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Por Haddad presidente e pela democracia, Safatle reúne alunos na USP

Com o plenário lotado de jovens, Safatle alertou sobre os riscos da vitória do fascismo, do ódio e da intolerância e disse que 'não há como esmorecer até o dia 28'. A sorte está lançada. É vencer ou vencer!'

Publicado: 11 Outubro, 2018 - 11h57 | Última modificação: 11 Outubro, 2018 - 14h34

Escrito por: Redação CUT

Reprodução
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O filósofo Vladimir Safatle reuniu alunos da Universidade de São Paulo (USP) e jovens de diversas regiões da capital, na manhã desta quarta-feira (10), na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, para falar sobre os riscos que o país e os brasileiros correm se, no próximo dia 28, for eleito o candidato a Presidente da República Jair Bolsonaro (PSL), que representa o fascismo, o ódio, a intolerância, o aumento da violência e a retirada de direitos sociais e trabalhistas.

No final da palestra, que lotou o plenário da FFLCH, Safatle deu sugestões para organizar a luta pela eleger o candidato do PT, Fernando Haddad, que representa o fortalecimento da democracia e da justiça e inclusão social, argumentando que "não se trata apenas de ganhar uma eleição. Trata-se de garantir as condições para que a sociedade brasileira abra espaço para um tipo de embate que é o embate político, que pode acabar dependendo do resultado desta eleição".

Os jovens e acadêmicos criarão grupos que irão para a periferia debater, conversar com as pessoas, explicar o que representa a eleição de Bolsonaro, especialmente para a população mais carente, que mais depende de serviços públicos e segurança de qualidade.

Eles vão também produzir uma cartilha de argumentação para os grupos com reflexões sobre os argumentos que as pessoas estão utilizando para justificar suas escolhas e como desconstruí-los; quais são as posições que essas pessoas defendem e como elas defendem e como se contrapor a isso; quais os problemas centrais que levam essas pessoas a fazer essas escolhas e como mostrar que esses problemas centrais não serão resolvidos se elas fizerem essas escolhas.

No final da conversa, o filósofo fez um alerta sobre o risco Bolsonaro: “Se nós perdermos [a eleição para presidente da República], vão ser gerações e gerações que vão perder. Nós sabemos, isso não é uma brincadeira. Nós sabemos qual é a gravidade da situação e o que vai acontecer daqui pra frente”.

 

Então, não há como esmorecer até o dia 28. A sorte está lançada. É vencer ou vencer!
- Vladimir Safatle

Leia a íntegra do discurso de Safatle:

Não se trata simplesmente de ganhar uma eleição. Trata-se de garantir, minimamente, as condições para que a sociedade brasileira ainda abra espaço para um tipo de embate que é o embate político. Talvez o embate político não tenha mais condição de sobreviver, dependendo do resultado dessa eleição.

Nós sabemos que o que o candidato Bolsonaro faz não é simplesmente um conjunto de bravatas, não é simplesmente um conjunto de palavras vazias. As palavras dele mobilizam pessoas, fazem pessoas levarem a certos atos. Nós vimos atos violentos, de assassinato, que estão cada vez mais presentes e que se naturalizam cada vez mais. Então, nós sabemos do risco que a sociedade brasileira está correndo neste momento.

Contra isso, nós sabemos que estamos lutando contra um modelo de campanha que nunca foi visto neste país. Esse não é o modelo tradicional das campanhas. É o modelo de campanha pensado a partir do esvaziamento radical do espaço público. O modelo no qual as informações não circulam mais no espaço público. Elas circulam nos espaços restritos da deep web, da obscuridade, das falsas mentiras, das mentiras, que vão sendo repetidas, repetidas, repetidas até que têm a força da verdade.

Um tipo de estratégia que já foi utilizada nas situações mais sombrias do século XX.

Sabemos de onde vem isso.

E não podemos fazer a mesma coisa. Nunca faremos a mesma coisa. A nossa luta nunca vai se dar nesse nível. Ela vai se dar em outro nível.

Nós nunca vamos começar a fazer fake news, a difundir mentiras, a utilizar esses espaços restritos e obscuros para tentar forçar a opinião das pessoas a partir de um jogo retórico porque sabemos.

