Polícia que mata mais não entrega mais segurança à população
Escalada da letalidade, abusos contra trabalhadores e violência concentrada na população negra expõem um modelo que não reduz o crime
Publicado: 17 Agosto, 2026 - 17h12 | Última modificação: 17 Agosto, 2026 - 17h24
Escrito por: Andre Accarini | Editado por: Walber Pinto
Em média, 18 pessoas são mortas todos os dias por agentes de segurança pública no Brasil. São mais de 6.600 mortes por ano, a maioria em ações das polícias militares, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
As principais vítimas são pessoas negras, jovens e moradoras das periferias.
Em São Paulo, as mortes provocadas por policiais militares em serviço quase dobraram em dois anos. O número passou de 357, em 2023, para 653, em 2024, e chegou a 703 em 2025.
Atenta ao debate sobre segurança pública no país, em 12 de agosto, durante o 3º Seminário sobre Democracia, Segurança e Direitos Humanos, com participação de dirigentes sindicais, especialistas e profissionais do setor para discutir propostas que articulem proteção da população, valorização dos trabalhadores policiais, democracia e respeito aos direitos humanos.
A CUT defende a substituição da lógica de guerra por uma segurança cidadã, democrática e antirracista, baseada em prevenção, inteligência e garantia de direitos. A proposta também reconhece os agentes de segurança como trabalhadores, com direito à valorização profissional, condições dignas e atenção à saúde mental, além de participação na formulação das políticas públicas.
O debate ganha importância diante das eleições de 2026. A segurança pública está na Plataforma da CUT para as Eleições, que reúne as propostas da Central para serem apresentadas aos candidatos à Presidência da República, aos governos estaduais, ao Senado e às assembleias legislativas.
O Cotidiano
No Rio de Janeiro, 798 pessoas morreram em intervenções de agentes de segurança em 2025, alta de 13,5% sobre as 703 mortes de 2024. Uma em cada cinco mortes violentas intencionais registradas no estado, ou 20,5% do total, decorreu de intervenção policial.
Os dados, somados a agressões contra trabalhadores em abordagens violentas, denúncias de execuções e operações com dezenas de mortos, expõem um modelo que amplia o medo sem reduzir o crime. Enfrentá-lo exige controle público, investigação independente, transparência, formação voltada à cidadania e políticas sociais.
A violência também aparece nas abordagens cotidianas. Em 6 de agosto de 2026, o motorista de ônibus Edvagner Barreto dos Santos, de 56 anos, foi retirado do veículo e contido por policiais militares na Avenida Professor Celestino Bourroul, na Zona Norte de São Paulo. Segundo testemunhas, ele havia buzinado para pedir passagem a uma viatura que seguia lentamente à sua frente.
Os policiais levaram o motorista ao 13º Distrito Policial sob acusação de desobediência. O Sindmotoristas repudiou a truculência e o abuso de poder.
“As cenas desmontam uma justificativa repetida sempre que se denuncia a violência estatal: a de que o abuso seria um efeito restrito ao combate ao crime organizado. Não é. Quando agentes armados tratam uma buzina como afronta e um trabalhador como inimigo, toda a sociedade fica exposta ao arbítrio”, afirma a secretária de Políticas Sociais e Direitos Humanos da CUT, Jandyra Uehara.
Outros casos que vitimam inocentes também chamam a atenção. Thawanna da Silva Salmazio, moradora da Zona Leste de São Paulo, morrou após disparo efetuado pela PL Yasmin Cursino Ferreira, após uma discussão iniciada porque o retrovisor da viatura bateu no braço do marido da vítima.
Casos cotidianos se conectam a episódios mais graves. Em 2020, um adolescente de 15 anos foi sequestrado, torturado e morto na periferia de São Paulo. Dois policiais militares foram acusados, mas absolvidos pelo Tribunal do Júri. O desfecho expõe a dificuldade de responsabilizar agentes públicos mesmo diante de acusações de extrema violência.
Quem responde e o que precisa mudar
A Constituição atribui aos estados o comando das polícias Militar e Civil. Os governadores definem a orientação da segurança pública estadual e respondem por decisões sobre formação, efetivos, armamento, operações, protocolos e câmeras corporais.
A União mantém a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Penal Federal. Também pode estabelecer normas gerais, financiar programas e coordenar políticas por meio do Sistema Único de Segurança Pública, criado em 2018 para integrar informações, inteligência e operações.
A responsabilidade, porém, é compartilhada. Governadores devem responder pelas tropas que comandam. A União precisa induzir políticas de redução da letalidade. Cabe ao Ministério Público exercer o controle externo das polícias, e ao Judiciário impedir que registros como “auto de resistência” ou “resistência seguida de morte” justifiquem o arquivamento automático de investigações.
