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O medo e a revolta de diaristas obrigadas a trabalhar e as dispensadas sem receber

Mulheres, chefes de família, divorciadas ou separadas, trabalhadoras domésticas que criam seus filhos, sem o amparo da sociedade e do governo, contam como estão sobrevivendo na pandemia do coronavírus

Publicado: 07 Maio, 2020 - 10h00 | Última modificação: 07 Maio, 2020 - 10h12

Escrito por: Rosely Rocha

Alex Capuano
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Eu vejo o medo nos olhos das pessoas”, diz Clecia, diarista que não segue as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) de isolamento social para se prevenir contra o novo coronavírus porque ficou num dilema comum aos trabalhadores mais pobres: morrer de fome ou de Covid-19.

Optou por se arriscar a contrair o vírus já que a ajuda do governo de Jair Bolsonaro ou não vem ou quando é liberada não dá para comprar alimentos e pagar despesas básicas como aluguel, luz e água. São trabalhadoras que, apesar de muitos anos dando duro nas mesmas casas, foram abandonadas pelas patroas.

Os relatos das entrevistadas pelo PortalCUT são quase idênticos: “Minhas clientes me dispensaram depois de 15 anos, e não pagam para eu ficar em casa, conta Maria. “Fico longe da minha família 25 dias, para cuidar de uma senhora idosa. Só vou pra casa para deixar compras”, relata Monica.

Clecia, Maria e Monica fazem parte de um contingente de milhões de trabalhadores e trabalhadoras que mais sofrem com as consequências sanitárias e econômicas da pandemia no Brasil. São trabalhadoras, chefes de família, que contribuem com a geração de riqueza do país e que, no momento, mais precisam do Auxílio Emergencial de R$ 600, aprovado em março no Congresso Nacional para ser pago pelo governo, mas que ainda não foi liberado. Precisam também da empatia que a maioria dos patrões não tem. Na falta de tudo isso foram deixadas à própria sorte, como seres invisíveis, descartáveis, substituíveis quando a pandemia passar.

Coincidentemente, todas são chefes de família, divorciadas ou separadas, que criaram, e ainda criam seus filhos sozinhas, sem o amparo da sociedade e do governo.

Clecia de Oliveira Santos, 46 anos, divorciada, mãe de uma adolescente de 15 anos, sai da casa, em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, de segunda a sexta, às quatro da manhã. Pega ônibus, trem e metrô para, três horas depois, chegar às casas dos “clientes”, no Jardim Europa, bairro nobre da capital.

Esse percurso é feito duas vezes na semana. Em outros dois dias, as três conduções a levam até a Vila Olímpia, na zona sul, bairro de classe média alta. E para completar a semana, num único dia, vai a Santo Amaro, também na zona sul.  Entre ida e volta são cinco horas em média dentro do transporte público para atender três clientes que a fazem trabalhar todos os dias da semana para ganhar R$ 170,00 por faxina.

No transporte eu vejo medo nos olhos das pessoas, da senhorinha que vende bala nos vagões, dos trabalhadores que, como eu, têm de alimentar a família. Ninguém está dentro do trem para passear. É necessidade. Com fome, a barriga dói e a fome é maior do que o medo de ficar do coronavírus
- Clécia de Oliveira Santos
Clécia de Oliveira SantosClécia de Oliveira Santos
Vagão de trem da CPTM (SP) lotado às 6h30, em 06/06/2020

Além de correr risco de morte se for contaminada, a diarista corre ainda o risco de perder o trabalho, caso adoeça. Clecia conta que todos os dias seus “clientes” perguntam sobre a saúde dela e que tossir ou ficar com os olhos lacrimejando durante o trabalho ouve comentários do tipo “se tiver doente, fica em casa”. Mas, em nenhum momento são solidários e se oferecem para pagar pelo dia para que ela melhore, se cuide, ficando em casa. E só forneceram máscaras, álcool em gel e luvas porque Clécia pediu.

Sua única renda, se perder as diárias de faxina, será os R$ 1.200,00 de Auxílio Emergencial que recebe por ser chefe de família. Mas, para quem paga só de aluguel R$ 800,00, o restante não será suficiente para pagar as contas e a alimentação.

