Novos caminhos do Trabalho foi o tema 2ª Oficina de Formação de Formadores
Na tarde desta quarta-feira (11), atividade abordou temas da informalidade, da pejotização e organização da classe trabalhadora
Publicado: 12 Março, 2026 - 09h49 | Última modificação: 12 Março, 2026 - 11h23
Escrito por: Clara Aguiar
Na tarde desta quarta-feira (11), ocorreu a segunda parte da programação do dia da 2ª Oficina Nacional de Planejamento do Projeto Formação de Formadores e Formadoras Sindicais, organizada pela Secretaria Nacional de Formação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em cooperação com a DGB Bildungswerk (DGB BW).
A atividade contou com uma mesa de debate sobre o tema “O papel da formação na estratégia da CUT e a disputa da hegemonia”. Participaram da mesa o presidente do Conselho Nacional do SESI, Fausto Augusto Junior, e Maria das Graças (Graça) Costa, secretária de Organização e Política Sindical da CUT.
Ao abrir o debate, Graça destacou que o momento exige aprofundar a discussão sobre a formação sindical como instrumento político. Segundo ela, a atividade busca alinhar as reflexões feitas anteriormente na mesa de conjuntura com os desafios da formação no movimento sindical.
Clara Aguiar
“A gente vai aprofundar um pouco mais a questão da formação. A partir do que discutimos e do debate da mesa de conjuntura, vamos alinhando a estratégia da formação e a importância que isso tudo tem”, afirmou.
Para a dirigente, o avanço da extrema direita tem se dado também no campo simbólico, disputando valores, sentimentos e consciências no cotidiano da sociedade. Nesse contexto, a formação política ganha papel decisivo.
“A extrema direita tem disputado os valores, os sentimentos e as consciências todos os dias. É através da formação que também podemos conquistar mentes e corações”, ressaltou.
Graça alertou ainda que esse fenômeno não ocorre apenas no Brasil, mas em diferentes países da América Latina, e reforçou a necessidade de fortalecer redes de formação para enfrentar esse cenário. Segundo ela, uma das questões centrais é refletir sobre como a formação sindical pode responder a esse contexto e preparar o movimento para os desafios políticos de 2026.
Educação como campo histórico de disputa
Convidado para contribuir com a reflexão, o professor Fausto Augusto Júnior iniciou sua exposição retomando a história da formação profissional no Brasil e sua relação com o movimento sindical. Segundo ele, desde o início do processo de industrialização, a educação tem sido um espaço central de disputa entre diferentes projetos de sociedade.
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Fausto explicou que, na década de 1920, empresários industriais passaram a utilizar a formação profissional como instrumento para reorganizar o mercado de trabalho e enfraquecer a força dos sindicatos de ofício, que tinham grande influência entre trabalhadores organizados.
Naquele período, os sindicatos eram responsáveis por certificar trabalhadores e organizar as profissões. Com a criação de sistemas de certificação controlados pelo empresariado, essa lógica começou a mudar.
“A construção da lógica da certificação quebra a corporação de ofício. Ou seja, uma visão coletiva e organizada do conhecimento a partir do trabalhador. Ela individualiza a formação, hierarquiza e coloca os empresários como os certificadores”, explicou.
Segundo o professor, essa mudança ajudou a redefinir a relação de poder entre trabalhadores e empregadores, além de influenciar a criação de estruturas como o Sistema S, voltadas à formação profissional sob gestão empresarial.
Disputa pela educação no século XX
Para Fausto, o debate sobre educação voltou a ocupar o centro da disputa política nos últimos anos, especialmente impulsionado por setores da extrema direita.
Ele destacou que temas como escolas cívico-militares, ataques às universidades e a tentativa de deslegitimar professores fazem parte de uma estratégia ideológica que coloca a educação no centro da disputa de hegemonia.
“Educação é um campo de disputa. E não é qualquer disputa: é uma disputa ideológica”, afirmou.
O professor também ressaltou que o mundo vive um período de profundas transformações estruturais, que impactam diretamente o trabalho e a organização social. Entre elas, ele citou a revolução tecnológica, a transição ecológica e as mudanças nas relações de gênero.