As mudanças passam pela desmilitarização, pela revisão da formação e pela substituição da doutrina de inimigo por uma cultura de cidadania. Também exigem protocolos nacionais de uso da força, câmeras corporais com regras que garantam seu funcionamento, preservação das cenas de crime, perícias independentes, investigação de todas as mortes, divulgação de dados e responsabilização por abusos.
Inteligência e investigação financeira são necessárias para atingir as estruturas econômicas do crime organizado. Ao mesmo tempo, educação, saúde, assistência social, moradia, cultura, emprego e renda precisam integrar a política de segurança. Repressão sem prevenção administra a tragédia. Não oferece saída.
Uma polícia de qualidade é aquela que respeita as leis e os direitos humanos, enquanto a que tortura e mata de forma descontrolada é, por definição, uma polícia desqualificada e sem credibilidade social
“A polícia necessária é a que previne, investiga e prende com provas. É a que volta de uma operação tendo protegido vidas, inclusive as de seus próprios agentes”, diz Jandyra.
“Romper esse ciclo exige vontade política, responsabilização e uma escolha que deveria ser elementar: segurança pública se mede pela vida que preserva, não pelo número de corpos que deixa para trás”, afirma a dirigente.
Uma política medida pelo número de mortos
As polícias brasileiras estão entre as mais letais do mundo, e a maioria das mortes ocorre em ações de policiais militares. Em números absolutos, a Bahia passou a ocupar o topo do ranking nacional. Pela taxa por 100 mil habitantes, o Amapá aparece historicamente como o estado de maior letalidade.
Em São Paulo, reportagem da Folha de S.Paulo apontou que policiais têm deixado de acionar câmeras corporais em ocorrências com mortes. Entre as justificativas estão falhas no sistema, baterias descarregadas e o acionamento manual, que permite gravações tardias. O resultado é a ausência de imagens em diversos confrontos.
Operações polêmicas
As operações Escudo e Verão, realizadas pela PM paulista na Baixada Santista entre 2023 e 2024, foram deflagradas após as mortes dos policiais Patrick Bastos Reis, em 2023, e Samuel Wesley Cosmo, em 2024. Juntas, deixaram 84 civis mortos. Foi a ação mais sangrenta da polícia paulista desde o Massacre do Carandiru, em 1992.
Moradores e entidades de direitos humanos relataram execuções de pessoas rendidas, tortura, impedimento de socorro e alterações de cenas de crime para simular tiroteios. Diante das denúncias levadas à Organização das Nações Unidas, o governador Tarcísio de Freitas declarou que “não estava nem aí”. A resposta sinalizou tolerância política diante de acusações graves.
No Rio de Janeiro, a Operação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025 pelas polícias Civil e Militar, tornou-se a ação policial mais letal já registrada no estado. A incursão nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da capital, deixou pelo menos 121 mortos e resultou em 113 prisões.
Ataques do PCC em maio de 2006
Nos Crimes de Maio de 2006, a resposta aos ataques do PCC produziu mais de 500 mortes de civis, atribuídas a forças policiais e grupos de extermínio. Anos depois, o Superior Tribunal de Justiça classificou os acontecimentos como graves violações de direitos humanos. A Corte reconheceu que as ações civis públicas de responsabilização do Estado são imprescritíveis e determinou que a Justiça paulista analise os pedidos de reparação de famílias de vítimas sem vínculo com o crime organizado.
A decisão também expõe a demora da reparação. Famílias atravessam anos ou décadas tentando demonstrar que seus parentes não poderiam ter sido executados.
“A presunção de inocência, que deveria valer para todos, costuma ser substituída por um rótulo lançado depois da morte. A vítima vira suspeita. A versão policial ganha aparência de verdade. E o Estado, que deveria investigar, muitas vezes protege a própria narrativa”, diz Jandyra Uehara.
A cor, o endereço e a ideia de inimigo
A violência policial brasileira tem cor e território. Dados da UFPR e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que mais de 83% das vítimas são negras. Entre jovens negros das periferias, a mortalidade provocada pela polícia supera em mais de quatro vezes a registrada entre jovens brancos.
“Essa seletividade tem raízes antigas. As primeiras forças de policiamento urbano do século 19 foram utilizadas para controlar a população negra e escravizada nas cidades. Depois, durante a ditadura militar de 1964 a 1985, as polícias militares foram reorganizadas e submetidas ao controle do Exército como forças auxiliares e reserva. A estrutura incorporou a ‘doutrina do inimigo interno’, fundada na ideia de que parte da própria população deve ser vigiada, contida e combatida”, explica a secretária de Combate ao Racismo da CUT, Maria Julia Nogueira.
