• TVT
  • RBA
  • Rádio CUT
MENU

Sindicalistas da Alemanha criticam apoio de empresas do país a Bolsonaro

Em solidariedade aos trabalhadores brasileiros, sindicalistas alemães criticam pauta neoliberal de Bolsonaro, repudiam o apoio de empresas alemãs ao atual governo e reforçam a adesão à luta por Lula livre

Publicado: 18 Fevereiro, 2019 - 16h48 | Última modificação: 18 Fevereiro, 2019 - 17h25

Escrito por: Redação CUT

Reprodução
notice

Em nota de apoio à luta dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros, sindicalistas alemães criticaram as pautas de retirada de direitos imposta pelo presidente de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL) e repudiaram o apoio de representantes de empresas alemães à política neoliberal do atual governo.

“Frente às investidas [de Bolsonaro] contra a democracia, os direitos humanos e sindicais, estamos revoltados com o apoio incondicional dessa política de extrema direita, declarado em público por representantes de empresas alemãs no Brasil”, criticam os sindicalistas.

"Em vez de aprender com as pesquisas [da Comissão da Verdade] que publicaram sobre seu envolvimento nefasto na ditadura [no Brasil] do passado, empresas alemãs voltam a sustentar uma ditadura iminente que, outra vez e com todos os meios disponíveis, vai combater a atuação dos sindicalistas nas empresas", denunciam.

Na nota, eles apontam, ainda, que uma das lutas mais urgentes, diante da gravidade dos ataques à democracia e às liberdades individuais, é a libertação do ex-presidente Lula, preso injustamente e retirado do processo eleitoral por meio de manobras políticas e jurídicas que resultaram na ascensão do governo de extrema-direita no Brasil.  

“O movimento sindical internacional deve lutar pela libertação de Luiz Inácio Lula da Silva que foi encarcerado arbitrariamente. Nós, sindicalistas na Alemanha, declaramos nossa adesão à campanha “Lula Livre“ e convocamos nossa confederação nacional (DGB) a participar desse movimento!”, diz trecho da nota.

O secretário de Relações Internacionais da CUT, Antonio Lisboa, agradeceu a solidariedade e preocupação do movimento sindical alemão e disse que ações como essa fortalecem a luta e reforçam a denúncia internacional sobre o que está acontecendo no Brasil.

"Agradecemos a expressiva manifestação de solidariedade e preocupação do movimento sindical alemão com esse momento dramático pelo o qual estamos passando”, diz Lisboa.

“Essas manifestações contribuem para uma pressão internacional ainda maior para o restabelecimento de nossa normalidade democrática através do respeito as liberdades e direitos humanos".

Confira a nota na íntegra:

Solidariedade com os companheiros brasileiros

Não a todas as formas de apoio do governo Bolsonaro por empresas alemãs!

No dia 28 de outubro, Jair Bolsonaro, ex-militar de extrema direita, foi eleito presidente da República Federativa do Brasil, cargo que ocupa desde que tomou posse em 1º de janeiro de 2019. As eleições presidenciais ocorreram sob o signo da inelegibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva que liderava as intenções de voto.

Ex-presidente do Brasil, Lula é a liderança histórica da CUT, que contribuiu decisivamente para o fim da ditadura militar nos anos 80. A campanha difamatória deflagrada pelos meios de comunicação dominantes contra a “política da esquerda” e o Partido dos Trabalhadores (PT), um partido de cunho socialdemocrata, bem como os atos de violência contra os “esquerdistas” e outros “suspeitos”, que culminaram no assassinato de 50 militantes, indígenas e homossexuais, são preocupantes: em todas as áreas, isto é, economia, direitos sociais, igualdade de gênero, homossexualidade e proteção das florestas tropicais, Jair Bolsonaro tem assumido posições extremamente reacionárias.

Além disso, é defensor assíduo da ditadura militar que, ao longo de duas décadas (1964-1985), instituiu um regime de terror tendo assassinado mais de 1.000 brasileiros. Bolsonaro lamenta que o regime militar não matou uns 30 mil a mais. São essas as medidas concretas anunciadas pelo governo Bolsonaro:

- proibição de movimento socais, nomeadamente dos trabalhadores rurais sem terra (MST, MTST) e dos sem teto urbanos por meio de uma legislação de combate ao terrorismo que, eventualmente, possa ser aplicada, ainda, a organizações da esquerda e sindicatos dos trabalhadores;

‐ exclusão de ilicitude para determinadas forças policiais, em caso de tortura, execuções sumárias, etc;

‐ intensificação de “reformas” neoliberais (previdência, legislação trabalhista), privatização da Petrobras;

‐ remoção de exigências ambientais essenciais por meio do enfraquecimento do Ministério do Meio Ambiente;

- apoio incondicional do agronegócio;

- reforma dos currículos das escolas e universidades no âmbito de uma “revolução na educação” sob o controle das igrejas evangélicas que propõe medidas como o fim da pesquisa de gênero;

‐ investidas contra os direitos de mulheres e LGBT, propagação de papéis reacionários de gênero – incluindo a banalização da violência sexual e sexualizada que afeta dezenas de milhares de mulheres e pessoas sexualmente oprimidas;

‐ a imprensa crítica, como o jornal liberal “Folha de São Paulo”, é ameaçada de boicote e exclusão das coletivas de imprensa por ter divulgado práticas ilegais de financiamento da campanha presidencial de Jair Bolsonaro.

