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Rede Nacional de Formação da CUT presta homenagem à João Felício

“João Felício, nosso educador sindicalista!”

Publicado: 19 Março, 2020 - 18h59 | Última modificação: 19 Março, 2020 - 19h02

Escrito por: Redação CUT

Roberto Parizotti
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Felício é o do centro da foto, de cabelos brancos

Na tarde desta quinta-feira (19), a Rede Nacional de Formação da CUT produziu um texto em homenagem ao sindicalista João Felício, professor que faleceu na madrugada desta quinta em decorrência de um câncer no estômago.

Com o título “João Felício, nosso educador sindicalista!”, o documento escrito por educadores, trabalhadores e a secretária de Formação da CUT, Rosane Bertotti, conta os caminhos que Felício percorreu na defesa dos direitos e o quanto ele incentivou e ensinou muitas pessoas na luta e na vida.

“João foi grande impulsionador da rede de formação CUTista e sempre defendeu que a formação política da classe trabalhadora, assim como os recursos destinados à educação pública, não são gastos, são investimentos sociais”, diz trecho da homenagem.

Leia o texto na íntegra:

“João Felício, nosso educador sindicalista!”

O professor de educação artística João Felício era um educador freiriano no melhor sentido do termo: a teoria aliada à prática torna a prática melhorada. Assim, João era formador na teoria e na prática da formação política.

Como Paulo Freire, João sabia que “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.

Foi na sala de aula e nos inúmeros cargos de liderança que ocupou, que João educou seus companheiros e companheiras e foi se educando na luta de classes.

Casou-se com uma companheira de luta, a professora Léa Francisconi, que lecionava geografia e tiveram dois filhos, Bruno e Marília.

Desde jovem, João entendia a importância do trabalhador se dedicar aos estudos. Ajudava o pai em Jaú a atender o balcão do açougue da família e, à noite, ao final do expediente, pegava o ônibus até a escola, seguindo esse cotidiano até se formar na Faculdade de Educação Artística, em Bauru.

João sempre quis ser sindicalista e dizia: “não sou sindicalista de gabinete” e nunca foi, estava sempre nas ruas, nas bases.

João era daquelas lideranças genuínas que apesar de ter uma posição política por vezes discordante da maioria de seu grupo político, acolhia a opinião da maioria e, muitas vezes, fazia a defesa da posição discordante nas plenárias e congressos CUTistas sempre visando qualificar o debate a partir da análise das situações concretas.

Sua atuação como sindicalista se baseou nos princípios CUTistas de autonomia, classista e solidariedade.

Destaca-se, inclusive, sua relação solidária com as trabalhadoras e os trabalhadores da agricultura familiar e suas organizações sindicais e populares, por compreender o papel estratégico deste segmento nas lutas pela democratização da terra, pela segurança alimentar e pela soberania popular no campo e nas cidades.

Era um grande entusiasta da educação do campo e, quando presidente da CUT, contribuiu para a visibilidade e luta pelo direito à educação dos trabalhadores do campo, pois entendia a importância desta bandeira de luta para a defesa e valorização do modo de vida dos povos do campo.

Esteve nos cinco continentes, inclusive atuando como presidente da CSI, e sempre a sua coerência o acompanhou em suas ações. Era socialista de formação e de prática, pois sabia bem que a união dos trabalhadores e povos do planeta edifica direitos sociais e a emancipação da classe trabalhadora.

Como formador, profissional da Educação, João também sabia que “a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda".

Esse espírito o guiou em 1989, quando presidindo a Associação dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), organizou uma greve que durou 82 dias. O resultado foi um reajuste salarial entre 51% e 126% para a categoria.

Ciente que ninguém faz a luta sozinho, João reconhecia: “Deu certo porque havia unidade”.

Por essa unidade da classe trabalhadora na luta por seus direitos, João Felício dedicou toda a sua vida, seus escritos, suas palestras que tanto nos enriqueceu com sua formação intelectual sólida  e consistente.

João foi grande impulsionador da rede de formação CUTista e sempre defendeu que a formação política da classe trabalhadora, assim como os recursos destinados à educação pública, não são gastos, são investimentos sociais.

Como atual coordenador da ARTSIND, trabalhou incansavelmente pela unidade entre as forças políticas que compõe a CUT e na defesa da formação sindical como estratégia de organização em todas as dimensões do projeto político da Central.

Ele acreditava que no papel da mística, realizada pela rede de formação nas conferências, congressos, plenárias e atividades da CUT, era um ato político e pedagógico da classe trabalhadora.

João participou das Conferências Nacionais de Formação da CUT e foi grande defensor para que realizássemos a 4ª Conferência Nacional de 2019. Infelizmente não pôde acompanhá-la porque já se encontrava em luta com um inimigo pessoal, o câncer que o ceifou de nós.

Nós da rede de formação CUTista estamos de luto. Mas luto para nós também é verbo.

Seu legado, companheiro João Felício, continuará nos inspirando a lutar pela igualdade. Como você dizia, a paz dos cemitérios não nos interessa: “É chegada a hora de construir uma nova ordem mundial baseada na justa distribuição de riqueza e de poder, a fim de que sejam alocados na produção, na educação, na saúde, na habitação e no transporte - setores em que nossos países são tão carentes - os recursos esterilizados na especulação e na indústria da morte.

Ao lado dos povos de todo o mundo, lutemos pela vida."

Nunca esse conselho foi tão pertinente, João. Estamos vivendo uma pandemia global, sob um governo de inaptos e negligentes, e estamos lutando pela vida da classe trabalhadora.

Como Paulo Freire, João sabia que ignorar o conflito entre os poderosos e os oprimidos significa ficar do lado dos poderosos, não ser neutro. João levou à risca a orientação: O educador tem o dever de não ser neutro.

João Felício, presente!

Dos seus eternos amigos e amigas da Rede Nacional de Formação da CUT, em 19 de março de 2020.