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Problemas graves de saúde no pós-Covid-19 mostram que doença não é uma “gripezinha”

Pesquisa analisou os dados de 2 milhões de pessoas em empresas privadas de seguro-saúde que testaram positivo para o novo coronavírus, entre fevereiro e dezembro de 2020 e reveleu sequelas

Publicado: 18 Junho, 2021 - 08h10 | Última modificação: 18 Junho, 2021 - 08h09

Escrito por: Walber Pinto

Alex Pazuello/Semcom
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O número de pessoas que, segundo dados do Ministério da Saúde, se recuperaram da Covid-19, é maior do que a quantidade de pacientes em acompanhamento médico. Das mais de 17.543.853 pessoas que foram contaminadas, mais de 15 milhões se recuperaram da doença, faz questão de destacar a Secretaria de Comunicação do governo de Jair Bolsonaro (ex-PSL e até o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga

No entanto, pesquisas comprovam que a doença não é apenas uma “gripezinha leve” como afirmou o presidente negacionista várias vezes se referindo a pandemia do novo coronavírus. Além da alta incidência de mortes, é grande o número de recuperados da Covid-19 que apresentam outros problemas de saúde meses após terem contraído o vírus e se recuperado da doença.

Um quarto das pessoas que tiveram Covid-19 e se recuperaram procurou atendimento médico um mês após o diagnóstico, de acordo com um estudo conduzido pela organização sem fins lucrativos FAIR Health, publicado na terça-feira (15), citado pelo jornal The New York Times e divulgado pelo jornal Valor Econômico. Entre esses pacientes estão aqueles que se infectaram com o coronavírus, mas foram considerados inicialmente assintomáticos.

A  pesquisa analisou os dados de aproximadamente 2 milhões de usuários de empresas privadas de seguro-saúde que testaram positivo para Covid-19 entre fevereiro e dezembro de 2020 e constatou que 23,2% dos pacientes, cerca de 450.000 pessoas - voltaram ao médico pelo menos 30 dias depois do atendimento inicial queixando-se problemas de saúde.

Na avaliação de Diego Xavier, epidemiologista do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ainda é necessário tempo para entender os efeitos da doença a longo prazo, mas pelos estudos que já estão sendo feitos, inclusive no Brasil, é possível observar problemas de saúde  entre os pacientes que se recuperam da doença.

“A gente ainda precisa de tempo para avaliar isso. No entanto, tem um estudo que está sendo feito na USP de Ribeirão Preto [interior de São Paulo] e os resultados preliminares apontam essa situação da Covid-19 por longo prazo. Cerca de 65% dos pacientes que tiveram a Covid-19 ou apresentaram alguns sintomas da doença tiveram sequelas”.

 “É importante que a gente entenda que os estudos ainda são poucos porque a doença é nova, estamos lidando com ela há um ano e meio, mas os estudos têm relatado que o cansaço, a fadiga, problema de pele, febre, dificuldade de dormir e até depressão pós-Covid”, confirma o infectologista.

Além desses problemas relatados por Diego, tem pessoas que enfrentam dificuldades respiratórias, colesterol alto, mal-estar geral, bem como casos de hipertensão. Problemas intestinais, enxaquecas, infecções de pele, anormalidades cardíacas, distúrbios do sono e anormalidades de saúde mental também foram relatados.

Muitas das pessoas que foram infectadas pelo novo coronavírus sofrem com os sintomas por meses, incluindo fadiga contínua, dor persistente e falta de ar, como foi apontado por Diego Xavier.

Existe um reconhecimento crescente por parte dos especialistas de que as pessoas estão enfrentando as consequências de longo prazo de uma infecção por Covid. Questionamentos básicos como se as pessoas que contraem o vírus persistente ou se todos vão se recuperar totalmente estão repletas de incertezas

Já teve pacientes que, por exemplo, teve problemas de saúde mental, incluindo depressão, ansiedade e dificuldade para pensar com clareza. Em milhares de casos, a recuperação é lenta e mesmo pessoas com infecções relativamente brandas podem ficar com problemas de saúde graves e duradouros.

Os pesquisadores da FAIR disseram que a pesquisa que eles frizeram é o maior estudo já conhecido sobre a duração dos efeitos da Covid-19. O sintoma pós-Covid-19 mais presente que encontraram entre as pessoas pesquisadas foi o de dores e inflamações de nervos, relatada por quase 100 mil pesquisados.

A FAIR afirma que a amostra não se estendeu a pacientes atendidos por planos subsidiados pelo governo nos programas mais populares. Pacientes com doenças crônicas pré-existentes não foram incluídos no estudo em razão da dificuldade de se distinguir quaisquer sintomas pós-Covid-19 dos sintomas associados à doença preexistente.

Profissionais estudam os efeitos

Para Irma de Godoy, presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, o ideal seria que todos os pacientes com comprometimento pulmonar durante internação fossem  acompanhados por pneumologistas após receberem alta hospitalar e, se indicado, passassem por reabilitação com fisioterapeutas.

Profissionais de saúde têm se aprofundado no estudo e na disseminação de exercícios possíveis de serem feitos em casa pelo próprio paciente, já que os ambulatórios públicos de fisioterapia estão superlotados. Algumas dessas instituições criaram "ambulatórios pós-Covid", voltados ao monitoramento de pacientes que tiveram diagnóstico grave para Covid-19 e que já receberam alta.

“A perda da capacidade, mesmo que pequena, para um atleta por exemplo, pode dificultar os movimentos. Estamos estudando ainda tudo isso”, finaliza Diego.

*Edição: Marize Muniz