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Trabalho por plataformas: mulheres ganham até 40% menos que homens, diz estudo

Relatório de organismos internacionais como a OIT e ONU Mulheres aponta desigualdade de gênero, menor renda e falta de proteção no trabalho por plataformas digitais

Publicado: 17 Abril, 2026 - 11h57 | Última modificação: 17 Abril, 2026 - 12h05

Escrito por: Redação CUT | texto: André Accarini

reprodução/Segib
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Um estudo inédito divulgado nesta quinta-feira (16) revela que o crescimento da economia de plataformas na Ibero-América tem apresentado profundas desigualdades de gênero. Intitulado Mulheres na economia de plataformas: desafios e oportunidades na Ibero-América”, o levantamento mostra que, apesar da promessa de flexibilidade, mulheres recebem, em média, 40% menos por hora do que os homens e podem ter rendimentos semanais até 67% inferiores.

Elaborado pela Secretaria-Geral Ibero-Americana (Segib), pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela ONU Mulheres, o estudo analisa o cenário em 22 países da região, incluindo o Brasil, e estima que cerca de 3,5 milhões de mulheres – o equivalente a 2,5% da força de trabalho feminina – dependem de plataformas digitais para gerar renda.

As atividades se referem a trabalhos divididos em dois grandes grupos. Um deles é formado pelas trabalhadoras em plataformas baseadas na localização, como entrega (delivery), transporte de passageiros e prestação de cuidados e trabalho doméstico. Já o outro grupo, formado por trabalhadoras em plataformas online, presta serviços de forma remota para um mercado global.

Tipos de trabalho e divisão de gênero

O estudo divide a economia de plataformas em dois grandes grupos:

  • Plataformas baseadas na localização, como transporte e entregas, onde há predominância masculina, e serviços domésticos e de cuidado, majoritariamente femininos.
  • Trabalho online, como freelancers e microtarefas, onde há maior participação feminina – cerca de 2,8 milhões de mulheres na região.

Ainda assim, mesmo nesses espaços digitais, as desigualdades de remuneração e acesso a oportunidades persistem.

Desigualdade persiste mesmo com qualificação

Independentemente do tipo de plataforma, os trabalhadores são atraídos pela flexibilidade de horários e pela possibilidade de gerar renda imediata. Para as mulheres, a principal razão citada para o trabalho online é a preferência ou necessidade de trabalhar a partir de casa para conciliar com responsabilidades familiares. Cerca de 3,5 milhões de mulheres na Ibero-América buscam sustento através desses modelos digitais.

Um dos dados mais relevantes do estudo é que a desigualdade salarial não se explica apenas por diferenças de formação. Mesmo quando possuem níveis educacionais iguais ou superiores aos dos homens, as mulheres continuam recebendo menos.

O relatório aponta três fatores principais para esse cenário:

  • Segregação ocupacional: mulheres estão concentradas em funções menos valorizadas, como atendimento ao cliente e tarefas administrativas, enquanto homens predominam em áreas tecnológicas mais bem remuneradas.
  • Trabalho não remunerado: cerca de 25% do tempo das trabalhadoras é dedicado a atividades sem pagamento, como espera por chamadas ou busca por tarefas.
  • Carga de cuidados: responsabilidades domésticas limitam a disponibilidade para horários de maior demanda, geralmente noturnos, que são priorizados pelos algoritmos das plataformas.

Barreiras estruturais e exclusão digital

Além da desigualdade salarial, o estudo destaca obstáculos que dificultam o ingresso e a permanência das mulheres nesse mercado:

  • dificuldade de acesso a dispositivos e internet de qualidade;
  • falta de financiamento para ferramentas de trabalho, como veículos;
  • limitações impostas pela divisão desigual do trabalho doméstico.

A chamada “flexibilidade” do modelo, segundo o relatório, acaba funcionando como uma armadilha, já que depende de disponibilidade em horários que nem sempre são compatíveis com a realidade das trabalhadoras.

Riscos e ausência de proteção

Nos serviços baseados em localização, como transporte e entregas, o estudo aponta níveis elevados de assédio e violência. Há também uma sensação generalizada de insegurança, agravada pela ausência de mecanismos eficazes de proteção.

Como a maioria das trabalhadoras é classificada como autônoma, o acesso a direitos básicos é limitado, incluindo:

  • licença-maternidade;
  • seguro-doença;
  • previdência social.

