• Kwai
MENU

Oficina de Formação de Formadores da CUT debate desafios políticos para 2026

O Encontro que acontece em Florianópolis (SC) hoje pela manhã reuniu lideranças de todo o país para analisar a conjuntura geopolítica e planejar ações voltadas à classe trabalhadora

Publicado: 11 Março, 2026 - 13h42 | Última modificação: 11 Março, 2026 - 15h45

Escrito por: Clara Aguiar / CUT SC

Clara Aguiar / CUT SC
notice

Na manhã desta quarta-feira (11), na Escola Sul, em Florianópolis (SC), dirigentes e militantes sindicais debateram estratégias de formação política e os desafios da conjuntura nacional e internacional. A atividade integra a programação da 2ª Oficina Nacional de Planejamento do Projeto Formação de Formadores e Formadoras Sindicais, promovida pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) em parceria com a DGB Bildungswerk (DGB BW).

Clara AguiarClara Aguiar

A mística de abertura fez uma analogia com o trabalho dos pescadores, simbolizando a construção coletiva da formação sindical. Cada participante escreveu em tarjetas, em formato de peixe, seu nome, sua localidade e uma palavra que representasse o significado da formação.

Clara AguiarClara Aguiar

Em seguida, organizados por regiões, os participantes depositaram seus “peixes” em uma grande rede, representando a união e a força coletiva necessária para enfrentar o mar aberto — uma metáfora para os desafios da formação e da luta sindical.

Clara AguiarClara Aguiar

Articulação

 A mesa de abertura foi composta por Rosane Bertotti, secretária de Formação da CUT Brasil, Sueli Veiga de Melo, secretária de formação da CUT, Celso Woyciechowski, coordenador-geral da Escola Sindical Sul, Rogério Manoel Corrêa, da CUT-SC, Cristiana Paiva Gomes, secretária da Juventude da CUT Nacional, Maria das Graças (Graça) Costa, secretária de Organização e Política Sindical da CUT, Nadilene Nascimento, secretária adjunta de Combate ao Racismo da CUT,  Renato Zulato, secretário-geral da CUT e Juvandia Moreira, vice-presidenta da CUT nacional.  

 Na acolhida aos participantes, a secretária nacional de Formação da CUT, Rosane Bertotti, fez referência a mística realizada destacando a força da luta coletiva: “Acho que cada um e cada uma de nós se surpreendeu de alguma maneira com essa mística e se sentiu parte desse processo. Como a pescaria já começou, e a gente precisa continuar a pescar e lá na CUT Nacional, eu não pesco sozinha, eu quero convidar para ajudar para pescar aqui comigo nesse início de manhã”. 

Clara Aguiar   Clara Aguiar     

 Dando continuidade às saudações, o coordenador-geral da Escola Sindical Sul, Celso Woyciechowski, destacou a importância da formação sindical como processo coletivo de construção política junto às bases.

 Segundo ele, o encontro reúne militantes para “se irmanarem nesse processo de construção que é a nossa formação sindical para os trabalhadores e trabalhadoras”. Utilizando a metáfora da pesca, Celsinho, como é conhecido, comparou a atuação sindical à prática de lançar a tarrafa em águas difíceis. “É no mar mais revolto que as maiores conquistas têm mais sabor”, afirmou. Para ele, a formação exige disposição para chegar aos lugares mais distantes e dialogar com categorias diversas. “É a gente ter essa alegria, essa satisfação de construir a formação no lugar mais longe que tem, mais difícil que tem”, disse.

Clara Aguiar   Clara Aguiar     

 Celsinho também ressaltou que o ano de 2026 apresenta desafios importantes para o movimento sindical. “Nós vamos precisar usar tarrafa, rede, caíco e assim por diante”, afirmou, reforçando que a luta exige diferentes estratégias. Ao dar as boas-vindas, ele lembrou que o espaço que recebe a atividade é fruto da construção coletiva dos trabalhadores. “É a casa da Central dos Trabalhadores, construída ao longo dos anos na base do tijolinho por tijolinho, na base da solidariedade”, declarou.

