O que são as escolas...
Publicado: 02 Setembro, 2010 - 00h29
Escrito por: Carlos Lopes/Hora do Povo
Segundo deputado tucano, Serra ‘criou escolas técnicas sem construir nenhuma sala’
Serra tem apregoado sua adesão incondicional ao ensino técnico. Não deixa de ser interessante, pois este é um terreno em que o governo Lula foi um sucesso, quase se poderia dizer, vertiginoso.
O ensino técnico é, evidentemente, essencial para o desenvolvimento do país – atualmente, a falta de técnicos já é um problema grave para a indústria nacional em crescimento. O presidente Lula, compreendendo essa necessidade, já fundou 141 escolas técnicas e no final deste ano mais 99 estarão prontas. Somando-se às 140 escolas técnicas construídas desde o governo Nilo Peçanha, em 1909, as 380 escolas técnicas federais poderão oferecer, no próximo ano, 500 mil vagas – e o plano é chegar ao mínimo de uma escola técnica para cada município com mais de 50 mil habitantes.
Quais são os cursos dessas escolas técnicas federais, hoje integradas a universidades técnicas, através dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia em cada Estado? Eis uma amostra desses cursos técnicos:
Análise Química, Edificações, Eletrotécnica, Eletrônica, Manutenção Mecânica Industrial, Operação de Processos Industriais Químicos, Automação e Controle Industrial, Geologia, Refrigeração, Informática, Processos de alimentação e bebidas, Eletromecânica, Petróleo e Gás Natural, Metalurgia, Biocombustíveis.
Em sua adesão ao ensino técnico, Serra tem propalado a suposta construção de um número variável (pois varia de acordo com a peça de propaganda, com o momento e com o serrista) de escolas técnicas em São Paulo.
Tratar-se-ia de algo misterioso. Todo o ensino no Estado de São Paulo foi notoriamente amesquinhado ao longo de 16 anos de governadores tucanos, entre os quais o próprio Serra, mas ele teria conseguido instalar um ensino técnico “de qualidade” ou “de excelência” no Estado.
Se fosse verdade, seria muito estranho: logo os tucanos – e logo Serra – se preocuparem com o ensino técnico? Logo eles, que sempre foram partidários de que indústria moderna é indústria estrangeira, de que a indústria nacional é um estorvo, de que importar é melhor do que produzir internamente? Por que se preocupariam com isso?
Há muito se sabe – desde o governo Fernando Henrique – que a encenação é a especialidade política dos tucanos. Aqui está mais um exemplo: que “escolas técnicas” Serra construiu em São Paulo? Um de seus mais fanáticos apoiadores, o deputado estadual tucano Pedro Tobias, em pronunciamento na Assembleia Legislativa, no dia 7 de outubro do ano passado, exaltou os poderes mágicos de seu ídolo, pois, segundo o deputado, Serra “criou mais escolas técnicas do que o governo federal (...) sem construir nenhuma sala”. E acrescentou o deputado: “fica muito mais barato”.
É verdade. Não construir é mais barato do que construir. E a vocação tucana sempre foi, do ensino às estatais, destruir - jamais construir alguma coisa.
Mas, recentemente, eles propagandearam as excelências de uma escola técnica que teriam construído em Paraisópolis, bairro popular da capital de São Paulo.
Essa escola não chega a ser um elefante branco, pois lhe falta tamanho para tanto. Os leitores que moram em São Paulo podem ir lá conferir, na rua Dr. José Augusto de Souza e Silva s/nº. São meia-dúzia (meia-dúzia mesmo) de salas de aula e alguns computadores. Os cursos resumem-se a três: Contabilidade, Segurança do Trabalho e Informática, cada um com o máximo de 40 vagas em dois turnos (tarde e noite) - para uma comunidade com mais de 100 mil habitantes.
No entanto, olhando o prédio dessa ETEC por fora, como decoração ele não é de todo mau...
O povo de Paraisópolis até que deu sorte. É verdade que Contabilidade, antigamente, era uma modalidade do curso colegial, e não um curso ministrado pelas escolas técnicas. Porém, pior são as “escolas técnicas” dos tucanos onde os cursos “técnicos” são, por exemplo, Dança, Canto, Cozinha, Decoração, Lazer, Marketing, Vestuário e “Turismo receptivo”. Se algum leitor incrédulo quiser conferir, basta uma olhada no site do Centro Paula Souza, que administra as ETECs paulistas.
Não temos nada contra nenhum desses cursos. Mas promovê-los a cursos “técnicos”, no sentido em que sempre se entendeu o termo (e no sentido do que precisamos para o desenvolvimento) é fraude, charlatanice.
Além dos citados, a maioria dos cursos das ETECs paulistas é de gestão, de técnicas jurídicas, técnicas empresariais, técnicas administrativas. A razão, além da ideologia tucano-entreguista, é que não demandam o investimento necessário a cursos como automação industrial, mecatrônica, química industrial ou edificações – que são raridade nas ETECs serristas – nem mesmo novas salas de aula. O problema é que não são esses cursos que fazem o país andar para frente.
É verdade que não esperaríamos isso dos tucanos, especialmente de Serra, o homem que não criou o FAT, que não criou o seguro-desemprego, que não criou os genéricos e que não criou o programa contra a Aids. Por que, depois de não criar tudo isso, ele iria criar escolas técnicas?
Assim, as ETECs paulistas que aparecem como relativamente bem colocadas nos Enem são, todas, anteriores aos tucanos em décadas: a Etesp, que foi inaugurada em 1988; a Ete Guaracy da Silveira, em 1950; a Ete Getúlio Vargas, em 1911; a Ete Basilides de Godoy, em 1950; a Ete Albert Einstein, em 1963.
As estatísticas do governo de São Paulo, segundo as quais, haveria 180 mil vagas nas ETECs paulistas são uma fraude a parte: 60 mil dessas vagas são ocupadas pelo mesmo aluno. E boa parte dessas escolas estão sufocadas financeiramente, sustentadas pelas atividades das Associações de Pais e Mestres.
Note-se, por fim, que os cursos que citamos das escolas técnicas federais são, todos, oferecidos de forma integrada com o ensino médio. Nas ETECs paulistas, apenas três cursos são integrados com o ensino médio: duas modalidades do curso de agropecuária e mecatrônica. Achar uma escola que tenha esses cursos – e de forma integrada – é mais ou menos como achar verdade em alguma declaração do Serra. Nós sabemos porque tentamos.