Seminário da CUT debaterá impactos e organização dos trabalhadores por aplicativos
Encontro em São Paulo reunirá experiências do Brasil e de outros países; professora Andréia Galvão, do CESIT/Unicamp, participa de debate sobre as formas de organização da categoria
Publicado: 04 Setembro, 2026 - 09h11 | Última modificação: 04 Setembro, 2026 - 12h38
Escrito por: Andre Accarini
A CUT e a Fundação Friedrich Ebert (FES), com apoio do Solidarity Center, realizam em 22 de setembro o Seminário Internacional “Trabalho em Plataformas Digitais: Experiências de Organização, Resistência e Luta no Brasil e no Mundo”. O evento será presencial, a partir das 8h30, no Auditório da CUT, em São Paulo.
Com o objetivo de discutir caminhos de organização coletiva diante da precarização e do controle exercido pelas plataformas digitais, o seminário reunirá trabalhadores e trabalhadoras por aplicativos, coletivos, sindicatos, pesquisadores, movimentos sociais e formuladores de políticas públicas.
“Queremos discutir como essas mudanças impactam a organização da classe trabalhadora e quais caminhos, experiências e estratégias podem contribuir para fortalecer a ação coletiva, a representação e a luta dos trabalhadores e trabalhadoras em um cenário de profundas transformações”, diz a secretária Nacional de Organização da CUT, Graça Costa.
Uma das atividades do encontro terá a participação de Andréia Galvão, professora e pesquisadora ligada ao Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da Unicamp.
Andréia participará da mesa de debates dedicada às experiências de organização no Brasil. A atividade discutirá como trabalhadores e trabalhadoras têm construído formas de mobilização em um setor marcado pela informalidade, pela ausência de proteção trabalhista, sindical e social e pela fragmentação das relações de trabalho.
A mesa também terá representantes de associações e coletivos de trabalhadores, como Carina Trindade, do Sindicatos dos Motoristas do Transporte Particular de Porto Alegre (SIMTRAPLI); Rodrigo Lopes, do Sindicato dos Entregados Autônomos de Moto e Bike de Pernambuco (SEAMBAPE) ; Edna Souza, da Associação de Trabalhadores em Domicílio da Economia Solidária (ATEMDO); e Márcio Guimarães, da LIGA COOP (Federação Nacional das Cooperativas de Mobilidade Urbana).
Pesquisa sobre trabalho plataformizado
Professora da Unicamp, Andréia Galvão desenvolve pesquisas sobre sindicalismo, precarização do trabalho e os desafios da organização coletiva de motoristas, entregadores e outros trabalhadores por plataformas digitais. Ela também atua em debates do CESIT e integra a Rede de Estudos e Monitoramento Interdisciplinar das Reconfigurações do Trabalho (Remir Trabalho).
Estudos vinculados às suas pesquisas analisam as estratégias usadas por empresas de tecnologia para dificultar a ação sindical. Entre os temas estão o uso de brechas jurídicas, a fragmentação da comunicação entre trabalhadores, o monitoramento e a recusa das plataformas em reconhecer vínculos e responsabilidades trabalhistas.
As pesquisas também questionam a ideia de que trabalhadores de aplicativos rejeitam direitos. Levantamentos apresentados em estudos da Unicamp apontam que a busca por autonomia e flexibilidade não significa recusa à proteção social. O afastamento da carteira assinada está relacionado, entre outros fatores, à baixa qualidade e aos salários reduzidos de muitos empregos formais disponíveis no mercado.
Outro aspecto destacado nos estudos é a criação de redes autônomas de mobilização. Grupos de mensagens, articulações locais, associações e coletivos têm sido utilizados por trabalhadores para enfrentar bloqueios de contas, perdas salariais, acidentes, mudanças nas tarifas e outras situações impostas pelas plataformas.
O debate também envolve a disputa pela representação sindical e a necessidade de transparência sobre os algoritmos que definem tarifas, distribuição de chamadas, bloqueios e avaliações. Para pesquisadores e trabalhadores, o acesso a essas informações é fundamental para a formulação de políticas públicas e para a defesa de condições dignas de trabalho.
