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Sérgio Nobre: sindicatos podem reconstruir o Brasil e derrotar a extrema direita

Presidente da CUT ressaltou, em seminário internacional, que a extrema direita, apesar de ter perdido a última eleição está viva, e é preciso que o movimento sindical se fortaleça para derrotá-la novamente

Publicado: 19 Outubro, 2023 - 15h21 | Última modificação: 19 Outubro, 2023 - 15h46

Escrito por: André Accarini | Editado por: Rosely Rocha

Roberto Parizotti/CUT
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As táticas e estratégias da extrema direita em nível global e uma resposta à sua ascensão foram temas do Seminário Internacional '"Democracia, Trabalho e Combate à Extrema Direita", evento que antecedeu o 14º Congresso Nacional da CUT (CONCUT), que está sendo realizado no Expo Center Norte, na capital de São Paulo.

Na abertura do seminário, o presidente da CUT, Sérgio Nobre, fez um resgate da história recente do Brasil para contextualizar como a extrema direita atua e quais as consequências para a democracia.

O dirigente falou sobre a luta do campo progressista para trazer de volta ao poder um governo voltado à classe trabalhadora, com sua representação máxima, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Essa vitória não teria sido possível se o candidato não fosse o Lula”, salientou Sérgio Nobre.

Roberto ParizottiRoberto Parizotti

 

“Foi a batalha mais dura que travamos ao longo dos 40 anos da CUT; uma vitória apertada, mas que agora nos criou as condições de reconstruir o Brasil”
- Sérgio Nobre

Fio condutor do seminário, o papel do movimento sindical na luta contra a extrema direita, também foi exemplificado pelo presidente da CUT. Nobre lembrou que a atuação e a militância da CUT, sindicatos e centrais sindicais, inclusive em outros países, foram fundamentais para a recuperação dos direitos políticos de Lula.

“As centrais sindicais do mundo que construíram o movimento Lula Livre foram fundamentais para que o presidente fosse vitorioso”, disse Sérgio Nobre ao agradecer o apoio dessas entidades e reforçar que foi uma vitória da democracia e uma derrota para a extrema direita.

“Foi uma vitória muito importante, num momento decisivo para nós da classe trabalhadora brasileira, mas, com certeza, foi uma vitória também dos democratas do mundo”, destacou.

Apesar da vitória de Lula, o presidente da CUT alertou que a classe trabalhadora tem grandes desafios pela frente, pois a extrema direita não está morta no Brasil. Ela saiu com muita força ainda e jamais podemos subestimá-la.

“Nós temos que seguir lutando. Temos uma batalha muito importante porque eles querem voltar em 2026. E o nosso maior desafio, além de recuperar os direitos perdidos, que eles nos arrancaram ao longo dos seis anos que governaram o nosso país, é consolidar e fortalecer o movimento sindical e a tarefa mais importante é uma vitória em 2026, reelegendo o presidente Lula“, concluiu Sérgio Nobre.

Primeira mesa

Os participantes do primeiro debate do seminário, coordenado por Antonio Lisboa, secretário de Relações Internacionais da CUT, apontaram os principais aspectos que se referem à extrema direita e como essa ideologia ‘arrebanha’ as pessoas. Christoph Heuser, da Fundação Fredrich Ebert afirmou que uma das táticas foi enfraquecer os movimentos populares.

“Sentimos fortemente os ataques a essas organizações, responsáveis pelo tecido social, pela resistência e pela luta”, disse Heuser. Ele destacou a importância em se discutir o tema no seminário por “estarmos em processo de reconstrução”.

Como resposta, disse, é preciso colocar os trabalhadores no centro do debate do combate ao extremismo, e esse é um desafio do movimento sindical, não só no Brasil, mas do mundo. “É preciso dar uma resposta ao ódio”, pontuou Heuser.

Representando o Ministério dos Direitos Humanos do governo brasileiro, a antropóloga e pesquisadora Letícia Cesarino, trouxe um “raio-x” da atuação da extrema direita, sugerindo estratégias de combate.