Essa condição de “invisibilidade legal” é apontada como um dos principais problemas estruturais do setor.

Transparência algorítmica e regulação

Um dos pontos-chave é a necessidade de tornar os algoritmos mais transparentes. O estudo defende que as plataformas devem explicar de forma clara como distribuem tarefas e definem rendimentos, permitindo fiscalização por políticas públicas. O objetivo é evitar que esses sistemas reproduzam preconceitos de gênero já presentes no mercado de trabalho.

Essa transparência faz parte de uma abordagem mais ampla, que inclui regulação com perspectiva de gênero e ampliação da proteção social. O relatório alerta que, na prática, a “flexibilidade” prometida pelas plataformas é condicionada por algoritmos que favorecem quem tem disponibilidade total – geralmente penalizando mulheres com responsabilidades de cuidado.

Baixa participação feminina no transporte

No setor de transporte por aplicativo, a presença feminina ainda é reduzida. O Brasil aparece com a maior participação relativa da região, tanto em proporção da população feminina economicamente ativa quanto na taxa de representação feminina.

Ainda assim, os números são baixos em toda a Ibero-América: cerca de 220 mil mulheres atuam nesse segmento, que segue majoritariamente masculino. Países como Peru e Colômbia registram os menores níveis de participação.

Algoritmos penalizam as mulheres

O estudo mostra que os algoritmos não “punem” formalmente, mas operam por meio de incentivos que afetam diretamente as trabalhadoras:

  • redução da visibilidade para quem recusa ou demora a aceitar tarefas;
  • impacto negativo em rankings e avaliações;
  • restrição na escolha de horários de trabalho;
  • desconsideração de fatores como saúde ou responsabilidades familiares;
  • risco de desativação de contas, inclusive como forma de desestimular organização coletiva.

Na prática, esses mecanismos favorecem quem pode trabalhar em horários de pico, como à noite, criando desvantagem para mulheres.

O peso do trabalho de cuidados

A divisão desigual do trabalho doméstico aparece como um dos principais fatores de desigualdade. O estudo descreve um “círculo vicioso” entre cuidados, menor renda e precarização.

Esse impacto se dá de várias formas:

  • Menor jornada: mulheres trabalham, em média, 16 horas semanais nas plataformas, contra 25 horas dos homens, o que amplia a diferença de renda total.
  • Flexibilidade limitada: a necessidade de conciliar cuidados impede atuação em horários mais rentáveis, reduzindo ganhos e visibilidade.
  • Trabalho não remunerado: cerca de 25% do tempo é gasto em espera ou busca por tarefas, sem pagamento.
  • Penalização da maternidade: mães, especialmente com filhos pequenos, têm menor inserção e recebem menos, enquanto homens com filhos tendem a ganhar mais.
  • Concentração em atividades menos rentáveis: muitas mulheres acabam em microtarefas ou funções remotas de menor remuneração.

Propostas para enfrentar o problema

O relatório propõe uma série de medidas para reduzir as desigualdades e garantir condições mais justas de trabalho:

  • Regulação com perspectiva de gênero, assegurando igualdade salarial;
  • Transparência algorítmica, para evitar discriminação automatizada;
  • Ampliação da proteção social, incluindo acesso a direitos trabalhistas;
  • Redistribuição das tarefas de cuidado, com políticas públicas específicas;
  • Combate ao assédio, com canais de denúncia e protocolos claros;
  • Inclusão digital, com acesso a tecnologia e capacitação.

Acesse aqui íntegra do relatório

Lançamento e articulação internacional

O estudo foi apresentado durante evento realizado na Casa de América, em Madri, reunindo representantes de organismos internacionais e autoridades. Durante o lançamento, a secretária para a Cooperação Ibero-americana da SEGIB, Lorena Larios, destacou a importância do documento para orientar políticas públicas na economia digital.

Já a diretora regional da ONU Mulheres, Bibiana Aído, defendeu que a superação das desigualdades depende de ação conjunta entre governos, setor privado e instituições internacionais.

O levantamento reforça que, sem intervenção pública e regulação adequada, a economia de plataformas tende a reproduzir - e em alguns casos aprofundar -desigualdades históricas de gênero no mundo do trabalho.

(com informações da Segib)