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Trabalhadores da Latam denunciam pressão de chefes para apoiarem Bolsonaro

Funcionários com posicionamento diferente ou que preferem a neutralidade dizem se sentir intimidados; coações eleitorais atingem 199 denúncias em 60 empresas

Publicado: 25 Outubro, 2018 - 17h22 | Última modificação: 25 Outubro, 2018 - 17h48

Escrito por: Rafael Silva - CUT São Paulo

Reprodução
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Trabalhadores e trabalhadoras da companhia aérea Latam denunciam a pressão que estão sofrendo de seus chefes por não declararem voto ou serem contrários ao candidato de extrema direita, Jair Bolsonaro (PSL). Em denúncia à CUT-SP, eles contam que, ao optarem pela neutralidade ou indicarem que vão votar em Fernando Haddad (PT), passam a ser alvos de chacotas entre a equipe ao longo do voo, criando “um ambiente insuportável" de trabalho.

Questionada pela CUT-SP, a companhia aérea diz não ter conhecimento dos casos e que "repudia veementemente qualquer tipo de ofensa e prática discriminatória". Em nota à CUT-SP, a Latam informa que "adotará as medidas cabíveis a respeito do tema". A empresa também reitera que "a segurança é um valor imprescindível que perpassa todas as operações da empresa".

Segundo a tripulação (os nomes serão preservados para evitar retaliações), o questionamento, na maioria das vezes, parte dos comandantes e ocorre durante a apresentação interna entre os integrantes da equipe do voo, que se reúne numa sala da empresa. O momento é utilizado para tratar das normas de segurança, mas temas políticos têm surgido em meio às conversas, com elogios ou referências a Bolsonaro. Quem não entra na conversa ou se mostra indiferente, acaba sendo tachado de “petralha” ou “pão com mortadela” e sente uma intimidação durante o trabalho.

Em uma mensagem compartilhada por WhatsApp, uma das trabalhadoras da Latam diz a outra colega que seu emocional está sendo afetado por ter de fazer intensas discussões sobre o tema no ambiente de trabalho.

Para completar, uma foto mostrando funcionários uniformizados e fazendo sinais de armas com as mãos, em alusão ao candidato do PSL, dentro de uma aeronave estacionada, teve forte repercussão após a atriz Monica Iozzi e a jornalista Cilene Victor compartilharem em suas redes sociais e questionarem a segurança dos passageiros - já que o ato incita a violência.

Uma circular interna, divulgada na quarta-feira (24) para os funcionários e assinada pelo CEO Jerome Cardier, afirma não ser permitida "nenhuma publicação ou veiculação que expresse manifestações sobre política, raça, religião, gênero ou orientação sexual quando uniformizados e/ou em ambientes ou dependências da Latam". Notícia no site Campo Grande News informa que os comissários e pilotos que aparecem na foto foram punidos, mas que a empresa não detalhou o procedimento adotado.

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Foto que circulou amplamente nas redes sociais nos últimos dias

Não é somente a Latam

As eleições de 2018 serão marcadas pelo número recorde de denúncias de coação praticada por empresas ou chefes aos seus funcionários. Na maioria dos casos, os trabalhadores enfrentam constrangimentos públicos para que declarem apoio ao candidato de extrema direita ou atuem em defesa dele. Até o momento, a Procuradoria Geral do Trabalho (PGT) já registrou 199 denúncias contra 60 empresas instaladas no país.

O caso que mais repercutiu foi o do empresário Luciano Hang, que reuniu os funcionários de sua empresa, a rede Havan, e ameaçou até com o fechamento de lojas e demissão em massa se “a esquerda ganhar”. Após essa ação, a Justiça do Trabalho determinou que Hang fizesse um vídeo afirmando que os trabalhadores são livres para decidirem sobre o voto, sob pena de uma multa de R$ 500 mil.

Outro caso polêmico está na Rede Record, onde o constrangimento envolve jornalistas, com casos até mesmo de desligamento. O proprietário da empresa, o pastor Edir Macedo e líder da Igreja Universal do Reino de Deus, declarou voto em Bolsonaro no início de outubro. Desde então, os veículos da rede -Record TV, Record News, rádio Record e portal R7 - têm evitado veicular notícias que pareçam negativas ao candidato, além de dar tratamento desigual a Haddad. Com exceção do site, as emissoras utilizam concessões públicas, o que na teoria proíbe tratamento diferente às candidaturas. Apesar disso, o grupo segue desafiando a lei eleitoral.

A pressão sobre os jornalistas fez com que a chefe de reportagem do Jornal da Record, Luciana Barcellos, pedisse demissão na semana passada. No Rio Grande do Sul, o jornalista Juremir Machado da Silva pediu, ao vivo, para sair do programa "Bom Dia", da Rádio Guaíba, que pertence ao grupo Record, após ser censurado e proibido de fazer perguntas a Bolsonaro. Já no R7, os profissionais estão preferindo não assinar os textos que consideram ter viés partidário.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, após denúncia dos trabalhadores, solicitou reunião com a emissora, mas não obteve resposta da empresa até a tarde desta quinta-feira (25). A entidade também ingressará com uma ação no Ministério Público dos Direitos Humanos por entender que houve a violação de garantias profissionais dos jornalistas no atual período eleitoral.

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