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Negacionasmo bolsonarista na pandemia: 700 mil mortes não podem ser esquecidas

Documentário Anatomia do Caos, de Dandara Ferreira, recupera o negacionismo ', o atraso nas vacinas e a dor das famílias; atuação de Flávio Bolsonaro também integra a história da crise sanitária

Publicado: 19 Outubro, 2026 - 22h24 | Última modificação: 20 Outubro, 2026 - 10h26

Escrito por: Redação CUT

Alex Pazuello | Prefeitura de Manaus
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A memória é um dos bens mais preciosos de uma sociedade. Preservar o que aconteceu durante a pandemia de Covid-19 significa respeitar os mais de 700 mil mortos no Brasil e reconhecer as decisões que agravaram a tragédia. No momento em que Flávio Bolsonaro disputa a Presidência da República, lembrar a gestão de seu pai, Jair Bolsonaro, também exige examinar o papel do próprio senador naquele período. O passado oferece elementos concretos para avaliar quem pretende comandar o futuro do país.

Entre discursos presidenciais, depoimentos à CPI da Covid e relatos de familiares, o documentário Anatomia do Caos, de Dandara Ferreira, recupera uma história de sofrimento e de escolhas políticas. O vírus atingiu o Brasil, mas encontrou no governo federal uma condução marcada pelo negacionismo, pela promoção de medicamentos sem eficácia contra a doença e por obstáculos à vacinação.

O documentário traz uma retrospectiva de fatos cruciais que comprovam que o enfretamento à COVID-19 no Brasil teve inimigos declarados dentro do poder – um ataque que resultou na morte de mais de 700 mil pessoas no Brasil, colocando o país na segunda posição mundial em número de mortes. O total do Brasil representa 11% do total mundial.

“A gente não elabora o luto no silêncio do esquecimento. Nós precisamos falar e nós precisamos ser escutados”, afirma uma familiar de vítima na abertura do filme. A declaração estabelece o sentido da narrativa: dar voz a quem perdeu pessoas que amava e cobrar respostas de quem tinha a responsabilidade de proteger a população.

Veja o documentário ao final da matéria

Negacionismo no lugar da proteção

Desde o início da emergência sanitária, Bolsonaro minimizou a gravidade da Covid-19. “Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar”, afirmou, em uma das declarações recuperadas pelo documentário.

A postura presidencial entrou em conflito com as orientações de prevenção. Enquanto profissionais de saúde enfrentavam hospitais sobrecarregados, Bolsonaro atacava restrições à circulação e estimulava a desconfiança em relação às medidas de proteção.

Isso não significa que o país tenha ficado sem atendimento ou sem iniciativas de enfrentamento. Trabalhadores do SUS, instituições científicas e serviços públicos sustentaram a resposta à pandemia. O que o filme expõe é a ausência de uma condução federal responsável e coerente com a gravidade da crise, somada a intervenções presidenciais que contrariavam esse esforço.

A instabilidade também atingiu o Ministério da Saúde. Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich e Eduardo Pazuello se sucederam na primeira fase da pandemia. Posteriormente, Marcelo Queiroga assumiu a pasta, tornando-se o quarto ministro da Saúde do governo durante a emergência sanitária.

No depoimento recuperado pelo filme, Mandetta relata ter encontrado uma proposta de alteração da bula da cloroquina para incluir sua indicação contra o coronavírus. O episódio integra as denúncias sobre a existência de um assessoramento paralelo, que influenciava o presidente por fora da estrutura oficial do ministério.

Cloroquina e ivermectina: a promessa de uma proteção que não veio

A defesa do chamado “tratamento precoce” ocupa parte importante do documentário. Cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina foram apresentadas como respostas à Covid-19, embora não tivessem eficácia comprovada para combater a doença.

O filme relaciona essa propaganda à tentativa de macnter a população nas ruas e as atividades econômicas em funcionamento, oferecendo uma promessa de segurança que os medicamentos não podiam garantir.

Nise Yamaguchi aparece defendendo o tratamento e sendo questionada sobre as evidências utilizadas. Osmar Terra é confrontado com suas previsões sobre a duração e a gravidade da pandemia e com suas posições contrárias ao isolamento.

Para quem precisava trabalhar e temia adoecer, a promessa de um remédio capaz de impedir o agravamento podia parecer uma saída. A consequência apontada pela narrativa é a exposição de pessoas ao vírus sob uma falsa sensação de proteção.

Amazonas: pessoas morreram sem conseguir respirar

A falta de oxigênio em Manaus é uma das expressões mais dolorosas da crise. Familiares procuravam cilindros enquanto pacientes dependiam de atendimento imediato para continuar vivos.

O documentário recupera alertas sobre o risco de desabastecimento e confronta a resposta do Ministério da Saúde com o desespero dentro e fora dos hospitais.

“O que que o Ministério da Saúde tem a ver com produção, transporte, distribuição e logística de oxigênio?”, questiona Eduardo Pazuello em uma declaração apresentada no filme.

A fala sintetiza a discussão sobre a responsabilidade federal. Para as famílias, porém, a urgência não cabia em uma disputa administrativa: era preciso conseguir oxigênio antes que fosse tarde.

