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“Sou Lula até a morte, meu irmão”, diz baiano em visita ao acampamento  

José Elias, cadeirante, militante que não desiste da luta, é um dos milhões de brasileiros que só se sentiram representados por Lula. Tanto que ele diz sem pestanejar que trocaria de lugar com o ex-presidente

Publicado: 19 Abril, 2018 - 17h13 | Última modificação: 19 Abril, 2018 - 17h22

Escrito por: João Marcelo B. Cardoso, do Sindicato dos Bancários de Curitiba

Gibran Mendes
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O baiano, José Elias de Almeida Bulhões, 57 anos, cadeirante que ficou paraplégico há 14 anos quando foi baleado em uma tentativa de assalto em Brasília, é mais um nordestino que se sentiria honrado em trocar de lugar com o ex-presidente Lula, preso político na sede da Superintendência da Polícia Federal (PF), em Curitiba, no Paraná, desde o dia 7 de abril. Nos últimos dias, pelo menos dois pernambucanos publicaram vídeos nas redes sociais afirmando que ficariam presos no lugar de Lula.

“Para mim, seria uma imensa honra. Trocaria de lugar com ele [Lula] a qualquer tempo“, disse José Elias à reportagem do Portal CUT, na manhã desta quinta-feira (19), ao visitar o Acampamento Lula Livre, instalado nas proximidades da sede da PF.

O aposentado, que é divorciado e pai de um filho, conta que escolheu Curitiba para morar há 10 por causa da acessibilidade da capital paranaense, que já acampou em uma área ocupada pelo Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST) durante cinco anos, e que conhece bem a disciplina e organização dos movimentos populares do Brasil.

Falante e bem-humorado, José Elias diz que não esperava nada menos do que o que viu no acampamento montado para apoiar e prestar solidariedade a Lula. “Não foi nenhuma surpresa encontrar um ambiente limpo, seguro, pacífico e absolutamente feliz”, diz ele.

“Embora estejamos aqui por um motivo triste, que é a prisão política do presidente Lula, a disposição e vontade estampadas no rosto de cada militante conferem uma áurea de alegria e esperança ao acampamento”, explica o aposentado.

Para ele, tanto essa mobilização em defesa da liberdade de Lula quanto os atos por melhoria nas condições de trabalho e renda da classe trabalhadora, como foi o caso da greve dos professores do Paraná, em 2015, que foi massacrada pela Polícia Militar do ex-governador Beto Richa (PSDB) – o tucano renunciou ao cargo para concorrer a uma das duas vagas do estado ao Senado -, são lutas por igualdade, justiça, inclusão social e direitos que só tiveram espaço e se transformaram em políticas públicas concretas nos governos de Lula e Dilma.  

“Moramos em um país excludente, que possui a maior concentração de renda do mundo, e isso só começou a mudar nos governos do Presidente Lula. A partir dali passei a me sentir representado”, afirma José Elias.

Ele conta que mora em uma casa do programa Minha Casa, Minha Vida – programa criado na gestão do ex-presidente Lula que beneficiou cerca de 6,8 milhões de brasileiros - e faz questão de afirmar que isso só foi possível graças ao Lula.

 “Até Lula assumir a presidência, jamais achei que seria possível eu ter minha casa própria. Hoje eu tenho minha casa, que é o meu orgulho e meu porto seguro e devo isso ao Lula,” conta o aposentado.

“Se sou Lula? Até a morte, meu irmão, até a morte”.

Massacre de 2015 no Paraná

Outro tema que não sai da cabeça de José Elias é massacre que a polícia de Beto Richa contra os professores no dia 29 de abril de 2015, durante ato público em defesa do direito dos servidores públicos, na sua maioria professores, pela não aprovação da reforma da Previdência proposta pelo governo do estado do Paraná, em frente à Praça dos Três Poderes.

Ele estava lá, militando na luta dos servidores e diz que quase morreu sufocado.

“Quando ouvi os estrondos, resultado das ações violentas dos policias militares contra os servidores, fiquei muito assustado. As bombas, quando estouraram, dispersaram a multidão que protestava, e eu acabei ficando só”.

Ele diz que não sabia se colocava a mão no rosto ou se tentava se locomover devagar em sua cadeira de rodas para fugir do caos que se estabeleceu naquela praça. Quando chegou em casa, parecia que o pior ainda não havia passado.

“Como eu não sinto minhas pernas, só ao chegar em casa percebi que tinha recebido uns 7 tiros de borracha da cintura para baixo. Fiquei muito revoltado, triste, decepcionado mesmo”, conta o aposentado com a voz embargada, com lágrimas de revolta nos olhos, lembrando que naquele dia foi salvo por um “corajoso grupo de professores, que se arriscaram em meio a todo aquele caos estabelecido. Não fosse por eles não sei se estaria aqui hoje”.

Gibran Mendes/CUT-PRGibran Mendes/CUT-PR

“Como foi possível eles fazerem aquilo? Afinal, aquelas pessoas não representavam nenhum risco. Ali estavam professores, servidores do estado. Não havia nenhum indício de desordem ou depredação do patrimônio público. Não havia justificativa para tal ato”, diz o aposentado, afirmando que “é preciso lembrar para que nunca mais aconteça”.

Elias encerra dizendo que não se arrepende de ter participado daquele ato,  que faria tudo de novo, que protestar contra injustiças e por direitos é papel de cada pessoa, como cidadão.