Perfil: a história de Samuel e o papel do apoio familiar às pessoas trans
No Dia da Visibilidade Trans, a história de Samuel Oliveira revela identidade, trabalho e afeto, com o pai, Reinaldo, como presença constante de apoio e cuidado
Publicado: 29 Janeiro, 2026 - 00h57 | Última modificação: 29 Janeiro, 2026 - 01h05
Escrito por: André Accarini
No Dia da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, a trajetória de vida de Samuel Oliveira, o Samuca, é uma das história que nos fazem compreender para pessoas trans, existir é um exercício cotidiano de resistência. Não se trata apenas de afirmação identitária, mas de enfrentar e transpor estruturas conservadoras, expectativas sociais rígidas, violências simbólicas e concretas e, sempre possível, construir redes de apoio que funcionam como abrigo em meio ao caos.
A história de Samuca, um rapaz trans de 30 anos, revela que ter um apoio dentro de casa, é decisivo para enfrentar o preconceito, da violência e das dificuldades impostas às pessoas trans no trabalho, nas relações sociais e na vida cotidiana. Agente educacional em uma escola pública da cidade de Araraquara (SP), ele encontrou no apoio do pai, Reinaldo Oliveira, educador infantil, o ponto de sustentação fundamental para existir com dignidade.
Essa trajetória foi marcada por rupturas, descobertas difíceis e momentos de libertação, mas, com um elemento fundamental. Desde o momento em que ouviu “pai, eu sou trans”, Reinaldo escolheu caminhar junto do filho.
“Eu falei pra ele ‘você sabe que vai encontrar preconceito na família, na sociedade, no trabalho, em tudo. Você tá afim disso?”, lembra Reinaldo. Diante da resposta afirmativa do filho, veio o compromisso que mudaria tudo: “Então vamos junto nessa. Tô contigo”.
Conservadorismo, medo e silenciamento
A história de Samuel, que também é dançarino, não começa com a transição, há cerca de oito anos. Ela se deu em contexto social e político que ele e o pai identificam como hostil. Era 2018, ano em que os preconceitos se rebelavam, em que a sociedade, polarizada, era campo minado para populações minorizadas como a população LGBTQIA+, a população negra, mulheres, entre outras. Para Reinaldo, a ascensão dos discursos conservadores no Brasil e no mundo não criou o preconceito, mas o legitimou.
“As pessoas têm o racismo dentro de si, têm o preconceito, o machismo. Elas só precisam de alguém que legitime aquilo que elas pensam”, afirma.
Esse ambiente teve impacto direto na vida de Samuel, especialmente em espaços que deveriam ser de acolhimento. Criado em uma família evangélica pelo lado materno, ele permaneceu por muito tempo na igreja mesmo sendo alvo de preconceito.
“Era um lugar em que eu ia buscar conforto espiritual, mesmo recebendo todo tipo de preconceito”, conta Samuca. A saída veio no momento em que percebeu que aquele espaço não o reconhecia como quem ele era.
O cara que eu ajudei muito virou pra mim e falou: ‘nossa, que decepção que você é’. Naquele momento eu pensei: o que eu tô fazendo nesse lugar, Foi aí que caiu a ficha. Eu falei: isso aqui não me pertence
Descobrir-se e reconhecer-se
Samuel conta que o processo de se reconhecer como homem trans não foi imediato. A disforia surgiu quando mudanças físicas passaram a gerar sofrimento intenso. “Eu me olhava no espelho e já não me reconhecia”, diz. A partir daí, pequenas experiências – como testar nomes masculinos em ambientes diversos, inclusive de trabalho – passaram a fazer sentido. “Era massa pra caramba ser chamado no masculino.”
A transição é lembrada como um período contraditório – mágico, mas atravessado por medo. “Eu me olhava no espelho e gostava do que eu tava vendo. Foi mágico”, afirma. Ao mesmo tempo, vieram novas pressões. “Você sai de uma caixinha e entra em outra. Se você é homem, então tem que agir assim, se vestir assim”, diz Samuca sobre o que ouvia das pessoas em relação à sua identidade.
E foi o pai quem o alertou. “Cuidado com o padrão de homem que existe nesse mundo. Você não precisa copiar ninguém. Seja você mesmo”, lembra Reinaldo.
O trabalho, a escola e as contradições do cotidiano
Samuel fez a transição enquanto já trabalhava em uma escola pública, como agente educacional. O ambiente escolar revelou contrastes importantes. “O pior foram os adultos”, afirma. As crianças, segundo ele, compreenderam com muito mais facilidade. “No outro dia já estavam todas me chamando de Samuel.”