FES: ação por direitos no trabalho digital
A FES é uma fundação política alemã ligada à social-democracia e atua, no Brasil e em outros países, em defesa do trabalho digno, do fortalecimento sindical e da ampliação da proteção social diante das mudanças no mundo do trabalho. No debate sobre plataformas digitais, a fundação apoia a produção de pesquisas, intercâmbios entre organizações de trabalhadores e iniciativas voltadas à organização coletiva.
A parceria com a CUT no seminário faz parte dessa atuação. A FES tem promovido encontros que aproximam trabalhadores por aplicativos, pesquisadores, sindicatos e formuladores de políticas públicas, com o objetivo de analisar os impactos da plataformização e construir respostas à precarização.
A fundação também atua em cooperação com entidades sindicais internacionais e coletivos de entregadores e motoristas. Esses intercâmbios permitem compartilhar experiências de mobilização e discutir formas de enfrentar o isolamento imposto pela organização do trabalho mediada por aplicativos e algoritmos.
No campo da pesquisa, a FES mantém parceria com o CESIT/Unicamp. Um dos resultados dessa parceria é a série “Trabalho para todas as pessoas: é possível?”. A publicação traz estudos que abordam os impactos da Indústria 4.0 e da plataformização, especialmente nos países em desenvolvimento, e apresentam reflexões sobre políticas públicas e proteção aos trabalhadores.
A atuação da fundação inclui ainda o debate sobre direitos de dados dos trabalhadores. O tema envolve o acesso às informações usadas pelas plataformas para definir tarifas, jornadas, distribuição de demandas, avaliações e bloqueios. A transparência dos algoritmos é apontada como uma condição importante para que trabalhadores e poder público possam acompanhar e questionar decisões tomadas pelas empresas.
Em outros países, a FES também desenvolveu e apoiou ferramentas digitais de organização sindical. Entre elas está a Union Platform, aplicativo de código aberto criado para que entregadores possam relatar acidentes, bloqueios de contas e violações de direitos aos seus sindicatos.
No seminário, a troca de experiências entre trabalhadores do Brasil, da Colômbia, da Espanha e do Chile permitirá conhecer diferentes formas de resistência e luta. A proposta é aproximar as experiências práticas dos trabalhadores das reflexões produzidas por pesquisadores e dirigentes sindicais.
Outro tema da programação é a Convenção 193 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), aprovada este ano, na 114ª Conferência Interancional do Trabalho. A convenção vsrsa sobre trabalho decente na economia de plataforma. O encontro discutirá desafios, limites e possibilidades para a organização coletiva e sindical, além das ações da CUT pela ratificação da norma no Brasil.
As inscrições são feitas por formulário eletrônico. As vagas são limitadas a 50 participantes, e as inscrições se encerram assim que todas forem preenchidas.
Programação
8h30 | Credenciamento e acolhida
9h | Mesa de abertura — A importância desse seminário
- Sérgio Nobre, presidente da CUT
- Graça Costa, secretária de Organização da CUT
- Waldeli Melleiro, diretora de Projetos da FES
9h30 | Mesa 1 — Experiências de organização no Brasil
Tema: Como os trabalhadores e trabalhadoras estão se organizando?
Coordenação:
- Wagner Menezes, secretário de Transporte e Logística da CUT
- Rosane Bertotti, secretária nacional de Formação da CUT
Comentários:
- Andréia Galvão, professora e pesquisadora do CESIT/Unicamp
Participantes:
- Carina Trindade, SIMTRAPLI e FENASMAPP
- Rodrigo Lopes, SEAMBAPE e ANEA
- Edna Souza, ATEMDO
- Márcio Guimarães, LIGA COOP
11h30 | Mesa 2 — Experiências internacionais
Tema: O que podemos aprender com trabalhadores do mundo?
Coordenação:
- Antônio Lisboa, secretário de Relações Internacionais da CUT
Participantes:
- Luz Myrian, Unidapp — Colômbia Unión
- Nuria Soto, Riders x Derechos y Mensakas — Espanha
- Angélica Salgado, CUT Chile
14h | Mesa 3 — A Convenção 193 e as perspectivas para a organização sindical
Tema: Desafios, limites e possibilidades para a organização coletiva.
Coordenação:
- Graça Costa, secretária de Organização da CUT
Participantes:
- Eymard Loguércio, advogado sindical e assessor jurídico da CUT
- Adriana Marcolino, coordenadora técnica do DIEESE
16h30 | Mesa 4 — Ações da CUT para Ratificação da Convenção 193 da OIT