Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo
Evento realizado nesta quinta (26), na Apeoesp, reuniu partidos de esquerda, diplomatas de Cuba e Venezuela e movimentos populares para articular mobilização para o encontro internacional em Porto Alegre
Publicado: 26 Fevereiro, 2026 - 23h22 | Última modificação: 26 Fevereiro, 2026 - 23h31
Escrito por: André Accarini
Na noite desta quinta-feira, 26 de fevereiro, diversas lideranças dos movimentos sociais, movimento sindical, partidos políticos e diplomatas internacionais participaram da Pré-Conferência Internacional Antifascista.
A etapa é preparatória para o encontro que ocorrerá em Porto Alegre em 26 de março com o objetivo de articular uma frente unificada contra o avanço da extrema direita. A CUT integra a organização e a articulação política da Conferência.
Realizada na sede da APEOESP, em São Paulo, a atividade teve como eixo central a construção da unidade na diversidade e a preparação de uma estratégia comum de mobilização popular, com foco na defesa da soberania dos povos, da democracia e dos direitos da classe trabalhadora.
Anfitriã do encontro, a Apeoesp foi representada pelo secretário de Finanças da entidade, Roberto Guido, que fez a saudação inicial em nome dos professores da rede estadual. Ele destacou o papel do sindicalismo na luta antifascista e anti-imperialista e reforçou o compromisso da categoria com a mobilização.
“É com muita satisfação que nós professores e professoras do estado de São Paulo recepcionamos essa atividade”, afirmou, ressaltando que a luta contra o fascismo e contra o domínio imperialista se dá “seja no Oriente Médio, seja na América Latina, seja em qualquer lugar”.
Guido lembrou ainda que o tema foi objeto de deliberação recente da categoria e que o enfrentamento ao fascismo também se dá no plano local. A categoria vem lutando contra as imposições de retrocessos na educação, promovidas pelo governador Tarcisio de Freitas (Republicanos), bolsonarista e representante legítimo do movimento fascista que ameaça o país.
“Aqui, a luta antifascista internacional tem que ser realizada de forma contundente e também do ponto de vista local”, disse. Ao mencionar os ataques à educação, saúde e às artes, alertou para o caráter abrangente das ofensivas da extrema direita. “Não é uma só forma, são várias formas que nós estamos enfrentando.”
Ele também convocou para as mobilizações em defesa da educação pública no estado de São Paulo, com assembleia e ato em 6 de março na capital paulista atos, reafirmando que a luta extrapola questões corporativas: “Além dos nossos problemas corporativos com professor, questão de salário, valorização, é uma luta de classe, é uma luta ideológica.”
Unidade como estratégia central
Dirigente do PT, professor de relações Internacionais e diretor da Fundação Perseu Abramo, Walter Pomar destacou a complexidade do momento histórico e a multiplicidade das frentes de combate.
Há uma dimensão da luta antifascista que é democrática, há uma dimensão que é popular, há uma dimensão que é antiimperialista, mas há uma dimensão também que é anticapitalista”, afirmou, situando o enfrentamento à extrema direita no contexto da crise estrutural do capitalismo
A deputada federal Sâmia Bomfim (Psol-SP) defendeu que a organização da esquerda deve ser disciplinada e permanente. “Cabe a nós, de fato, cumprir o nosso próprio exército, que é a nossa possibilidade de formação política”, declarou, ao enfatizar a necessidade de solidariedade ativa aos países latino-americanos sob ataque. Sâmia também ressaltou que o esforço coordenado na conferência precisa ter continuidade. Ela defendeu que o encontro seja um marco para processos contínuos de mobilização e de defesa da soberania.
Esse esforço que vai ser expresso e coordenado na conferência tem que ter uma vida longa na formulação, no diálogo, mas na ação concreta
Também entre as falas políticas, o dirigente nacional do PSOL, Roberto Robaina, reforçou a necessidade de superar divergências em nome da resistência. “Nós somos convencidos da importância da unidade, da unidade na diversidade”, afirmou. Para ele, a história do nazismo demonstra que “era necessário ter a unidade para enfrentar o nazismo”, tanto nos processos eleitorais quanto “na organização e na ação de rua”.
Solidariedade internacional e enfrentamento narrativo
A dimensão internacional teve destaque com a presença de representantes diplomáticos e mobilizadores estrangeiros. Éric Toussaint, cientista político, historiador de mobilizador internacional da Bélgica, defendeu a articulação global das forças progressistas. “Temos que juntar forças de todos os partidos e movimentos sociais para enfrentar a ofensiva fascista a nível internacional”, disse.