A Constituição de 1988 restabeleceu a democracia, mas não rompeu por completo com esse desenho, reforça a dirigente. “A formação militar, a divisão entre policiamento ostensivo e investigação e a cultura de guerra permaneceram. Na prática, bairros populares seguem tratados como territórios hostis, diz Maria Julia.
Os moradores das comunidades convivem com invasões de suas casas sem mandados, humilhações, abordagens racistas e operações que interrompem aulas, fecham postos de saúde, impedem trabalhadores de circular e colocam famílias inteiras sob risco
Nesse contexto, movimentos de familiares denunciam uma “pena de morte de fato”: seletiva, sem julgamento e sem defesa. Governos e setores conservadores, por outro lado, repetem que a brutalidade seria necessária contra facções como o PCC. O lema “bandido bom é bandido morto” transforma a morte em indicador de eficiência e qualquer cobrança por legalidade em suposta defesa de criminosos.
“A missão constitucional da polícia em uma democracia é garantir direitos”, reforça Jandyra Uehara.
A polícia pode usar a força quando necessário, mas sob limites legais, de forma proporcional ao risco e sujeita à fiscalização. Quando mata sem controle, substitui o sistema de Justiça, enfraquece as instituições e produz medo onde deveria oferecer proteção.
Matar mais não faz o crime desaparecer
Se letalidade fosse sinônimo de eficiência, os estados com as polícias que mais matam seriam os mais seguros. Entre 2015 e 2021, a Polícia Militar do Amapá registrou, por sete anos consecutivos, a maior letalidade proporcional do país. O estado também esteve entre os que mais investiram por habitante em segurança, mas permaneceu entre os maiores índices nacionais de homicídios, latrocínios e insegurança.
Eliminar indivíduos não desmonta redes criminosas, não atinge o fluxo financeiro das economias ilegais nem altera as condições de recrutamento. O território permanece abandonado, o mercado ilegal continua e a população fica entre a violência das facções e a praticada pelo Estado.
“A violência policial retroalimenta o crime e gera mais insegurança”, diz Jandyra Uehara.
A violência estatal amplia a hostilidade contra os agentes e rompe a confiança entre polícia e comunidade. Moradores deixam de fornecer informações, testemunhas se calam e investigações perdem apoio. O Estado responde com mais força e repete uma estratégia que já fracassou.
Quando falta escola de qualidade, trabalho, renda, moradia, saúde, cultura e perspectiva de futuro, o Estado costuma chegar às periferias principalmente por meio da repressão. Problemas sociais são transferidos para o sistema penal. A pobreza passa a ser administrada como ameaça, e não enfrentada como resultado de escolhas econômicas e políticas
Isso não estabelece uma relação automática entre pobreza e crime. Reconhece que a exclusão cria vulnerabilidades, restringe oportunidades e facilita o recrutamento por mercados ilegais. Policiamento não substitui política social. A segurança começa antes da viatura e não pode terminar no disparo.
Direitos humanos também protegem quem veste a farda
Em todo o país, 139 policiais civis e militares foram vítimas de mortes violentas intencionais, queda de 3,5% em relação ao ano anterior. Desse total, 59 morreram durante a folga e 29 em serviço. A maioria era formada por homens negros entre 30 e 49 anos. O Rio de Janeiro concentrou 51 casos, mais de um terço do total nacional.
O Anuário também registrou 110 suicídios entre policiais. Apesar do recuo no último ano, os casos acumulam alta de 37,8% desde 2017. Na série histórica, policiais militares concentram cerca de 57% das mortes por suicídio; policiais civis, 19%; e policiais penais, 13%. Os demais casos envolvem bombeiros, guardas municipais e integrantes das forças federais.
Nas PMs, os suicídios já superam as mortes de agentes em confrontos, durante o serviço ou a folga. Soldados e cabos representam mais de 80% das vítimas na corporação. Estresse, escalas exaustivas, cobranças do militarismo e o receio de buscar atendimento psicológico agravam o problema.
“Os direitos humanos protegem também os próprios policiais”, lembra a secretária de Políticas Sociais e Direitos Humanos da CUT.
Uma política comprometida com a vida deve proteger a população e os agentes. Precisa reduzir confrontos evitáveis, melhorar a investigação, usar inteligência e oferecer condições dignas de trabalho e apoio à saúde mental. A polícia também depende da cooperação social para prevenir crimes e reunir provas. Sem confiança e legitimidade, a segurança vira ocupação de território, não serviço público.