Frente a essas investidas contra a democracia, os direitos humanos e sindicais, estamos revoltados com o apoio incondicional dessa política de extrema direita, declarado em público por representantes de empresas alemãs no Brasil.

Por um lado, os investimentos de empresas alemãs são importantes para a economia brasileira: as mais de 12.000 empresas alemãs que atuam no Brasil representam quase 10% do PIB brasileiro. Por outro lado, destacamos o envolvimento de empresas alemãs em atrocidades cometidas nos tempos da ditadura militar que, há pouco tempo, começaram a ser pesquisadas e debatidas. A “Comissão Nacional da Verdade” obrigou o grupo Volkswagen a arcar com os custos de uma pesquisa sobre a atuação da Volks durante a ditadura. Os pesquisadores provaram que diretores da Volkswagen deduraram e entregaram ao regime militar vários sindicalistas “incômodos” que figuram nas listas de desparecidos e mortos.

Sendo assim, é um escândalo que Andreas Renschler, diretor do grupo Volkswagen responsável pela divisão veículos comercias, acha positiva a ascensão ao poder por Jair Bolsonaro (cf. a revista alemã Der Spiegel edição de 02/11/18, “Stramm nach rechts”). Wolfram Anders, presidente da Câmara de Indústria e Comércio Brasil-Alemanha de São Paulo, apoiou a campanha presidencial de Jair Bolsonaro para prevenir um cenário à Venezuela (ibd.). Quando Bolsonaro vociferou contra seus adversários políticos, na FIESP, a plateia, na qual não faltaram representantes de empresas alemãs, o aplaudiu de pé.

Roberto Cortes, diretor da VW Trucks and Busses no Brasil, e Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz do Brasil, tampouco pouparam elogios a Bolsonaro (cf. o jornal suíço Neue Züricher Zeitung de 14/11/18,  “Keine Angst bei Unternehmen”). Além da indústria, vários bancos alemães vêm apoiando as posições de extrema direita de Jair Bolsonaro: no twitter, o “Deutsche Bank“ e, em sequência, o “Commerzbank” realçaram que Bolsonaro era o “favorito dos mercados” (cf. jornal alemão Frankfurter Rundschau de 25/11/18).

São exemplos que provam que empresas alemãs são um esteio importante de um político de extrema direita cujo governo vai tomar medidas que fazem lembrar uma ditadura fascista. Em vez de aprender com as pesquisas que publicaram sobre seu envolvimento nefasto na ditadura do passado, empresas alemãs voltam a sustentar uma ditadura iminente que, outra vez e com todos os meios disponíveis, vai combater a atuação dos sindicalistas nas empresas.

Nós, que estamos em contato com sindicalistas brasileiros e conhecemos a situação brasileira, tememos que nossos colegas voltem a se tornar vítimas da perseguição e violência de um estado de posturas arbitrárias. Nos últimos trinta anos, o Brasil foi palco e exemplo de uma ascensão do movimento sindical sem a qual as mudanças e avanços democráticos teriam sido impossíveis. Está a hora de reforçar nossa solidariedade!

Por isso, reivindicamos que o IG Metall- sindicato nacional dos metalúrgicos na Alemanha, o ver.do - sindicato unificado dos serviços e a DGB - confederação sindical da Alemanha, peitem a Volkswagen, a Mercedes, o Deutsche Bank e todas as demais empresas alemãs que declaram apoio ao projeto de extrema direita defendido por Jair Bolsonaro.

Solicitamos que os sindicatos IG Metall e ver.di e nossa confederação sindical, a DGB, apoiem o movimento sindical brasileiro, notadamente em sua luta contra a reforma da previdência e a privatização da Petrobras. As manifestações e greves dos companheiros brasileiros clamam por atos de solidariedade.

Revindicamos que o IG Metall, ver.di e a DGB respondam - com boicotes e sanções - as políticas antidemocráticas e desumanas do governo Bolsonaro. Antes de mais nada, o movimento sindical internacional deve lutar pela libertação de Luiz Inácio Lula da Silva que foi encarcerado arbitrariamente. Nós, sindicalistas na Alemanha, declaramos nossa adesão à campanha “Lula Livre“ e convocamos nossa confederação nacional (DGB) a participar desse movimento!

Reivindicamos que os sindicatos IG Metall e ver.di, bem como a nossa DGB, endossem os protestos internacionais contra a posse de Jair Bolsonaro no início de 2019!