Redução da jornada liberta caminhoneiros da escravidão
Publicado: 29 Janeiro, 2008 - 14h50
O artigo abaixo, assinado por João Franzin, jornalista e assessor sindical, fala dos problemas enfrentados pelos caminhoneiros no Brasil e a recente decisão da Justiça sobre a redução da jornada para a categoria.
Caminhoneiro é escravo
Tive um amigo, dirigente sindical, que trabalhava de cegonheiro. Ele pegava a carreta em São Bernardo, integrava-se a um comboio, ia para o Sul do País, cruzava a Cordilheira dos Andes, até dar em Santiago do Chile. Lá, descarregava a carreta, pegava o avião, voltava à transportadora e, em seguida, reiniciava a via-crucis.
Quando tinha geleira nos Andes, queda de barreira ou avalanche, ele me contou que chegara a ficar 60 dias acampado no pé da montanha gelada.
Tempos depois, cansado e casamento desfeito, ele passou a trabalhar como motorista de coletivo. Uma vez perguntei por que todo motorista era barrigudo e se era por causa da cerveja.
Ele me explicou: o motorista saía de casa levando a bóia. Quando dava por volta da hora do almoço, ele encostava no ponto final e comia ali mesmo, no banco do ônibus, sentado na calçada ou no alpendre de alguma casa cristã. Em 20 minutos, sem tempo de dar uma volta no quarteirão ou movimentar-se.
Barriga leva a colesterol, pressão alta, doenças várias. O trabalhador se dana e quando está bichado toma o pé na bunda.
Esse é o sistema diabólico de exploração e desumanidade que atinge os motoristas, que dirigem estressados e alucinados pelo Brasil afora, assustando, provocando acidentes e muitas vezes matando e matando-se.
Tive amigos motoristas e conheci donos de empresa de transporte; alguns deles filhos ou netos de ex-caminhoneiros. E gente que vive bem. Quem está gordo não é por força do trabalho abusivo e sim pelo ócio da classe dominante tupiniquim. E gente que se enriqueceu rapidamente, acompanhando o avanço das estradas pelo País adentro.
Por isso, eu saúdo a decisão judicial que liberta da escravidão os motoristas e determina jornada de 8 horas. Lembro que ganhar dinheiro não é pecado. Mas explorar, empurrar para o "rebite", provocar esgotamento físico e mental em empregados é pecado. Pecado, não: é crime.