O que a direita não conta sobre o preço dos alimentos
Fim dos estoques públicos, enfraquecimento da agricultura familiar e fim da valorização do salário durante governo Bolsonaro ocasionaram alta de preços. Saiba quais ações vêm sendo feitas para atenuar situação
Publicado: 21 Setembro, 2026 - 11h49 | Última modificação: 21 Setembro, 2026 - 12h24
Escrito por: Redação CUT | texto: André Accarini
O preço dos alimentos está entre as principais preocupações dos brasileiros. Qualquer aumento no arroz, no feijão, na carne, no café ou no óleo é sentido imediatamente no orçamento das famílias. Mas, para entender por que a comida pesa no bolso, é preciso, como diz o ditado, dar nome aos bois.
Durante o governo de Jair Bolsonaro, a extrema direita atribuía os aumentos ao clima, às safras e às oscilações do mercado internacional. O que não contava — e continua sem contar — é que as decisões tomadas naquele período contribuíram para encarecer os alimentos e reduziram a capacidade do país de enfrentar a carestia.
Os preços ainda pesam no orçamento porque partem de um patamar elevado, construído após sucessivos aumentos. Desde 2023, o governo Lula vem tentando reconstruir os instrumentos públicos desmontados no período anterior, ampliar a produção e recuperar a renda das famílias.
Veja os fatos: o que a direita não conta
Estas são algumas das decisões do governo Bolsonaro que contribuíram para o aumento dos preços e cujos efeitos ainda são sentidos:
- A inflação dos alimentos passou de 50%: durante o governo Bolsonaro, os preços dos alimentos acumularam alta de 54,2%. O governo Lula recebeu o país com a comida partindo de um patamar muito elevado e a redução da inflação de alimentos foi expressiva desde então.
- Os estoques públicos foram desmontados: os estoques reguladores praticamente deixaram de existir e estruturas de armazenamento foram desativadas. Sem essas reservas, o governo perdeu capacidade para aumentar a oferta e conter os preços de alimentos essenciais como arroz, feijão e milho nos momentos de escassez. A “fila dos ossos”, de pessoas remexendo restos de carne, foi uma imagem marcante na época;
- A agricultura familiar foi enfraquecida: quem produz boa parte dos alimentos destinados ao mercado interno recebeu menos apoio, crédito e condições para ampliar a produção.
- O salário mínimo perdeu poder de compra: o governo Bolsonaro interrompeu a política de valorização real do mínimo. Sem reajustes acima da inflação, a renda não acompanhou adequadamente o aumento do custo da alimentação.
- A exportação foi priorizada: enquanto produtos brasileiros eram vendidos ao exterior, faltavam instrumentos para garantir oferta suficiente e preços mais equilibrados no mercado interno. Entre 2020 e 2022, produtos como arroz, feijão, leite e carne tiveram fortes aumentos porque a maior parte da produção era exportada e não vendida internamente, sem qualquer ação do governo Bolsonaro no sentido de reversão (pelo contrário).
- Os juros também encareceram a comida: o governo Bolsonaro deixou o país com a taxa Selic a 13,75%. Roberto Campos Neto, então presidente da instituição, ligado ao bolsonarismo, manteve as taxas em patamar elevado, sabotando o governo Lula. O crédito mais caro aumentou os custos de produtores, cooperativas, transportadores, indústrias e comerciantes. Parte dessa conta foi repassada ao consumidor.
- Preços dos derivados de petróleo, como gasolina e diesel, foram deixados sem qualquer proteção do governo: os preços de combustíveis chegaram a quase R$ 9 reais o litro da gasolina. No geral, a permanência dos preços de combustíveis altos promoveu uma inflação considerável de custos, afetando desde a ida do cidadão comum para colocar combustível em seu carro até sistema de transportes de passageiros e logística de produtos. Além disso, o preço do botijão de gás explodiu sem qualquer auxílio do governo fazendo com que as pessoas tivessem que improvisar com madeira, álcool ou qualquer outro produto que queimasse, provocando inclusive inúmeros casos de queimaduras;
A autonomia do Banco Central, aprovada em 2021, também reduziu a capacidade de o governo fazer um contraponto às decisões sobre os juros. Além disso, a Selic tem efeito limitado sobre uma inflação provocada por secas, enchentes ou falta de produtos. Juros altos não recuperam uma lavoura nem repõem alimentos perdidos. Mas isso não foi problema para o governo Bolsonaro, que a partir de 2022 promoveu alta substancial da taxa.