Ao ser questionado sobre sua saída do ministério, Pazuello responde: “Missão cumprida”. A declaração é contraposta, na narrativa, à dimensão das perdas e às cobranças sobre sua gestão.

Vacinas: ofertas sem resposta e interferência presidencial

Enquanto o governo promovia medicamentos ineficazes, oportunidades de aquisição de vacinas enfrentavam obstáculos.

Carlos Murillo, representante da Pfizer, relata à CPI que a empresa enviou uma carta a Bolsonaro e a integrantes do governo para reforçar a oferta de imunizantes, sem obter resposta. Segundo seu depoimento, as condições contratuais oferecidas ao Brasil eram as mesmas aceitas por mais de 110 países.

O documentário também recupera a interferência de Bolsonaro na aquisição da CoronaVac, produzida em parceria com o Instituto Butantan. Depois do anúncio de compra pelo Ministério da Saúde, o presidente declarou que havia determinado seu cancelamento.

“Já mandei cancelar”, afirmou. E acrescentou: “Presidente sou eu”.

A fala sobre a possibilidade de alguém “virar jacaré” aparece como outro exemplo de desqualificação pública das vacinas. Enquanto a imunização era tratada dessa maneira, famílias continuavam expostas à doença.

“Eu daria tudo porque meu filho tivesse tido essa chance”, diz um pai que perdeu o filho, ao defender a vacinação. Seu depoimento traduz o significado humano do atraso: a proteção que não chegou a tempo para quem morreu.

Dona Déa Lúcia, mãe do ator e humorista Paulo Gustavo, conta o seu sentimento - de mãe - por ter perdido um filho por conta da irresponsabilidade de um governo.

 

 
 
 
 
 
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Suzana Garcia, diretora de cinema e médica também foi às redes sociais para contar como foram os momentos em que Paulo Gustavo, seu amigo pessoal, permanecia entubado por causa da doença. "Ele não podia nem chorar porque era um esforço imenso e não tinha fôlego para isso", ela conta.

 

 
 
 
 
 
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Deboche presidencial e dor familiar

Além das decisões de governo, o filme registra a maneira como Bolsonaro se dirigiu a uma população enlutada.

“Tem que deixar de ser o país de maricas”, declarou. Em outra manifestação, disse: “Chega de frescura, de mimimi. Vamos ficar chorando até quando?”, disse o ex-presidente

O documentário também mostra os terríveis momentos em que Jair Bolsonaro imitava pessoas com falta de ar. Uma mulher que perdeu o pai e a mãe descreve o sofrimento provocado pela cena.

Os relatos mostram que a violência não terminou no momento da morte. Continuou na ausência de reconhecimento, nas manifestações de desprezo e nos ataques às homenagens às vítimas.

“Eu não pude dar um abraço no meu filho. Eu não pude dar o último beijo”, conta um pai. Ao falar do que veio depois, enumera: “Cada deboche, cada sorriso, cada ironia”.

Flávio Bolsonaro também fazia parte dessa história

A atuação de Flávio Bolsonaro durante a pandemia precisa ser examinada junto à gestão de seu pai. Como senador e defensor do governo, ele apoiou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 e atuou para desacreditar a investigação parlamentar.

Sua defesa da cloroquina foi registrada em pronunciamentos e manifestações públicas, como mostra a cobertura do Congresso em Foco. Na CPI, sua atuação política esteve associada à defesa do governo e à contestação das iniciativas de responsabilização das autoridades federais.

Outra frente envolve a rede hospitalar federal do Rio de Janeiro. A reportagem da Agência Pública reúne denúncias sobre a influência política do senador na administração dessas unidades durante a crise sanitária.

As apurações citadas relacionam indicações políticas, afastamento de profissionais técnicos e problemas na gestão de pessoal ao fechamento de cerca de 30% dos leitos federais. Também apontam suspeitas de sobrepreço em contratações emergenciais. São denúncias e achados de fiscalização que precisam ser apresentados como tais, sem confundi-los com condenações judiciais.

A discussão, portanto, ultrapassa o vínculo familiar. Envolve as posições que Flávio defendeu, o governo que sustentou e as denúncias sobre sua influência em serviços que deveriam atender a população durante a emergência.

Memória e responsabilidade

O filme também aborda as suspeitas na negociação da Covaxin e as denúncias contra a Prevent Senior, incluindo o uso de medicamentos sem eficácia e a possível ocultação de mortes em um estudo. Os episódios ampliam a investigação sobre o que aconteceu enquanto o país precisava de proteção, atendimento e vacinas.

A CPI deu espaço público aos relatos das famílias e encaminhou propostas de responsabilização. A entrega do relatório à Procuradoria-Geral da República e os posteriores pedidos de arquivamento de apurações aparecem no documentário como parte da frustração de quem esperava justiça.

Para o povo brasileiro, mais de 700 mil mortes não podem ser reduzidas a números, tampouco esquecidas. Elas representam casas esvaziadas, crianças sem pais, despedidas impedidas e pessoas que continuam tentando reorganizar a vida.