• Kwai
MENU

Perus: vala clandestina é capítulo...

Livro Vala Clandestina de Perus ? Desaparecidos Políticos: um capítulo não encerrado da história brasileira

Publicado: 05 Setembro, 2012 - 17h19

Escrito por: CUT-SP - Flaviana Serafim

 


Numa vala de 30 m de comprimento, 50 cm de largura e 2,70 m de profundidade está um dos dolorosos capítulos de horror dos 21 anos de ditadura militar que deixou o Brasil nas sombras da repressão, perseguição, tortura e mortes.

A vala clandestina de Perus, descoberta em 1990 no Cemitério Dom Bosco, região oeste da capital paulista, representa dor e a luta dos familiares de homens e mulheres desaparecidos e, com a instalação da  Comissão Parlamente de Inquérito (CPI Perus – Desaparecidos Políticos) no governo da prefeita Luiza Erundina, nascia, simbolicamente,  a primeira comissão da verdade para investigar os assassinatos de opositores do regime militar.

Emoção e as memórias do passado marcaram o lançamento do livro Vala Clandestina de Perus – Desaparecidos Políticos: um capítulo não encerrado da história brasileira na noite desta terça-feira (3) em cerimônia na Fundação Escola de Sociologia e Política do Estado de São Paulo (FESPSP). A publicação gratuita, editada pelo Instituto Macuco, integra o projeto “Marcas da Memória” promovido pela Comissão de Anistia da Presidência da República para preservação, divulgação e formação de memória da anistia política e do processo de Justiça de Transição no País. O livro reúne relatos, histórias, análises, fotos e documentos em formato impresso e também digitalizados num DVD.

A ativista dos direitos humanos Maria Amélia de Almeida Teles, integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, lembrou que, décadas atrás, a sociedade brasileira não acreditava nas denúncias sobre a morte e ocultação de cadáveres dos perseguidos políticos. “Quando as pessoas viram os ossos em Perus começaram a acreditar. Pudemos dar sepultamento a alguns e chorar junto com os familiares daqueles que talvez nunca sejam encontrados”, afirmou.

A ativista e sua família moveram ação em 2005 contra Carlos Alberto Brilhante Ustra e comemora o reconhecimento oficial do torturador pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, em sentença de 2008 que foi confirmada numa decisão histórica no último dia 14 de agosto.

Amelinha, como é conhecida nos movimentos sociais, foi presa com o marido, César Teles, e a irmã, Crimélia Alice Schmidt de Almeida, que estava grávida de sete meses. Eles estão entre as centenas de vítimas de Brilhante Ustra, que não poupou nem os filhos do casal, com quatro e cinco anos na época, obrigados a ver a tortura dos pais nas dependências da Operação Bandeirante (OBAN).

Onde estão os desaparecidos políticos?  - Na opinião do jornalista Ivan Seixas, coordenador da Comissão da Verdade Estadual da Assembleia Legislativa de São Paulo, o julgamento dos torturadores “não é uma questão contra essa ou aquela pessoa. Eles [os torturadores] são representativos da impunidade daquele período e hoje a polícia militar mata como na ditadura. Se não houver punição, os policiais militares que ainda torturam e matam vão continuar fazendo o que fazem sempre”. Seixas foi preso e torturado aos 16 anos, em 1971, e testemunhou a morte de seu pai, o operário mecânico Joaquim Alencar Seixas, assassinado no Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) por David dos Santos Araújo, mais conhecido como Capitão Lisboa.

Seixas ressaltou que preservar a memória das vítimas e crimes do período militar “é fundamental porque isso conta a nossa história. Não são só pessoas e documentos, mas os locais são testemunha para mostrar que a tortura ocorreu. Se os campos de concentração nazistas não fossem preservados, ninguém acreditaria no que aconteceu”, disse o jornalista.

A ex-vereadora Teresa Lajolo (PT-SP), relatora da CPI Perus – Desaparecidos Políticos, destacou a insistência dos familiares dos desaparecidos como fundamental para apuração dos assassinatos cometidos por agentes públicos durante a ditadura. “Nunca devemos abandonar nossa história. Temos que exigir que ela seja contada, inclusive pelos documentos da ditadura”, disse.

A cerimônia contou, ainda, com a participação do vereador Ítalo Cardoso (PT-SP), que participou da CPI Perus – Desaparecidos Políticos; e dos Procuradores da República Eugênia Augusta Gonzaga e Marlon Weichert, além de José Augusto Camargo, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

Histórico- O Cemitério Dom Bosco foi inaugurado em1970, no primeiro mandato do então prefeito Paulo Maluf. O intuito não era só receber os mortos da região, mas também servir de depósito de indigentes, de vítimas de violência urbana e das ações do Esquadrão da Morte, e por isso o cemitério foi escolhido pelos militares para ocultar os que lutaram e morreram por resistir à ditadura.

A construção da vala foi ainda uma alternativa à proposta original de cremação das ossadas, não concretizada devido à impedimentos legais, como aponta o relatório final da CPI de Perus concluído em dezembro de 1992.

Das 1.049 ossadas sem identificação deixadas na vala de Perus, aproximadamente 450 eram de crianças menores de 10 anos, vítimas de desnutrição infantil e de meningite, cujas mortes, por ordem dos militares, não podiam ser divulgadas nos dados e estatísticas oficiais.

A partir da CPI realizada na Câmara Municipal de São Paulo, começou o trabalho de identificação das ossadas, o direito ao sepultamento, e a reunião de relatos e testemunhas dos dois lados, colocando frente a frente, pela primeira vez na história do Brasil, as vítimas que sobreviveram, familiares dos desaparecidos, torturadores e outros agentes públicos da repressão.