a partir de um estudo como esse, porque R$ 30 bilhões é muito. O orçamento total da saúde no SUS é R$ 245 bilhões em 2025. Então, é uma parcela grande disso. E fica difícil mesmo estabelecer um nexo causal.”

O psiquiatra, ressalta, entretanto, que faltam estudos epidemiológicos brasileiros capazes de dimensionar com precisão o perfil das pessoas que desenvolvem dependência em apostas. Uma das razões é que se trata de um fenômeno relativamente recente no país. As plataformas de apostas passaram a se disseminar antes da regulamentação, que começou a ser estruturada em 2023 (ver histórico abaixo).

Por isso ele considera que as consequências das apostas devem ser tratadas como uma questão de saúde pública. Ao mesmo tempo, ele faz uma ressalva sobre estimativas que tentam calcular o custo das bets para o sistema de saúde.

Na comparação com a Inglaterra, o psiquiatra chama atenção para a diferença na estrutura de prevenção e tratamento. Enquanto na Inglaterra 10% dos ganhos das empresas de apostas são direcionados à saúde, no Brasil essa parcela é de apenas 1%. O país também conta com poucos serviços especializados para tratar o jogo patológico.

Presidente da República analisa proibir as bets

O presidente Lula prepara uma Medida Provisória (MP), que deve ser publicada antes do primeiro turno da eleição, para restringir apostas online. Em seu programa eleitoral ele ouviu os depoimentos de quem perdeu tudo nos jogos e a narração dizia que “foi o Temer que liberou as bets no Brasil, mas foi no governo Bolsonaro que elas viraram um monstro. O Bolsonaro não taxou, não regulou e não fiscalizou as bets. Foram quatro anos sem lei com as famílias brasileiras cada vez mais endividadas".

Em seu discurso nesta terça-feira (22) nas Nações Unidas, o presidente Lula reafirmou sua preocupação com as bets no Brasil, diante dos prejuízos financeiros e sociais aos brasileiros. As apostas on-line retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025,

Disse o presidente: “A indústria bilionária das BETs transforma o vício em lucro. Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio”.

Histórico das bets no Brasil (informações via Google)

2018: A Legalização (Governo Temer)

As apostas esportivas deixaram de ser consideradas contravenção penal em dezembro de 2018. Nos últimos dias de seu mandato, o então presidente Michel Temer sancionou a Lei nº 13.756/2018.  

O que a lei fez: Criou oficialmente a modalidade lotérica de "apostas de quota fixa" (onde o apostador sabe exatamente quanto vai ganhar se acertar o palpite).

A condição: O texto determinava que o Ministério da Fazenda teria um prazo de dois anos (prorrogáveis por mais dois) para regulamentar e fiscalizar o setor.

2019 a 2022: O "Limbo Jurídico" e Explosão Comercial (Governo Bolsonaro)

Durante o governo de Jair Bolsonaro, o prazo de quatro anos estipulado pela lei expirou sem que um decreto de regulamentação fosse publicado.

A brecha: Como a atividade já estava legalizada pela lei de 2018, as empresas operaram legitimamente no país. No entanto, por falta de regulamentação federal, elas mantiveram suas sedes fiscais e servidores no exterior. [1]

O impacto: O mercado de bets explodiu comercialmente com patrocínios em massa no futebol e na mídia. Contudo, o Estado brasileiro não arrecadava impostos sobre a atividade e não possuía mecanismos para auditar fraudes ou proteger os apostadores.

2023: A Regulamentação Efetiva (Governo Lula)

Diante do crescimento descontrolado do setor, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva editou uma Medida Provisória (MP nº 1.182/2023) para criar as regras que faltavam. Após sofrer alterações e ser aprovada pelo Congresso Nacional, o presidente sancionou a Lei nº 14.790/2023 (conhecida como a Lei das Bets) em 29 de dezembro de 2023. [1, 4]

Mudança de escopo: Além das apostas esportivas, a lei passou a incluir e regulamentar os jogos online de cassino (como os caça-níqueis virtuais).

Exigência de Outorga: Para operar legalmente em solo brasileiro, as empresas passaram a ser obrigadas a pagar uma outorga fixa milionária e transferir suas sedes para o Brasil.

Tributação: Instituiu-se a cobrança de impostos sobre o faturamento bruto das empresas (GGR) e sobre os prêmios recebidos pelos apostadores.

2024 a 2026: Restrições, Fiscalização e a Era da Conformidade

A partir de janeiro de 2024, com a criação da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, o Brasil iniciou a aplicação prática das regras e o pente-fino no setor.

À medida que os desdobramentos sociais e o endividamento da população vieram à tona, a regulação evoluiu para uma fase de severas restrições

Banimento de clandestinas: Milhares de sites que não solicitaram a licença oficial ou não pagaram as outorgas foram bloqueados no país.

Filtros de vulnerabilidade: Implementação de bloqueios automáticos para impedir que menores de 18 anos, beneficiários de programas sociais e inadimplentes inscritos em cadastros de renegociação de dívidas realizem apostas.

Meios de pagamento: Proibição do uso de cartões de crédito e linhas de crédito em transferências via Pix para coibir o endividamento.

Atualmente, o processo regulatório continua em debate contínuo nos tribunais e no Congresso, focado em equilibrar a arrecadação fiscal obtida pelo Estado com políticas de saúde pública voltadas ao combate da ludopatia (vício em jogos).