Segundo Fausto, compreender essas transformações é fundamental para que o movimento sindical consiga interpretar o presente e construir novas ferramentas de análise e organização.
“Estamos vivendo revoluções profundas — tecnológica, ecológica e também de gênero — que mudam a forma como a sociedade se organiza. Isso impacta o trabalho, a produção e a própria vida social”, avaliou.
Ao final da exposição, o professor reforçou que compreender essas mudanças é fundamental para fortalecer estratégias de formação capazes de preparar o movimento sindical para os desafios políticos e sociais do século XXI.
Durante sua exposição, Fausto destacou que a educação ocupa hoje um lugar central na disputa política e ideológica da sociedade. Segundo ele, o professor possui uma legitimidade social e institucional que permite ir além do ensino técnico, participando também do debate público e político.
“O professor tem uma legitimidade sistêmica e estrutural que o permite fazer inclusive a discussão política. E não é à toa que o bolsonarismo ataca frontalmente o professor”, afirmou.
Para o professor, o debate sobre educação, formação cidadã, política e a defesa da educação pública tornou-se um dos principais campos de disputa no cenário atual. Ele comparou esse papel ao que a fábrica representava nas disputas sociais e políticas do século passado.
“A discussão da educação para nós, juntando formação cidadã, formação política, educação ampla e escola pública, está no centro do debate hoje, assim como a fábrica esteve no centro do debate no século passado”, concluiu.
Transformações no mundo do trabalho
A fim de debater formação, território e organização popular, foi realizada uma roda de experiência que abordou temas da informalidade, da pejotização via MEI e organização da classe trabalhadora.
Clara Aguiar
Durante a conversa, diferentes representantes de organizações sociais e sindicais trouxeram reflexões sobre o trabalho informal, a organização coletiva e os desafios enfrentados por trabalhadores e trabalhadoras em diferentes setores.
O ativista e dirigente sindical Juliano Fripp, diretor da União Nacional dos Camelôs, Ambulantes e Feirantes do Brasil (UNICAB) e presidente regional da Associação Feira Rua da Praia (ASFERAP), no Rio Grande do Sul, iniciou sua fala destacando os impactos da criação do Microempreendedor Individual (MEI) para trabalhadores do comércio informal. Segundo ele, embora a formalização tenha sido apresentada como uma alternativa de inclusão, na prática muitos ambulantes passaram a enfrentar novos obstáculos para exercer suas atividades.
“Foi criado o MEI e dito ao camelô: faça o registro e vire empreendedor. Mas o espaço para trabalhar não veio junto”, afirmou. Fripp avaliou que, em muitos casos, a formalização acabou sendo utilizada para retirar trabalhadores das ruas e direcioná-los para espaços privados, onde precisam pagar aluguel para trabalhar. Ele citou como exemplo a experiência de Porto Alegre, onde a criação de um camelódromo não conseguiu absorver a maioria dos vendedores ambulantes que atuavam no centro da cidade”, disse.
Na mesma mesa, Edna Souza Machado Simão, militante e trabalhadora do coletivo de economia solidária da Associação de Trabalhadores em Domicílio (ATEMDO), explicou o conceito de trabalho em domicílio e a importância de reconhecer essa categoria. De acordo com ela, trabalhadores em domicílio são aqueles que produzem em suas próprias casas aquilo que garante a subsistência da família. “É a boleira, a costureira, a artesã. Se você faz isso em casa, você também é um trabalhador ou trabalhadora em domicílio”, afirmou.
Simão contou que a organização foi formalizada em 2019, embora a trajetória de articulação tenha começado em 2015, quando um levantamento realizado no Brasil buscou mapear trabalhadores em domicílio. A partir desse processo, ela relata que os participantes passaram a se reconhecer não apenas como empreendedores da economia solidária, mas como trabalhadores com direitos. “Apesar de existirmos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) desde a sua criação, quase ninguém fala sobre políticas públicas voltadas para esses trabalhadores”, destacou. Para ela, a organização coletiva é fundamental para garantir visibilidade e acesso a direitos, especialmente dentro da economia solidária.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Aplicativos e de Transporte do Rio Grande do Norte (SINTAT/RN) e secretário-geral da Federação Nacional dos Sindicatos de Motoristas por Aplicativos (FENASMAPP), Carlos Cavalcanti, afirmou que a precarização do trabalho foi um dos fatores que impulsionou a organização coletiva da categoria. Segundo ele, muitos trabalhadores que hoje atuam em plataformas digitais vieram do setor de transporte tradicional, especialmente do segmento rodoviário.