Então, o que nos resta - e essa é a razão pela qual nós convocamos uma reunião desta natureza - é ir contra essa virtualidade obscura. Colocarmos os nossos corpos à frente, irmos aos lugares, mostrarmos nossa cara, mostrarmos quem somos, falarmos diretamente às pessoas, ouvirmos as pessoas, termos a paciência de entender, afinal de contas, o que as motivam a tomar certas decisões. E confiarmos na capacidade que nós temos de chegar perto, de escutar, de analisar e de encontrar os melhores argumentos. De encontrar aquilo que possa, de uma maneira ou de outra, sensibilizar essas pessoas. Mostrar a elas, partilhar nossos desconfortos, nossos medos, nossas compreensões, nossa sensibilidade. Nesse sentido, isso havia sido perdido no interior da política aqui do nosso país: esse esforço de ir na direção de quem está esperando, de uma maneira ou de outra, para ter um contato mais efetivo, concreto, para que ele possa sair desse universo ilusório, dessas bolhas que começam a criar essas imagens que distorcem e criam caricaturas cada vez mais brutais e insensíveis.

Então, nesse sentido, a nossa ideia era, basicamente, se organizar a partir de dois eixos de trabalho:

  • a constituição de grupos que iriam fazer esses trabalhos nas periferias. Porque lá estão as pessoas que mais sofrerão com esse novo Governo que por ventura virá. São as pessoas que mais sentirão a violência desse Governo, a pauperização, a pobreza, a radicalização da desigualdade e dos conflitos de classe, a radicalização das lutas de classe, a espoliação brutal que vão sofrer.

 O nosso dever, de uma certa forma, é ir em direção a essas pessoas, porque elas são o verdadeiro alvo. Talvez elas não saibam, mas elas serão o verdadeiro alvo. Então, nesse sentido, nossa primeira ideia era constituir grupos que poderiam ir a essas regiões. De duas formas: tem uma forma mais espontânea, que é criar grupos que vão fazer a famosa panfletagem em ruas e ocupar espaços onde as pessoas estão presentes, ou fazer esses espaços de debates a partir de igrejas, associações de bairros, escolas que estivessem abertas a tanto, instituições que estivessem fornecendo esse espaço para que o debate pudesse ser feito. Uma reunião como essa tinha, entre outras funções, a função de descobrir quais são as pessoas que poderiam... "ah, eu sou representante da Associação de Bairro do Capão Redondo, então a gente pode organizar alguma coisa lá", ou "ah, conheço o pessoal lá da igreja de Itaquera, então eles estão dispostos a abrir espaço para que a gente possa discutir"... Então, essa era uma das primeiras ideias.

 

  • numa segunda ideia, nós sabemos que esse jogo retórico que mobiliza essa eleição não é feito por amadores. Não é um jogo feito na espontaneidade. A campanha do senhor Bolsonaro pode parecer uma campanha mambembe, uma campanha espontânea, mas nós sabemos que não é nada disso, absolutamente nada disso.

Ela replica o modelo de campanha, o modelo de mobilização, o modelo de utilização e de argumentação que nós já vimos em outras situações nas quais a Extrema-Direita mundial se mobilizou.

Então, nós sabemos que há, de fato, um tipo de raciocínio comum que vai colocando o Brasil na rota da Extrema-Direita mundial.

E essa campanha tem um pouco essa função de ser um laboratório de como essa rota pode funcionar, juntando neoliberalismo explícito e fascismo explícito.

Então, nesse sentido, nós não podemos tentar mobilizar também de uma forma completamente espontânea, no sentido de não pensar quais são as estratégias retóricas que estão sendo utilizadas.

Por isso, a nossa segunda sugestão era a criação de uma cartilha de argumentação. Quais são os argumentos que essas pessoas utilizam para justificar suas escolhas? Como desconstruí-las? Quais são as posições que essas pessoas defendem e como elas defendem? Como se contrapor a isso? Quais são os problemas centrais que levam essas pessoas a fazer essas escolhas? E como mostrar que esses problemas centrais não serão resolvidos se elas fizerem essas escolhas?

