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‘Quando deixar o governo, também será de forma democrática’, diz Bolsonaro a Biden

Em encontro com presidente dos EUA, mandatário brasileiro ignora a realidade do país, mostra cinismo sobre a Amazônia e retoma teses negacionistas

Publicado: 10 Junho, 2022 - 09h24

Escrito por: Eduardo Maretti/RBA

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Em encontro público com o presidente norte-americano, Joe Biden, nesta quinta-feira (9), o colega brasileiro Jair Bolsonaro voltou a mencionar suas desconfianças sobre a justiça eleitoral do país, as urnas eletrônicas e as votações de outubro. Após ouvir rápida introdução de Biden, que diplomaticamente disse querer ouvir o que Bolsonaro tinha a dizer, o chefe do Palácio do Planalto afirmou: “este ano temos eleições no Brasil. Queremos sim, eleições limpas, confiáveis e auditáveis para que não sobre nenhuma dúvida após o pleito.” Ambos estavam com semblante carregado. Depois da fala pública ainda teriam um encontro fechado

Pressionado pelas desconfianças de que não aceitará a derrota cada vez mais provável para o ex-presidente Lula, Bolsonaro emendou: “Tenho certeza que (a eleição) será realizada nesse espírito democrático”. Declarou ainda: “Cheguei pela democracia e tenho certeza que, quando deixar o governo, também será de forma democrática”.

A frase soa claramente ambígua, considerando que Bolsonaro e seus seguidores, frequentemente, têm invocado teses insustentáveis para defender o que chamam de democracia. É o caso da liberdade de expressão, por exemplo, que o bolsonarismo utiliza para justificar ataques a autoridades, instituições e ao próprio regime democrático.

Cinismo sobre Amazônia

Diante da repercussão internacional do desaparecimento do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Araújo Pereira, no Vale do Javari, no Amazonas, Bolsonaro abordou as questões em torno da Amazônia de maneira cínica: “Somos exemplo para o mundo na questão ambiental”, disse. Em relação ao tema, afirmou ainda: “temos nossas dificuldades, mas fazemos o possível para atender aos nossos interesses e também a vontade do mundo.”

Pouco antes, a jornalistas, comentou o sumiço ainda não esclarecido de Phillips e Araújo com uma abordagem grosseira: “Naquela região, geralmente você anda escoltado, foram para uma aventura, a gente lamenta pelo pior”, repetiu. Ele já usara antes o termo “aventura” como forma de responsabilizar o jornalista e o indigenista por um possível desfecho trágico.

Negacionismo ressurge

Ao falar de economia, Bolsonaro manteve o mesmo discurso negacionista adotado durante toda a pandemia para se eximir da responsabilidade pela recessão que se aprofunda no país. “Temos sempre que sermos (sic) cautelosos, porque as consequências econômicas da pandemia – com a equivocada política do ‘fique em casa’, a economia a gente vê depois’ –, agravada por uma guerra a dez mil quilômetros de distância do Brasil, são danosas para todos nós. E lá no Brasil em especial, para os mais humildes”.

O presidente brasileiro tentou ainda desfazer a animosidade que ele mesmo alimentou ao questionar a legitimidade da eleição de Biden, ao ecoar o republicano Donald Trump, de quem é assumidamente fã. “Temos interesse enorme de (nos) aproximar cada vez mais dos Estados Unidos. Vivemos há quase 200 anos em parceria. Em alguns momentos nos afastamos por questões ideológicas.”

Também afirmou que o Brasil está “à disposição para colaborar para a construção de uma saída” do conflito entre Ucrânia e Rússia. Acrescentou que “torcemos e oramos para que saiamos da situação, para que o Brasil e o mundo retornem à normalidade”.

No âmbito da Cúpula das Américas, o presidente norte-americano, por sua vez, propôs uma “ajuda” considerada irrisória para a Amazônia. Biden diz que vai direcionar US$ 12 milhões para Brasil, Colômbia e Peru dividirem. Enquanto isso, a ajuda que promete à Ucrânia de Volodymyr Zelenski é de astronômicos U$ 40 bilhões.