Quem não vota deixa os outros decidirem sua vida
Votar é participar das decisões sobre emprego, renda, saúde e educação. A ausência nas urnas abre espaço para quem transforma lacração em poder político.
Publicado: 05 Outubro, 2026 - 16h08 | Última modificação: 05 Outubro, 2026 - 16h14
Escrito por: Redação CUT | texto: André Accarini
Quase 33,5 milhões de eleitores não votaram no 1º turno das eleições deste ano. A descrença na política pode até tentar explicar esse afastamento, mas a ausência nas urnas tem consequências que não desaparecem quando a votação termina. Quem é eleito passa a decidir sobre a vida de todos, inclusive de quem não participou da escolha.
Você pode ignorar a política, mas a política não vai ignorar você
A política decide praticamente tudo na rotina e no futuro de uma sociedade, desde os serviços básicos disponíveis até as liberdades individuais. Ou seja, vai dos recursos para o postinho de saúde ou hospital onde sua família é atendida, o remédio de graça para quem precisa, passa pelo investimento e manutenção de escolas e universidades, políticas para o desenvolvimento comercial e industrial que geram empregos e renda além de políticas habitacionais e toda a infraestrutura das cidades.
Por isso, votar exige olhar para a própria vida e perceber quanto dela está nas mãos de quem governa e de quem aprova as leis. Significa também saber que mudanças oriundas de propostas rasas podem comprometer a vida de milhões de pessoas. Por isso a escolha do candidato certo é fundamental.
A eleição passa. As decisões ficam. Entram na sua casa, mexem no seu orçamento e afetam o futuro da sua família. Ninguém fica livre dessas consequências porque deixou de comparecer às urnas.
Há quem enfrente dificuldades reais para votar e precise de condições para exercer esse direito. Mas quem pode participar e decide se afastar por acreditar que “político é tudo igual” precisa considerar o efeito dessa escolha. A eleição vai acontecer do mesmo jeito e alguém ocupará o poder. A vida em si poderá piorar.
Portanto, o ato de não votar não deixa uma cadeira vazia. Deixa a escolha dessa cadeira para os outros.
O que está em disputa
Neste segundo turno, a decisão sobre quem governará o Brasil exige comparar projetos, trajetórias e interesses. Estão em jogo políticas sociais, serviços públicos, investimentos em ciência, educação e tecnologia, além dos caminhos para o desenvolvimento econômico.
A candidatura de Lula representa a continuidade de políticas de proteção social e de investimento público. Do outro lado, Flávio Bolsonaro representa o campo político de seu pai, Jair Bolsonaro. Avaliar essa candidatura exige também olhar para a experiência daquele governo, suas escolhas e suas consequências para a população.
Mais de 700 mil pessoas morreram de Covid-19 no Brasil. A inflação corroeu o poder de compra, e a alta dos preços deixou marcas que ainda pesam no orçamento das famílias. O desemprego aumentou, serviços públicos sofreram cortes de recursos e a violência agravou a insegurança da população. São consequências que precisam ser lembradas na hora de escolher quem vai governar o país.
Hoje, o eleitor precisa perguntar o que cada projeto oferece a quem depende do SUS, da escola pública, de uma aposentadoria ou de um salário para viver. Precisa observar quem assume compromissos com esses direitos e quem defende medidas que podem enfraquecê-los.
Precisa também saber o que pensam sobre universidades, sobre desenvolvimento, investimentos dos recursos naturais. Precisa avaliar, inclusive, se que quer o país em papel de subserviência aos Estados Unidos.
A responsabilidade política começa em "entender que uma escolha individual ajuda a definir o destino coletivo".
A lacração ocupa o espaço
Enquanto uma parte da população se afasta, grupos organizados, sem projetos para a soiedadade e com discursos de ódio mobilizam eleitores. Políticos como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato sabem explorar esse terreno, transformando visibilidade nas redes em votos e poder.
Nikolas Ferreira, deputado federal do PL por Minas Gerais, ganhou projeção no bolsonarismo com discursos conservadores, ataques à esquerda e forte presença digital. Em 2022, foi o deputado federal mais votado do país. Lucas Pavanato, também do PL, foi o vereador mais votado da capital paulista em 2024 e agora foi eleito deputado federal com mais de 3 milhões de votos, a maior votação de São Paulo, segundo o TRE-SP.
Os dois são exemplos de uma política que transforma o confronto em produto. O adversário vira personagem de um vídeo, a discussão vira duelo e a provocação vira demonstração de coragem. Nessa encenação, o político precisa aparecer como vencedor a cada corte.
São figuras da política da lacração, na qual a caricatura do combatente permanente pode ocupar o lugar da discussão sobre os problemas da população.
O próprio Pavanato explicou essa lógica em entrevista à Folha de S.Paulo: “O que desperta o interesse do público é confronto, são os discursos mais enfáticos.” Segundo ele, divulgar projetos não produz a mesma repercussão.
Essa estratégia oferece uma recompensa rápida a quem assiste: ver alguém do “nosso lado” constranger alguém do “outro lado”. O eleitor ri, compartilha, acompanha o próximo vídeo e passa a reconhecer naquele personagem um representante de suas crenças.
Não é possível reduzir a motivação de todos os eleitores à lacração. Mas o problema aparece quando a identificação com o personagem dispensa a avaliação de suas propostas e de sua atuação.
Ganhar uma discussão editada não comprova capacidade de melhorar uma escola. Humilhar alguém diante de uma câmera não resolve a fila de uma cirurgia. Acumular seguidores não demonstra compromisso com salário, emprego ou direitos.
A lacração rende audiência. Um mandato exige responsabilidade sobre a vida da população.
Participe da decisão
Quem não votou no primeiro turno precisa participar do segundo onde houver disputa. As cadeiras do Legislativo já foram definidas. A eleição para presidente e governos de estados (onde há segundo turno) afetarão a vida de todos.
Antes de votar, procure saber quem o candidato representa, quais propostas apresenta e como agiu quando teve poder. Observe se sua trajetória revela compromisso com a população e se suas posições correspondem aos direitos e às condições de vida que você quer defender.
A urna não pode virar um botão de curtida
Quem não vota continua tendo o direito de cobrar, reclamar e participar da vida pública. Mas perde, naquela eleição, a oportunidade de interferir na escolha de quem vai tomar as decisões.
O voto não resolve tudo sozinho. Ele se soma ao de milhões de pessoas e ajuda a definir quem terá poder sobre o dinheiro público, os serviços e os direitos de toda a sociedade.