“Embora dispute eleições, é uma força política que ocupa cada vez mais os espaços. É uma força ‘metapolítica’ porque se coloca como alternativa à democracia”, diz Letícia. Metapolítica é uma disciplina filosófica que tenta estabelecer os fundamentos últimos da política e, em consequência, as funções nas quais a política deve atuar.

“É preciso entender o apelo do discurso junto a segmentos sociais populares que até pouco tempo atrás eram mais progressistas”, citando como exemplo que até mesmo os slogans usados pela extrema direita são alienadores. Como os famosos “direitos humanos para humanos direitos” e “bandido bom é bandido morto”.

Para ela, há que se modificar o método pedagógico de diálogo, trabalhar o bom senso das pessoas, com perspectivas de transformação. “Novas formas de atuar, novos atores que estão no radar dos direitos humanos e do movimento sindical. Temos que correr atrás disso”, disse Letícia se referindo às formas de comunicação que podem ser usadas.

Oposição ao fascismo

O presidente da Confederação Sindical Internacional (CSI), Luc Triangle –reforçou que a agenda do movimento sindical internacional é oposta à agenda da extrema direita. “Eles dividem as pessoas, usam os pobres e os mais vulneráveis e tentam fazer que pareçam inimigos da sociedade (...) são nacionalistas, populistas e extremistas”, disse.

Além de citar veículos de comunicação controlados pela extrema direita como o Twitter e Fox, nos Estados Unidos, e a necessidade de combatê-los, Luc falou sobre o vínculo entre a ascensão do fascismo com os interesses de grandes corporações. Em suma, quanto mais enfraquecida fica a democracia, maior o controle sobre os trabalhadores e o ataque aos direitos.

Cristina Faciaben (CCOO Espanha), disse que é preciso construir uma estratégia de combate a partir do mundo do trabalho.

“A democracia e a classe trabalhadora estão em perigo. A ultra direita não só quer derrotar a democracia, quer esvaziar as instituições e acabar com os serviços públicos e, assim eliminar direitos “.

A mesa contou ainda com  Eulogia Familia, (CNUS), da República Dominicana, que comentou o debate.

Roberto ParizottiRoberto Parizotti

Segunda mesa

O segundo debate, coordenado por Quintino Severo, secretário adjunto da Secretaria de Relações Internacionais da CUT, trouxe experiências sobre a organização dos trabalhadores como ferramenta de fortalecimento da democracia.

A cientista política e pesquisadora sobre a extrema direita há 10 anos, Camila Rocha ,disse que é preciso em primeiro lugar entender que, na verdade, estamos vivenciando hoje uma crise da ordem política neoliberal, apesar do neoliberalismo continuar dominante na economia, mas do ponto de vista político esse sistema está vivenciando uma crise e que a extrema direita se aproveita disso.

“O ponto é que a direita e extrema direita, inclusive, elas não são contra o neoliberalismo, simplesmente. Elas são contra o que a gente chama neoliberalismo progressista. O que é isso? É, basicamente, como o neoliberalismo buscou se legitimar na sociedade civil, se tornando parceiro de correntes liberais e movimentos sociais, como o movimento feminista LGBTQIA+, racista, ambientalista, que então eram considerados opositores da liberalismo”.

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Mas, segundo Camila, a crescente informalidade tirou dos trabalhadores o sentido de pertencimento e o trabalho já não faz tanto sentido para eles, resultando numa crise de significado em suas vidas, tanto que uma pesquisa mostrou que 75% dos jovens brasileiros sonham em se tornar influencers.

“Os vínculos sociais ligados ao trabalho e à cidadania, compensavam a vulnerabilidade social e econômica dessas pessoas, que antes dependiam de familiares e da vizinhança”, afirmou. Para ela, a falta desses vínculos, de certa forma, torna a extrema direita atrativa para parte da população.

A mesa também foi composta por Veronica Nisson (TUAC), Paola Granda (CAT Peru), Jesus Gallego (UGT Espanha) e a representante da AFLCIO, dos Estados Unidos, Shawna Michele Bader-Blau, que comentou que a organização de trabalhadores de plataformas é uma forma de fortalecer o movimento sindical para combater os ataques aos direitos e, consequentemente a extrema direita.

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