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Trabalhadores de startups denunciam demissões coletivas e até por meio do Zoom

Empresas alegam aumento de juros e falta de investimentos e demitem para enxugar negócios. A forma como demitem pode causar problemas de saúde mental, alerta especialista

Publicado: 27 Junho, 2022 - 08h30 | Última modificação: 27 Junho, 2022 - 10h18

Escrito por: Rosely Rocha | Editado por: Marize Muniz

Marcelo Camargo / Agência Brasil
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Trabalhadores e trabalhadoras de startups denunciam demissões coletivas, algumas anunciadas em meio a reuniões virtuais realizadas via aplicativo Zoom, que eles consideram uma humilhação. Para especialistas, além do constrangimento, este tipo de dispensa pode se transformar em um problema de saúde mental.

Somente este ano, já foram demitidos mais de dois mil trabalhadores e trabalhadoras de startups, segundo levantamento do Layoffs Brasil. Até agora já demitiram em massa no Brasil, as empresas Facily, Kavak, Vtex, Favo, Quinto Andar, Loft, Olist, Mercado Bitcoin, Zak, Bitso, TGroup, Sami e Sanar.

A última a anunciar demissões foi a Shopee, plataforma de marketplace, de rede de Cingapura. Na última semana a empresa demitiu 50 pessoas dos dois escritórios que mantém na cidade de São Paulo.

Todas as empresas dispensaram dezenas, e em alguns casos até centenas, de trabalhadores ao longo do primeiro semestre de 2022. A que mais dispensou até agora foi a revendedora de carros usados, Kavak, com cerca de 300 demissões, em maio passado.

Quem trabalhava nessas empresas se queixa da humilhação de ter sido demitido em meio a reuniões virtuais. Trabalhadores que não quiseram se identificar disseram ao jornal Folha de São Paulo, que houve casos de até 35 demissões ao mesmo tempo.  

Ainda segundo a reportagem, a startup Zak, de gestão de restaurantes anunciou para seus funcionários em uma reunião por vídeo, que seriam demitidos 40% do quadro, alegando que um investidor havia voltado atrás em um aporte de recursos. Outras empresas culpam os juros altos praticados no país. A taxa Selic do Banco Central (BC) subiu para 13,75% este mês.

A forma como esses trabalhadores têm sido demitidos preocupa tanto pela questão financeira como pela saúde mental. Uma pessoa demitida pode desenvolver o sentimento de culpabilização, redução da autoestima, a sensação de impotência e de incapacidade para tentar se reinserir no mercado de trabalho, explica a terapeuta ocupacional de saúde, do Hospital Sírio Libanês, Thaynah Oliveira.

De acordo com ela, os sentimentos podem ser de desesperança, frustração, revolta, interiorização, fracasso e gerar impactos a saúde mental, em especial. “Podemos considerar que há uma potencialização destas questões, se esse processo é realizado de maneira abrupta e inesperada, e também a forma como é realizado, como em reuniões coletivas”.

“Apesar de essa situação não ser fácil ou agradável, a forma como é comunicado o processo demissional pode ser determinante para a maneira como o trabalhador lidará com a situação”, afirma a terapeuta.

Com a reforma Trabalhista do governo de Michel Temer, as homologações podem ser feitas sem passar pelos sindicatos que ficam sem informações sobre o que está de fato ocorrendo e poder atuar, critica o secretário de Relações de Trabalho da CUT Nacional, Ari Aloraldo do Nascimento, lembrando que a nova lei vale tanto para as dispensas individuais como as coletivas.

“Temos informações gerais, mas desconhecemos quem está trabalhando em casa, até em função da pandemia. Esse trabalhador, principalmente dessas startups vai envelhecer, ser dispensado, se torna descartável e está sem proteção de políticas públicas e sindicais”, pontua o dirigente.

A orientação da CUT, segundo Ari Aloraldo, é para que os trabalhadores demitidos desta forma procurem os seus sindicatos, mesmo que não sejam filiados, e façam denúncias junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT). O jurídico do Sindicato e o MPT podem analisar se cabe alguma ação individual ou coletiva por danos morais.

“O que não pode é esse trabalhador ser invisível do ponto de vista de relação contratual, tanto para o Estado como para a organização do trabalhador. Por isso, é necessária uma regulamentação e uma política pública que trate sobre essas formas de contratação”, conclui Ari Aloraldo.

Segundo a terapeuta ocupacional, para evitar esse tipo de ruptura entre o trabalhador e a empresa, algumas estratégias podem ser feitas, como fazer um diálogo individual, claro e objetivo, que situe o trabalhador sobre o motivo da demissão, principalmente se o motivo se relaciona com uma demanda do momento da empresa e não com o desempenho do próprio trabalhador.

“Orientar como o processo demissional se dará, os fluxos, o setor, a quem se direcionar, documentações etc.; e ainda dar opções sobre como pode ser feito essa finalização, pode encerrar esse ciclo de forma mais amistosa”, diz Thaynah Oliveira.