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Número de homens mais velhos desalentados cresce mais do que o de mulheres

Pesquisa do IPEA mostra que 7,3 milhões de brasileiros de 50 a 64 anos não trabalham, nem estão aposentados. Número de homens desalentados cresceu 580% e mulheres 75%

Publicado: 03 Abril, 2019 - 09h30 | Última modificação: 03 Abril, 2019 - 09h35

Escrito por: Rosely Rocha

Roberto Parizotti
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O desalento vem crescendo entre os trabalhadores e trabalhadoras mais velhos. Hoje são 7,3 milhões de pessoas de 50 a 64 anos que não procuram emprego, não têm acesso à aposentadoria e não conseguem sobreviver sem a ajuda de familiares.

Embora as mulheres representem 5,6 milhões desse total e os homens 1,7 milhão, o número de desalentados tem crescido mais entre os trabalhadores de meia idade.

Em 1992 eram quase 3 milhões de mulheres e 291 mil homens desalentados. 25 anos depois (2017), este número subiu 580% entre os homens e 75% entre as mulheres, mostra pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada em março deste ano.

A pesquisa mostra ainda que metade dos homens desalentados vive com a mulher que trabalha ou é aposentada, 25% vivem com os pais,ainda mais velhos, já aposentados, e os outros 25% restantes, sobrevivem com a ajuda de familiares e outros arranjos.

Ana Amélia Camarano, responsável pela pesquisa, diz que a principal dificuldade desses homens para voltarem ao mercado de trabalho é o preconceito, a discriminação, questões de saúde e baixa escolaridade.

“75% deles não têm nem o ensino fundamental completo, são analfabetos funcionais. Eles têm dificuldade em acompanhar os avanços tecnológicos tanto pela idade quanto pela baixa escolaridade. Além disso, começam a ter problemas de saúde e, tudo isto leva à discriminação por parte das empresas que não contratam este perfil de pessoas”, diz a pesquisadora do Ipea.

Ana Amélia explica ainda que o número de homens tem crescido mais do que as mulheres porque elas, ainda, por conta das relações tradicionais de gênero, acabam se tornando donas de casa e cuidando dos filhos e não procuram emprego.

O diretor-técnico do Dieese Clemente Ganz Lúcio diz que além da baixa qualificação, outro fator que pode ter influenciado o aumento de homens desalentados, ao contrário do aumento menor no número de mulheres, é de que elas, muitas vezes, se submetem a empregos precários.

“As mulheres mais facilmente aceitam empregos domésticos e precários, com menor necessidade de qualificação profissional, que normalmente o homem recusa”, analisa.

Para reverter esta situação, a pesquisadora do Ipea acredita que é preciso  políticas de incentivo, tanto para os trabalhadores nesta situação, como para as empresas, para que eles voltem ao mercado de trabalho.

“É importante que se tenha políticas para capacitar esses homens, para que possam voltar ao mercado de trabalho, mas é preciso que haja também incentivos para as empresas contratá-los”, analisa Ana Amélia.

Já o diretor-técnico do Dieese, considera que a situação atual é “fruto do atual descalabro do modelo econômico brasileiro e não uma fatalidade permanente, mas que para melhorar depende das políticas públicas que este governo não têm interesse em implementar”.

Clemente lembra que essa faixa etária de trabalhadores e trabalhadoras foi chamada de volta ao mercado de trabalho entre 2004 a 2014, principalmente pela indústria e a construção civil, setores que estavam contratando à época.

“Esses profissionais mais antigos eram convidados a voltar, inclusive, para treinar os mais novos, a pedido das empresas”.

Dieese também aponta crescimento do desemprego entre os homens de 50 a 64 anos

O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) analisou a taxa de desocupação, segundo sexo e faixa etária, do 1° trimestre de 2012 ao 4° trimestre de 2018, a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O levantamento aponta que o grupo de homens sem trabalho cresceu um pouco mais do que as mulheres, a partir de 2015, ano do início da crise econômica no país e se acentuou após o golpe de 2016, que retirou Dilma Roussef da Presidência da República.

“Essa faixa etária de trabalhadores é atingida porque o desemprego na construção civil e na indústria afetou fortemente os chefes de família”, analisa o diretor-técnico do Dieese.

Segundo ele, os trabalhadores mais velhos têm ainda maior dificuldade de voltar ao mercado de trabalho com emprego formal do que a população mais jovem. Além disso, uma pessoa nessa faixa etária tende a voltar para um trabalho informal.

Maior dificuldade de aposentadoria

Para Clemente, uma vez que caiu no desemprego, a distância para este trabalhador se aposentar será longa porque ele vai ter maior dificuldade em reunir tempo de contribuição - hoje é de 15 anos no mínimo, e se a reforma da Previdência de Jair Bolsonaro for aprovada pelo Congresso Nacional, vai subir para 20 anos.

O diretor-técnico do Dieese credita ainda à reforma Trabalhista de Michel Temer (MDB), as dificuldades desses trabalhadores e trabalhadoras conseguirem se aposentar.

Segundo ele, a reforma facilitou as contratações precárias, impediu que os trabalhadores mais experientes conseguissem contribuir para com o INSS e, com isso, acabou colaborando para uma fragilização da proteção social.

“O trabalhador, na faixa de 50 a 64 anos, para voltar ao mercado de trabalho vai acabar aceitando uma ocupação sem proteção social e capacidade contributiva para o INSS”.