Representando a CUT de Santa Catarina, Rogério Manoel Corrêa destacou o papel da formação sindical em um contexto de disputas políticas e eleitorais. Para ele, o movimento sindical precisa fortalecer sua atuação junto à classe trabalhadora. “Como a gente está num ano eleitoral, é sempre importante frisar e apelar para que as nossas lideranças e o nosso povo tenham a capacidade de manter esse projeto de governo”, afirmou.

 

 Corrêa ressaltou que a defesa da democracia e dos direitos sociais permanece central para o movimento sindical. “A defesa da democracia está sempre em risco”, disse, lembrando que a história recente do país trouxe exemplos de retrocessos. Para ele, a formação promovida pela CUT contribui para ampliar a consciência política da classe trabalhadora. “Quem passa pela formação da CUT não esquece. Muitas vezes muda o seu jeito de pensar e vira um cidadão completo”, afirmou.

 

 A secretária nacional de Juventude da CUT, Cristiana Paiva Gomes, destacou a importância da organização política e da participação da juventude no movimento sindical diante do atual cenário político. Segundo ela, a classe trabalhadora enfrenta um contexto desafiador, marcado por disputas políticas e pelo avanço da extrema direita na América Latina.

Gomes afirmou que o momento exige responsabilidade coletiva na defesa dos direitos dos trabalhadores. “Nós queremos viver, queremos ter respeito e responsabilidade de todos com os nossos direitos”, disse, ao saudar a presença de jovens no encontro e reforçar a importância da renovação das lideranças sindicais.

De acordo com a dirigente, o ano tem caráter estratégico para o movimento sindical e para os trabalhadores. Ela ressaltou a necessidade de fortalecer a representação política comprometida com os direitos da classe trabalhadora, ampliando a presença de parlamentares alinhados com essas pautas no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas estaduais.

A secretária também alertou para o impacto das políticas adotadas por governos de extrema direita na região. Segundo Gomes, experiências recentes em países da América Latina demonstram que esses governos costumam priorizar mudanças que atingem diretamente os direitos trabalhistas, enfraquecendo a proteção social e as condições de trabalho.

Durante a fala, Gomes destacou ainda a importância da participação da juventude nos espaços de decisão. Ela afirmou que jovens representantes de diferentes regiões do país participam do encontro e ressaltou a necessidade de ampliar essa presença não apenas no movimento sindical, mas também em conselhos e instâncias de governo que discutem políticas públicas voltadas à juventude, às mulheres e à proteção de crianças e adolescentes.

Para a dirigente, um dos grandes desafios atuais é aproximar os jovens do processo de formação política e sindical. Segundo Gomes, muitos jovens estão cada vez mais conectados às redes digitais, mas ainda participam pouco dos espaços formativos e organizativos do movimento sindical.

“Temos um desafio grande que é retomar os nossos quadros e fazer com que os sindicatos compreendam a importância de formar jovens e dialogar com a juventude que está chegando ao mundo do trabalho”, afirmou.

Gomes também colocou a Secretaria Nacional de Juventude da CUT à disposição para fortalecer esse processo de formação e organização. Ao encerrar sua participação, desejou que o encontro contribua para renovar as energias dos participantes e fortalecer as lutas do movimento sindical. “Que a gente saia daqui recarregado e mais forte para enfrentar as nossas lutas diárias”, concluiu.

 

Clara Aguiar   Clara Aguiar     

O secretário-geral da CUT, Renato Zulato, afirmou que o setor empresarial brasileiro representa forte desafio ao debate e à organização da classe trabalhadora. Segundo ele, trata-se de um setor “atrasadíssimo”, que evita discutir temas fundamentais entre os próprios profissionais e trabalhadores. Para Zulato, esse cenário impõe um grande desafio ao movimento sindical, que precisa fortalecer seus processos de formação política e ampliar o diálogo dentro das organizações.

Dirigindo-se aos participantes do encontro, ele destacou que a tarefa central da formação sindical é levar o debate construído nesses espaços para as escolas de formação e para os planos de trabalho das entidades. “O nosso desafio é sair daqui desse encontro, como sempre fizemos na formação da CUT, e levar esse acúmulo para as nossas escolas e para os nossos planos”, afirmou. Zulato também ressaltou a necessidade de engajar e motivar a militância, de modo que ela se encante com o processo formativo e fortaleça a ação política nos territórios.