Preço alto não é o mesmo que aumento maior
A comida ainda está cara, mas isso não significa que continue aumentando no mesmo ritmo do governo Bolsonaro. Desde 2023, a inflação dos alimentos ficou em 13,6%, muito abaixo dos 54,2% acumulados durante o governo anterior e menor, inclusive, do que a inflação geral do período.
“Há uma diferença entre o preço do produto em si e os seus aumentos, ou a inflação. O preço dos alimentos tem tido comportamento bem mais favorável após 2023. Apesar de pesar muito no bolso, se o patamar de aumento de preços verificada até 2022 fosse mantida, eles estariam muito mais altos”, afirma o economista do DIEESE Leandro Horie, com base no IPCA e também nos preços verificados na Cesta Básica.
O que foi feito para “arrumar a casa”
Desde 2023, uma série de medidas vem sendo adotada para recuperar a produção, o abastecimento e o poder de compra:
- Recuperação dos estoques públicos: o governo Lula iniciou a reconstrução da capacidade de atuação da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Nos períodos de boa oferta, o governo pode comprar parte da produção. Quando há escassez, pode colocar esses alimentos no mercado, protegendo produtores e consumidores das grandes oscilações de preços.
- Mais apoio à agricultura familiar: o Plano Safra passou a contar com mais recursos para financiar sementes, máquinas, equipamentos, recuperação de plantações, armazenamento e comercialização.
- Retomada das compras públicas: parte da produção da agricultura familiar voltou a ser destinada a escolas, hospitais, cozinhas solidárias e famílias em situação de vulnerabilidade.
- Imposto de importação zerado: em março de 2025, produtos importantes para a alimentação, como carne, café, açúcar, óleo de cozinha, azeite, macarrão, biscoitos, milho e sardinha, tiveram o Imposto de Importação zerado. A medida busca ampliar a oferta e evitar que problemas pontuais de abastecimento provoquem aumentos ainda maiores.
- Cesta básica com imposto zero: a Reforma Tributária criou a Cesta Básica Nacional de Alimentos com alíquota zero para 22 produtos essenciais, entre eles arroz, feijão, leite, pão francês, ovos, café, açúcar e carnes. Outros 14 produtos terão redução de 60% da alíquota.
- Retomada da valorização do salário mínimo: os reajustes voltaram a ficar acima da inflação, aumentando o poder de compra de trabalhadores, aposentados e beneficiários vinculados ao piso nacional.
- Recuperação da renda e do emprego: a geração de empregos formais, a redução do desemprego e a retomada do Bolsa Família ampliaram os recursos disponíveis para a alimentação.
Política de resultados
As medidas não fizeram a comida voltar imediatamente aos preços anteriores. Reconstruir estoques, recuperar estruturas de armazenamento, ampliar a produção e elevar a renda exige tempo. Os indicadores, no entanto, mostram que a trajetória mudou:
- Menor ritmo de aumento: a inflação média anual da alimentação em casa caiu de 13,2%, entre 2020 e 2022, para 3%, entre 2023 e 2025.
- Queda nos preços em julho: a alimentação em casa registrou redução de 1,14%.
- Cesta básica mais barata: o valor caiu em 26 das 27 capitais pesquisadas.
- Salário comprando mais alimentos: no município de São Paulo, um salário mínimo comprava 1,5 cesta básica em dezembro de 2022. Em agosto de 2026, passou a comprar 1,7 cesta.
Isso não significa que a comida esteja barata ou que o problema tenha sido resolvido. Os preços ainda partem do elevado patamar deixado pelo governo Bolsonaro.
O que a direita não conta é que suas próprias decisões ajudaram a criar o problema que agora utiliza no discurso político. Também não conta que, desde 2023, políticas públicas vêm sendo reconstruídas para conter os aumentos, ampliar a oferta e recuperar o poder de compra.
Sem estoques públicos, apoio à produção, redução de impostos e valorização da renda, os efeitos das crises climáticas e das oscilações internacionais poderiam ter chegado com força ainda maior à mesa dos brasileiros