Entre os adultos, o desafio foi explicar repetidamente a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual. “Não era só preconceito, era ignorância mesmo”, explica. Ainda assim, reconhece que teve apoio de parte da equipe, o que tornou o processo menos violento, apesar de seu nome – Samuel – ser utilizado pela direção da escola somente após seus documentos terem sido retificados. Ele conta que o máximo que conseguiu foi ser chamado pelo apelido de Samuca, enquanto seus documentos não eram alterados.
E é importante citar que o fato se deu ainda que já à época, havia o direito ao uso do nome social, reconhecido pelo Decreto nº 8.727/2016, que garantiu que pessoas trans e travestis fossem chamadas e reconhecidas pelo nome com o qual se identificam, em documentos e registros, sem necessidade de alteração civil prévia.
O decreto era bem explicativo ao citar que o uso devia ser respeitado em órgãos públicos, escolas, hospitais e no mercado de trabalho.
O cotidiano de trabalho também escancarou cobranças atravessadas por estereótipos de gênero. Samuel relata que, no ambiente escolar, passou a ouvir comentários recorrentes de colegas do setor de serviços, que associavam sua identidade masculina a tarefas físicas ou técnicas.
Agora você é homem, pega ali o negócio pesado”, relatam colegas. Samuel responde com humor, mas aponta o peso dessas imposições. “Eu sou uma flor”, ele brinca como uma forma de resistir à expectativa do “macho padrão”
Samuel afirma não se permitir enquadrar em rótulos, reconhecendo que já tentou, em outros momentos, caber em padrões impostos socialmente, algo que hoje identifica como um limite a ser rompido.
Expressão corporal
Esse processo de ruptura ganhou força a partir de experiências com o corpo e o movimento. Ele relata que em determinado momento, começou a praticar poliesporte e participou, dentro da escola, de um evento pensado inicialmente apenas para mulheres, no qual elas podiam se apresentar livremente, vestir a roupa que quisessem e sensualizar, sem a presença masculina na plateia.
Ao questionar se poderia assistir, ouviu que “não”; ao propor participar como integrante do corpo discente, recebeu autorização.
Foi ali que, usando roupa curta e dançando de forma sensual, ele se percebeu livre de classificações.
“Foi tão bom soltar um lado meu que ficou preso muito tempo por tentar caber nesse padrão da sociedade”, afirma. Para Samuel, não se tratava de um corpo masculino ou feminino, mas simplesmente de um corpo dançante, em movimento, experimentando a liberdade de existir sem rótulos, “sem ser homem, mulher, isso ou aquilo”.
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Corpo, desejo e violência
Nem todas as violências vividas por Samuca são institucionais. A experiência nos relacionamentos afetivos também revela marcas profundas. Ele relata situações de fetichização e rejeição explícita por ser um homem trans. “As pessoas querem ter a experiência”, afirma, referindo-se a abordagens que reduzem sua identidade à genitalidade.
Uma experiência em especial deixou marcas duradouras. Durante um encontro, foi alvo de uma reação de rejeição por parte da outra pessoa. “Eu fiquei em estado de choque”, conta. “Eu já sofri abuso. Me senti como se estivesse fazendo algo errado.”
Essas vivências levaram Samuel a se afastar de relações afetivas por um período. “Fiquei muito tempo sem conseguir sair com outras pessoas”, diz.
Casa, abraço e proteção
É nesse ponto que a importância do apoio familiar aparece com mais força. Para Samuel, saber que tem no pai e em sua avó paterna o acolhimento faz diferença vital. “A gente apanha muito fora. Na rua, no trabalho, na documentação. Então você chegar em casa e ter um abraço é extremamente importante”, afirma.
Reinaldo reconhece que esse apoio é um privilégio. “Tem muita gente que não tem”, diz, citando casos de pessoas trans expulsas de casa. Para ele, não existe fórmula, mas há um princípio claro: “É meu filho. Eu gosto dele do jeito que ele for.”
O pai evita a palavra ‘aceitar’ ao se referir à relação com o filho. Para ele, 'aceitar' é egoísmo e uma profunda falta de respeito à existência das pessoas.
Não tem que aceitar nada. É respeitar. É amar. A única coisa que os pais têm que fazer é dar apoioh
Um aprendizado coletivo
A relação entre Samuel e Reinaldo também é atravessada por diálogo, discordâncias e aprendizado mútuo. O pai se define como ateu e comunista, e vê na solidariedade um valor central. “Queria um mundo com mais respeito, mais compreensão, onde ninguém se mete na vida de ninguém”, resume.
Samuel reconhece que esse suporte moldou sua trajetória. “Um apoio familiar, nem que seja de uma pessoa, já faz total diferença”, diz.
A história de Samuel não é apenas sobre identidade. É sobre cuidado, permanência e a força de um vínculo que sustenta quando todo o resto parece empurrar para fora. É também um lembrete de que, diante de tanta violência, o apoio de pais e mães pode ser a diferença entre sobreviver e viver.