Ao ampliar a análise para o cenário internacional, o dirigente afirmou que o mundo vive um contexto de disputa permanente. Ele citou a postura do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que tem defendido a paz, em contraposição a lideranças da extrema direita internacional, como Donald Trump, que apostam em uma lógica de guerra e confronto. Zulato também mencionou o presidente da Argentina, Javier Milei, que tenta construir, na América do Sul, um bloco político alinhado à extrema direita. Para o secretário-geral da CUT, esse cenário internacional pode ter impactos diretos nas disputas políticas e eleitorais na América Latina e no Brasil.

Nesse contexto, Zulato afirmou que o cenário político também impõe tarefas imediatas ao movimento sindical. “Então, por isso, tudo o que nós fizermos daqui até outubro é para reeleger o presidente Lula, como diz a Cristiana, é para reeleger governadores, reconquistar os estados que nós perdemos e aumentar a nossa bancada de representantes dos trabalhadores e trabalhadoras em Brasília e também nos nossos estados”, declarou. Para o secretário-geral da CUT, o momento exige organização e mobilização permanente da militância sindical diante de um desafio político de grandes proporções.

Clara Aguiar   Clara Aguiar    

 A secretária adjunta de formação da CUT, Sueli Veiga de Melo, destacou a importância da análise de conjuntura diante do cenário político atual. Segundo ela, a atividade busca contribuir para a preparação das organizações da classe trabalhadora.

 “É uma mesa fundamental, especialmente no ano que estamos vivendo, que é um ano de eleições no Brasil”, afirmou. Para Melo, o encontro ocorre em um contexto de forte ofensiva da extrema direita. “Nós estamos com a extrema direita organizada e com uma ofensiva muito grande”, disse.

 Ela explicou que o objetivo da mesa de conjuntura é compreender a correlação de forças no país e no cenário internacional. “A ideia é fazermos essa análise para entender onde estamos e fortalecer nossa ação”, afirmou. Utilizando novamente a metáfora do mar, Sueli afirmou que o movimento sindical enfrenta desafios complexos. “É um mar profundo, revolto, com perigos. Nós estamos no nosso barco, remando e lutando”, disse.

 Desafios da luta sindical no atual cenário geopolítico 

 Após a abertura, a programação seguiu com a primeira mesa do dia, dedicada à analisar a conjuntura internacional e nacional.

 O advogado Hugo Albuquerque, analista geopolítico, editor da Autonomia Literária e publisher da Revista Jacobina, apresentou, de forma virtual, uma análise sobre o papel do Brasil no cenário global. Segundo ele, o país ocupa uma posição estratégica no equilíbrio internacional. “O Brasil não é qualquer coisa. É uma democracia chave nesse globo”, afirmou.

Clara Aguiar   Clara Aguiar    

 Para o pesquisador, o peso do país na diplomacia e no comércio internacional torna o Brasil um ator relevante nas disputas globais. “Não dá para prescindir do Brasil no comércio global”, disse. Ele também alertou para os riscos de conflitos internacionais envolvendo potências globais.

 Ao comentar as tensões no Oriente Médio, Albuquerque destacou que uma escalada militar poderia provocar impactos globais. “Apostar na guerra ali terá efeitos graves, como o preço do petróleo”, afirmou. Segundo ele, o petróleo continua sendo a principal fonte energética do mundo, o que torna os conflitos envolvendo essa região particularmente sensíveis para a economia internacional. 

 “Cada país do mundo é como um automóvel que não para. Então, quando a gente fala em uma China da vida, a gente está falando de um abastecimento de 14 a 15 milhões de barril de petróleo ao dia. Quando a gente fala de Israel, a mesma coisa acontece. É assim que os países estão. Até que se desenvolvam uma fonte de energia alternativa a isso aí”, explicou

 Já a cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e estudiosa da nova direita brasileira, apresentou uma análise sobre o cenário político nacional e as perspectivas para as eleições de 2026.

Clara Aguiar   Clara Aguiar    

 Com base em pesquisas, ela pontuou percepções recorrentes entre eleitores sobre o governo federal e sobre o Partido dos Trabalhadores (PT), refletindo os grandes desafios que permeiam o Governo Lula. Segundo Rocha, uma crítica frequente refere-se à falta de renovação de propostas. “As pessoas falam muito de uma falta de renovação, não só de pessoas, mas também de ideias”, afirmou.