“Não vejo perspectivas de mudança, a curva [do coronavírus] só cresce. Eu  tenho dó de mim, mas me coloco no lugar das pessoas. Você vê que são necessitadas. Elas estão nas ruas, não porque querem desobedecer ordens do governo, mas as pessoas precisam comer, pagar aluguel e os filhos esperam por eles vivos, em casa, mas também esperam pela comida”, desabafa.

A cuidadora Monica Santos, 50 anos, deixou a família há quase dois meses, na zona leste para cuidar de uma idosa de 91 anos, em Higienópolis, região central. Em entrevista ao Portal CUT, em 18 de março passado, ela contou que era o seu primeiro dia no novo trabalho e o combinado foi que sairia de lá, três semanas depois, no dia 11 de abril, a pedido dos familiares da cliente que temem o contágio pelo coronavírus, já que a idosa está no grupo de alto risco.

 

Mas, com o aumento dos casos de mortes – nesta quarta-feira (6) foram 614 mortes no país – o combinado mudou. Monica fica 25 dias no trabalho e folga quatro, cuidando de tudo. A família da idosa deposita dinheiro em sua conta e ela se encarrega das compras da alimentação, dos remédios e o que mais for necessário.

”Uma das filhas da idosa está ‘presa’ na Itália. A outra filha aqui no Brasil, fala com ela pelo meu celular porque teme pela saúde da mãe. E eu só consigo ficar fora por três dias, quando vou visitar minha família, mas antes passo no supermercado para levar compras para os filhos que estão desempregados”, conta Monica.

O mais novo dos seus filhos trabalhava como motorista de aplicativo, mas a pandemia derrubou seus rendimentos. O mais velho teve de fechar a própria empresa e a filha perdeu o emprego na empresa de logística. Dos três filhos, apenas um conseguiu o auxílio emergencial de R$ 600,00. Segundo Monica, os outros pedidos foram feitos logo no início do anúncio, mas até agora não conseguiram receber.

“A saudade é grande, mas preciso trabalhar. Por enquanto, a família sobrevive do meu salário e da minha nora, mas tenho um neto de três anos”, conta a cuidadora.

Monica, apesar das dificuldades, diz que, ainda assim, está melhor que muita gente que conhece. Algumas de suas amigas estão em casa também sem receber o auxílio e um rapaz vizinho, que como seu filho, era motorista de aplicativo, morreu em decorrência da Covid 19.

Às vezes fico cansada de trabalhar, mas cansei mais de tentar buscar o Auxílio Emergencial. Se você não trabalha, você não come porque o governo não ajuda ninguém
- Monica Santos

O drama de ficar em casa sem receber a solidariedade de nenhum cliente vive a diarista Maria Teixeira. Aos 58 anos, separada, mãe de seis filhos, ela conta que trabalha de quarta a sábado em três casas, recebendo R$ 150,00 por faxina. Em uma delas está há 15 anos, em outra há 12 anos e a mais recente trabalha há quatro anos. Apesar de tantos anos de convivência, seus “clientes”, simplesmente a mandaram ficar em casa, sem receber.

“A ajuda que recebo é dos meus filhos e de um ex-patrão, que eu cuidava da sogra dele. Só sai de lá depois de seis anos porque ela morreu. Mas, é ele quem pergunta como estou, me manda algum dinheiro e cesta básica”, diz entristecida com a falta de consideração das clientes que atende há mais de uma década.

A dificuldade financeira da família só não é maior porque a casa é própria e dois dos seus filhos moram com ela e recebem os R$ 600,00 cada um, de  auxílio emergencial,  por estarem desempregados.

Com a falta de solidariedade das famílias que Maria atende, os outros quatro filhos, que não moram com ela querem que a mãe deixe de trabalhar e prometem suprir suas necessidades.

“Eu gosto de trabalhar, mas eu perguntei para minhas clientes se elas iam me pagar pra ficar em casa. Como ainda debocharam dizendo que eu iria voltar mesmo sem receber, já avisei, que não volto”, diz determinada.