O cônsul-geral da Venezuela, Jorge Medina, chamou atenção para a disputa de narrativas. “O perigo é que ainda tem possibilidade de convencer algumas pessoas uma narrativa que é muito negativa para o mundo”, afirmou, defendendo que a conferência denuncie ataques às lideranças venezuelanas.
Também presente, o cônsul de Cuba, Benigno Pérez Fernández, reiterou a importância histórica da unidade. “A unidade é a única força capaz de vencer o imperialismo”, declarou.
Movimentos sociais e organização de base
Outras intervenções reforçaram o caráter amplo da articulação. Representantes dos Policiais Antifascistas defenderam a organização dos trabalhadores da segurança pública a partir de uma perspectiva de classe. O movimento entende policiais como “trabalhadores, antes de qualquer coisa”. Também o destacou-se a necessidade de “combater a cooptação covarde da direita do fascismo do trabalhador policial”.
Marcos de Oliveira Soares, diretor do ANDES-SN (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior), afirmou que “a resposta da classe trabalhadora sempre deve também ter a perspectiva internacionalista”.
Paulo Ginez Chrispin de Oliveira, da TLS (Trabalhadores e Trabalhadoras na Luta Socialista/APEOESP), relatou ataques a sedes sindicais e concluiu: “O fascismo está capilarizado e é obrigação nossa nos organizarmos.”
Integrantes da Ação Antifascista de São Paulo também enfatizaram a necessidade de dialogar com a juventude e alertaram para o risco de perda de comunicação com as novas gerações, observando que “existe um abismo geracional que será ocupado se a gente não fizer nada pela extrema direita”.
Guilherme Freitas, do Movimento Juntos, afirmou que a derrota da extrema direita depende da construção de alternativas concretas.“A esquerda só pode verdadeiramente derrotar o fascismo se ela se apresentar como sua alternativa”.
Veja a galeria de fotos do evento:
Mobilização rumo a Porto Alegre
A pré-conferência em São Paulo integrou o calendário de mobilização rumo ao encontro internacional em Porto Alegre, que pretende consolidar um fórum permanente de articulação contra o fascismo e o imperialismo, superando diferenças pontuais entre organizações e partidos em favor de uma estratégia comum de mobilização popular.
Com participação ativa na organização e articulação política, a CUT reafirma seu compromisso histórico com a democracia, a soberania dos povos e a unidade da classe trabalhadora como método fundamental de enfrentamento à extrema direita — nas instituições, nas ruas e nos espaços de formação política.
Veja a íntegra do evento:
A conferência
Fruto da mobilização de movimentos que lutam pela democracia, a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, será um evento realizado de 26 a 29 de março de 2026, em Porto Alegre (RS), com o propósito de construir uma estratégia articulada internacionalmente para enfrentar o avanço da extrema direita e do fascismo no Brasil e no mundo. A afirmação é de Quintino Severo, secretário adjunto de Relações Internacionais da CUT e integrante do comitê organizador do encontro.
Sediada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a conferência reunirá centrais sindicais, partidos de esquerda, movimentos sociais e entidades da educação do Brasil e de outros países. A CUT integra a organização do evento e participará ativamente das atividades e dos debates.
Organizada por forças antifascistas, a conferência em Porto Alegre será aberta com um ato de rua e terá painéis temáticos e atividades autogestionadas, voltadas ao fortalecimento dos movimentos sociais, da juventude e da solidariedade internacional no combate ao fascismo.
Para a CUT, a construção de unidade, a articulação global e a defesa intransigente da democracia são elementos centrais diante do cenário de avanço da extrema direita. A conferência, avalia Quintino Severo, é parte desse esforço estratégico de organização política e solidariedade internacional.
“A conferência nasce da necessidade de compreender o fenômeno da extrema direita como um movimento internacional, que exige resposta igualmente articulada. É um momento de a gente poder discutir uma estratégia mais a nível internacional de como enfrentar o fascismo”, afirma.
Ele destaca que o crescimento da extrema direita não é um fenômeno isolado. “Boa parte dos países, tanto daqui na América Latina, no Brasil, mas também na Europa e na Ásia, vem crescendo o fascismo, vem crescendo a extrema direita. Então, por isso que é importante que a gente tenha uma estratégia mais articulada mundialmente”, ressalta.
Documento político de orientação
De acordo com o dirigente, um dos objetivos centrais do encontro será aprovar um documento final com posicionamento político claro.
“Nossa ideia é tirar um documento, uma declaração que aponte no caminho, na direção de orientar, de se pronunciar, de protestar, enfim, de combater o avanço da extrema direita e especialmente o avanço do fascismo no mundo.”