 Ela explicou que muitos entrevistados comparam o atual governo com os primeiros mandatos do PT, lembrando programas sociais como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida e o ProUni. “As pessoas falam que o governo prometia muito e entregou pouco”, disse.

 A cientista política também mencionou críticas relacionadas à comunicação do governo com a população. Segundo ela, muitos eleitores percebem o presidente como distante. “As pessoas dizem que não veem muito o Lula se pronunciando em rede nacional, no rádio ou na TV”, explicou.

 A pesquisadora destacou, por outro lado, que o PT mantém uma base importante de identificação partidária — estimada entre 25% e 30% do eleitorado.

A vice-presidenta da CUT, Juvandia Moreira, iniciou sua fala lembrando da condição das mulheres no Brasil e do alto índice de feminicídios. Em seguida, ela contextualizou o cenário político internacional e alertou para o avanço da extrema direita no mundo. “Nós vamos ter um ano de turbulência”, afirmou, citando a liderança de Donald Trump como uma expressão desse movimento. Para ela, trata-se de um movimento que precisa ser nomeado com clareza: “ele é um movimento fascista”.

Clara Aguiar   Clara Aguiar    

Segundo Moreira, tanto a extrema direita internacional quanto a brasileira operam a partir de uma lógica semelhante: a escolha de inimigos sociais. “Você escolhe um inimigo e combate esse inimigo. Normalmente é uma pessoa pobre, preta. As mulheres também são inimigas desse povo”, afirmou. Ela citou ainda que figuras como Trump e Jair Bolsonaro representam uma política marcada por posturas machistas, racistas e homofóbicas, na qual imigrantes e minorias passam a ser tratados como ameaças.

Na avaliação da dirigente, essa lógica política precisa constantemente da construção de um inimigo para mobilizar a sociedade. “Você vive precisando do inimigo para combater”, explicou. Para ela, essa dinâmica também se expressa em propostas de segurança pública baseadas em repressão e encarceramento em massa. Como exemplo, mencionou políticas que defendem prisão coletiva e julgamentos rápidos, muitas vezes sem garantias de direitos. “Você é preso porque tem uma tatuagem. A condenação é coletiva”, criticou.

Moreira ressaltou que esse tipo de solução já foi experimentado historicamente e não trouxe respostas reais para os problemas sociais. Apesar disso, reconheceu que o tema da segurança pública continuará sendo central no debate político. Segundo ela, o desafio está em apresentar à população alternativas que sejam efetivas e ao mesmo tempo baseadas em direitos. “Nós ainda não conseguimos convencer a população com uma narrativa que mostre de fato como promover segurança”, avaliou.

Para a dirigente sindical, o sentimento de insegurança vivido pela população é real, mas as soluções autoritárias acabam recaindo principalmente sobre os mais pobres. “O povo mais pobre é que vai pagar esse preço”, alertou.

Ao final, a vice-presidenta  questionou qual deve ser o papel dos dirigentes sindicais diante desse cenário. “Nós, cutistas, qual é o nosso papel?”, perguntou. Ela lembrou que a CUT foi criada com o objetivo de construir um país mais justo e com menos desigualdades, assim como outros movimentos políticos ligados à esquerda brasileira.

Segundo ela, a missão da organização sempre foi disputar o poder para implementar um projeto de país com justiça social, equidade e direitos. Nesse sentido, destacou a importância da formação política dentro do movimento sindical. “Nós estamos num público privilegiado, que pensa, que reflete e que forma”, afirmou.

Por fim, enfatizou que a formação não deve ser apenas um espaço de estudo, mas um instrumento de transformação social. “A gente não forma só para estudar. A gente forma para agir, para colocar em prática esse pensar e transformar isso em coisas concretas.”

Após, foi aberto um espaço de contribuição de saberes do público participante. 

 A programação da oficina segue até sexta-feira (13), com debates, grupos de trabalho e atividades voltadas ao planejamento da formação sindical no próximo período. O objetivo do encontro é fortalecer as estratégias de formação política da CUT e ampliar a atuação de formadores e formadoras junto à classe trabalhadora em todo o país.