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Podcast Studio CUT: Trump, crise da governança global e o avanço da extrema direita

Secretário de Relações Internacionais da CUT, Antônio Lisboa analisa disputas geopolíticas, o papel dos EUA e China, o fim do modelo de governança pós-guerra e os desafios da classe trabalhadora no mundo

Publicado: 09 Fevereiro, 2026 - 09h42 | Última modificação: 09 Fevereiro, 2026 - 10h31

Escrito por: Redação CUT | texto: André Accarini

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No mais recente episódio do podcast Estúdio CUT, o secretário de Relações Internacionais da CUT, Antônio Lisboa, faz uma análise ampla e articulada sobre o cenário internacional atual, marcado por disputas geopolíticas, crise da governança global, ofensiva dos Estados Unidos sobre países latino-americanos e crescimento da extrema direita em escala mundial. Ao longo da conversa, Lisboa contextualiza esses processos a partir das transformações no capitalismo global e dos impactos diretos sobre a classe trabalhadora.

Veja o episódio aqui

 

Petróleo, Venezuela e a retomada da Doutrina Monroe

Ao comentar o episódio envolvendo a Venezuela e a atuação do governo Donald Trump, Lisboa foi categórico ao afirmar que o discurso democrático não sustenta a ação norte-americana. Segundo ele, a motivação central foi econômica.

“No caso da Venezuela, uma coisa é certa: não foi por causa de falta de democracia. Se fosse, os Estados Unidos não fariam aliança com a Arábia Saudita, que é uma ditadura. No caso da Venezuela, o interesse imediato foi, sim, o petróleo”, disse o dirigente.

Para Lisboa, esse movimento deve ser compreendido em um contexto mais amplo de perda de hegemonia dos Estados Unidos no sistema internacional. “O que a gente está vendo é que um ciclo histórico está se encerrando, o ciclo da ordem mundial estabelecida há 80 anos, no pós-Segunda Guerra Mundial, com a ONU e um modelo de pactos internacionais.”

Nesse cenário, Trump retoma abertamente a lógica da Doutrina Monroe, reinterpretada de forma ainda mais agressiva. “Ele fala em um retorno à Doutrina Monroe, que ele chama de ‘Doutrina Donro’. Não é só ‘a América para os americanos’. Para ele, é o hemisfério ocidental para os americanos”, explicou Lisboa.

América Latina, Brasil e o risco da ingerência política

Questionado sobre os interesses dos Estados Unidos no Brasil, Lisboa afirmou que, embora não exista risco imediato de uma intervenção militar, a pressão se dá por outros meios.

“Os Estados Unidos não vão invadir o Brasil como fizeram na Venezuela. Mas existem interesses claros nas riquezas brasileiras, nas terras raras, na Amazônia, na água. Eles entendem esse espaço como sendo deles”. Segundo ele, a ingerência mais perigosa ocorre no campo político e eleitoral.

“A invasão que existe é a influência nas eleições. Nós já tivemos isso nas eleições passadas e vamos ter novamente. Isso passa muito pelo controle das big techs.”

Lisboa reforçou que não há ingenuidade possível nas relações diplomáticas.“Os interesses colocados na mesa são os interesses dos Estados Unidos. O presidente Lula defende os interesses do Brasil, mas isso não elimina os riscos, porque os interesses são muito mais profundos”, disse.

Oriente Médio, China e o fim da governança global

Ao analisar os conflitos no Oriente Médio, a guerra entre Rússia e Ucrânia, as tensões com o Irã e a disputa entre China e Taiwan, Lisboa destacou que todos esses elementos revelam o esgotamento do modelo atual de governança global.

“Nós temos um modelo de governança global que está em fim de ciclo. E o que se apresenta até o momento é pior, que é esse poder imperial que os Estados Unidos querem estabelecer.”

Apesar das falhas do sistema atual, ele alerta para a ausência de alternativas concretas. “Por pior que seja, é a única coisa concreta que nós ainda temos. Não existe hoje um outro modelo pronto para substituir”, pontua Lisboa

Sobre a China, Lisboa descartou análises simplistas em relação a comparações com a conduta dos Estados Unidos. “Não existe santo nessa história. A China também tem interesses. Mas se você comparar quantos países a China invadiu desde 1949 e quantos os Estados Unidos invadiram, você vê que são estratégias completamente diferentes”.

Segundo ele, a China construiu seu poder a partir do desenvolvimento interno e do controle tecnológico. “A China constrói suas estratégias pensando no longo prazo. Não é algo pensado para o dia seguinte”.

Extrema direita, neoliberalismo e retirada de direitos

Lisboa relacionou diretamente o crescimento da extrema direita global ao avanço da precarização e das políticas neoliberais.“A extrema direita cresce à medida que os direitos à vida das populações trabalhadoras são deixados de lado pelo modelo neoliberal.”

Para ele, o fenômeno não surge do nada. “Grande parte do crescimento da extrema direita são falhas das democracias, que não atenderam aos interesses das populações”, disse o dirigente.

Além disso, ele destacou a articulação internacional desses grupos. “Eles conseguiram criar uma espécie de internacional da extrema direita. São absolutamente organizados, trocam informações, estratégias”.

Informalidade, precarização e organização coletiva

Ao abordar a situação da classe trabalhadora no mundo, Lisboa chamou atenção para os dados da OIT. “As estimativas são de mais de 2 bilhões de trabalhadores na informalidade, quase 60% da força de trabalho mundial.”

Nesse contexto, ele destacou a importância do encontro internacional realizado na CUT, no dia 2 de fevereiro, reunindo redes globais de trabalhadores informais. “Esse evento reúne trabalhadores domésticos, em domicílio, por aplicativo, ambulantes. São redes globais que querem construir uma organização coletiva.”

Segundo Lisboa, a CUT tem papel pioneiro nesse processo. “A CUT foi uma das grandes centrais do mundo que tomou uma iniciativa efetiva de organizar esses trabalhadores. Mudamos o estatuto, filiamos associações e criamos uma frente parlamentar.”

Ele citou a filiação da União Nacional dos Trabalhadores Ambulantes (Unicab) e da Associação das Trabalhadoras em Domicílio (Atemdo) como exemplos concretos dessa ampliação. “Isso mostra que a CUT está se ampliando para onde os trabalhadores estão”, destacou

Democracia, projeto de país e disputa de rumos

Para Lisboa, enfrentar a extrema direita passa necessariamente pela organização coletiva e pela disputa política. “As nossas alternativas são duas: nos organizar e garantir direitos.” Ele também ressaltou a centralidade do processo eleitoral.

“Entre essas coisas está escolher quem vai te representar no Congresso e no Executivo”, disse o secretário de Relações Internacionais no Podcast.

Ao final, Lisboa afirmou que, apesar dos riscos, acredita na capacidade de transformação. “O mundo tem jeito, mas nunca esteve tão arriscado. Dar jeito no mundo passa pela nossa mobilização.”

Segundo ele, o Brasil retomou protagonismo internacional nos últimos anos. “O Brasil recuperou um espaço que havia sido jogado na lata do lixo. Isso é fruto de um projeto de desenvolvimento, democrático e inclusivo.”

E concluiu: “Se queremos melhorar o mundo e o Brasil, precisamos continuar com um projeto que inclua, desenvolva e aprofunde a democracia.”