A proposta é que essa declaração funcione como instrumento de referência política para organizações sindicais, movimentos populares e forças progressistas, estabelecendo diretrizes de atuação comum diante das ameaças às democracias e à soberania dos povos.
Quintino explica que, neste primeiro momento, a conferência se configura como uma manifestação política organizada por partidos de esquerda, centrais sindicais e movimentos sociais. “Inicialmente ela é uma manifestação política, a partir das organizações que prepararam a conferência”, afirma.
Isso, no entanto, não significa que a iniciativa se limitará ao plano declaratório. “Deverá se desdobrar depois em ações, como de exigir dos Estados, principalmente, que tenham estratégia e tenham políticas para combater a extrema direita e o fascismo”, explicou o dirigente.
Papel do Estado e do Judiciário
Para o secretário adjunto de Relações Internacionais da CUT, o enfrentamento ao fascismo passa necessariamente pelo papel institucional do Estado. Ele destaca, em especial, a função do Judiciário.
“Quando eu falo de Estado, passa muito pelo Judiciário. Acho que os Judiciários, de forma geral, terão esse papel também de ajudar nas ações que possam inibir os hábitos da extrema direita”, afirma.
Ao citar a experiência brasileira recente, Quintino ressalta a importância da atuação institucional para conter iniciativas antidemocráticas.
“Nós aqui no Brasil vimos quanto foi importante a posição do STF, articulada, evidentemente, com outros poderes, no sentido de estabelecer regras e frear o avanço das ações da extrema direita”, lembrou Quintino.
A leitura é de que a defesa da democracia exige tanto mobilização popular quanto ação firme das instituições. Para ele, o Estado tem um papel importante nesse processo.
Ameaça global
Ao analisar o cenário internacional, Quintino aponta que o avanço da extrema direita tem se manifestado de maneira mais evidente em países centrais da economia mundial. Ele cita os Estados Unidos como exemplo de uma das maiores economias do planeta que vive, em sua avaliação, iniciativas que se aproximam do fascismo.
“Hoje nós temos no mundo, especialmente por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma demonstração de que esse lado fascista, esse lado da supremacia econômica, se utiliza disso para exatamente apontar e adotar suas políticas”, afirma, ao mencionar atitudes relacionadas ao tratamento de imigrantes, cidadãos menos favorecidos e à relação com o próprio Estado.
Ele também cita a situação na Itália e em outros países europeus, além de movimentos que começam a aparecer na Ásia e nas Américas. “Há uma percepção muito evidente de que há um movimento no crescimento da extrema direita e um movimento de avanço do fascismo no mundo”, diz Quinitino.
Diante desse quadro, a conferência se propõe a articular forças progressistas em defesa da democracia, dos direitos e da soberania dos povos.
Programação e articulação
A conferência contará com atividades distribuídas ao longo de quatro dias. No dia 26 ocorre o Fórum de Autoridades Antifascistas, seguido de marcha de abertura. Nos dias seguintes, estão previstas conferências centrais, atividades autogestionadas e, ao final, a Assembleia Geral para aprovação da chamada Carta de Porto Alegre.
A organização reúne um amplo arco de entidades, entre elas a CUT, partidos políticos como o PT, o PSOL e o PCdoB, além de movimentos como o MST e entidades sindicais nacionais. A universidade anfitriã confirmou a cessão de espaços do Campus Central, incluindo o Salão de Atos.
Ação necessária...
Barrar o fascismo é essencial porque ele representa uma ameaça concreta aos direitos humanos, às liberdades democráticas e à justiça social. Historicamente, regimes fascistas aboliram eleições livres, suprimiram a oposição política, perseguiram povos e minorias e destruíram instituições democráticas — como aconteceu no século XX com Mussolini e Hitler.
No presente, o ressurgimento de forças extremistas e autoritárias explora crises econômicas e inseguranças sociais para promover xenofobia, racismo, LGBTfobia, misoginia e nacionalismo agressivo. Essas ideias corroem os direitos conquistados pelos trabalhadores e enfraquecem a democracia, ao atacar a autonomia dos sindicatos e restringir liberdades civis, como descrito no seu texto sobre restrições a greves e negociações coletivas.
Além disso, o fascismo historicamente busca eliminar o poder de organizações que defendem os direitos dos trabalhadores, destrói sindicatos e movimentos sociais e substitui o pluralismo por um Estado autoritário.
Por isso, barrar o fascismo hoje significa proteger a democracia, os direitos trabalhistas, a diversidade e a igualdade, e fortalecer ações coletivas, educação política e solidariedade internacional para enfrentar essas ameaças de forma organizada e democrática.
Com apoio de Brasil Escola e Jus Brasil