Ou seja, tentar levar em conta, de fato, como essas pessoas pensam e mostrar que, da maneira como elas pensam, elas não vão realizar aquilo que querem. Porque, é óbvio, nós sabemos que um setor desse eleitorado é um setor que fez uma escolha claramente fascista e esse é o nome a ser dado. Não há outro nome.

Se há alguma pessoa neste mundo que possa receber essa alcunha, neste momento, é o senhor Bolsonaro.

No entanto, nós sabemos que há um setor fundamental da população que se aliou a esse tipo de projeto sem ter consciência das consequências que isso pode produzir para a vida deles. E é nesse setor que nós precisamos focar.

Esses que de uma certa forma vão sem uma adesão muito clara, mas com um desejo difuso de ruptura, de mudança e de afastamento de, como dizem, "tudo o que está aí".

Esse setor podia estar do nosso lado, mas ele está do outro lado. Nós podemos conquistá-lo. E a conquista desse setor define o destino dessa eleição.

Não há ninguém mais neste país que possa fazer esse trabalho do que nós.

Não há ninguém mais neste país que possa estar disposto a desenvolver alguma coisa que tenha, de fato, eficácia do que nós.

Não se trata mais de partidos, de organizações, de sindicatos, de nada nesse sentido. Nós estamos aqui representando nós mesmos, falando em nome de nós mesmos, porque nós sabemos, muito claramente, com a nossa sensibilidade, o tipo de país que espera não só nós, mas principalmente aqueles que são muito mais vulneráveis, que não têm como se defender em hipótese alguma, que estarão de fato na linha de frente da espoliação e da violência.

Então, essa seria a segunda ideia: montar um grupo que pudesse rapidamente organizar isso, no seguinte sentido: organizar a relação, organizar do ponto de vista de elaboração de direção de arte e design e organizar do ponto de vista de eficácia.

A gente queria fazer alguma coisa que pudesse, inicialmente, passar pelo crivo dos próprios eleitores do senhor Bolsonaro. Funda 10 eleitores, mostra o material (pra ver, afinal, o que de fato funciona e não funciona. Porque não é pra nós esse material, é pra eles). Então, nesse sentido, a gente precisaria de um grupo que pudesse organizar toda essa dinâmica, toda essa logística.

Essa era um pouco a primeira ideia.

(...) Essa organização vai começar, então, a partir de agora. Então, a partir de amanhã, no máximo até sexta-feira as pessoas que estão engajadas já vão receber as informações. A gente já vai começar as atividades, a gente vai começar esse processo.

Essa é uma atividade de um grupo de pesquisadores aqui da FFLCH e do Instituto de Psicologia, dos laboratórios, dos alunos, dos professores.

Agora, outra coisa que queria terminar lembrando: é muito evidente que, quando a gente começa a falar com as pessoas, muitos de nós entraram numa situação de profunda melancolia, devido ao que está acontecendo. Eu gostaria só de falar uma coisa a essas pessoas: um dia essa luta iria ocorrer. Não era possível nosso país passar mais tempo sem que essa luta um dia ocorresse.

Essa é uma luta que está sendo esperada há muito tempo. Não seria possível o país se constituir enquanto país, se nós, enquanto uma verdadeira sociedade inclusiva, igualitária e com uma luta constante no sentido de justiça social, se nós não nos confrontássemos com esses grupos, com esses discursos, com essas pessoas. Não havia um outro caminho a fazer.

Agora, coube ao processo histórico que fôssemos nós, neste momento, as pessoas a ter que fazer essa luta. Muitos já lutaram essa luta antes, de uma maneira ou de outra, mas nunca com todo esse drama, essa força, esse jogo que está aqui disposto. Por alguma contingência, agora somos nós. Não tem mais ninguém.

Se nós perdermos, vão ser gerações e gerações que vão perder. Nós sabemos, isso não é uma brincadeira. Nós sabemos qual é a gravidade da situação e o que vai acontecer daqui pra frente. Então, não há como esmorecer até o dia 28. A sorte está lançada. É vencer ou vencer!

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