“Geralmente, no início, muitos trabalhadores rodoviários ficaram desempregados e, com a chegada da Uber, passaram imediatamente a trabalhar por aplicativo”, relatou. Cavalcanti explica que, pouco tempo depois, começaram a surgir as primeiras tentativas de organização da categoria, com a criação de associações e cooperativas.
De acordo com o dirigente, naquele momento havia dúvidas sobre a possibilidade de formar um sindicato que representasse os trabalhadores por aplicativo. Ainda assim, parte da categoria entendeu que era fundamental construir espaços coletivos de diálogo. “Alguns trabalhadores por aplicativos, como eu, entenderam que era importante ter um grupo, uma unicidade, para que a gente pudesse dialogar, conversar e debater os problemas que estávamos enfrentando naquele momento”, afirmou.
Cavalcanti acrescentou que a criação de uma entidade representativa foi resultado da mobilização de trabalhadores que se encontravam na informalidade e sem proteção social. “A gente entendia que aqueles trabalhadores estavam ali, desempregados, como um trem descarrilhado, virado no chão. Então fizemos uma força-tarefa, reunimos esses trabalhadores e, com a cara e a coragem, decidimos criar um sindicato e buscar apoio”, concluiu.
Representando a Women in Informal Employment: Globalizing and Organizing (WIEGO), Isamar Escalona explicou que a entidade surgiu em 1996 a partir da articulação de pesquisadores e movimentos sociais preocupados com a crescente informalidade no mundo do trabalho, especialmente entre mulheres. Segundo ela, o objetivo da organização é fortalecer redes globais de trabalhadores informais e incentivar sua organização coletiva.
“Mesmo quando a pessoa se considera autônoma, muitas vezes existe uma relação de dependência com quem compra ou intermedeia o trabalho”, explicou. Para Escalona, reconhecer essas relações é fundamental para enfrentar a precarização e ampliar a capacidade de organização desses trabalhadores.
A discussão também abordou os desafios da juventude no mundo do trabalho. Representando o Levante Popular da Juventude, Julia Aguiar destacou que a organização atua na formação política de jovens da classe trabalhadora e na construção de novas lideranças para os movimentos sociais.
Segundo Aguiar, a juventude atual enfrenta um cenário marcado pela precarização, pela informalidade e pela dificuldade de inserção no mercado de trabalho com direitos garantidos. “Hoje temos uma geração que muitas vezes entra no mundo do trabalho sem nenhuma garantia, com alta rotatividade, baixos salários e forte impacto na saúde mental”, afirmou.
Apesar das dificuldades, ela ressaltou que é equivocado afirmar que os jovens não querem se organizar politicamente. Para a militante, o desafio está em encontrar novas formas de diálogo e organização que dialoguem com as experiências dessa geração. “A juventude sente as contradições do mundo do trabalho e, a partir disso, também busca caminhos para se organizar e resistir”, concluiu.
A mediadora da mesa, Rosane Bertotti, secretária de Formação da CUT Brasil, encerrou o diálogo reafirmando o papel do movimento sindical na organização da classe trabalhadora em suas diferentes formas de atuação. Segundo ela, a organização sindical deve alcançar todos os trabalhadores, independentemente do tipo de atividade que exerçam.
“É no movimento sindical que organizamos a classe operária, independentemente da forma como ela trabalha. Se é de plataforma, se é camelô, se é metalúrgico, se é professor, se é agricultor — onde tem trabalhador, tem organização sindical e deve ter a representação da Central Única dos Trabalhadores e das Trabalhadoras. Eu acho que essa é uma máxima que a gente precisa reafirmar”, destacou.
Bertotti também destacou que o fortalecimento da luta sindical passa pela construção coletiva entre as diferentes entidades do país. Para ela, a atuação do movimento sindical não pode ocorrer de forma isolada, já que no Brasil existem diversas centrais sindicais. “A gente não faz movimento sindical sozinho. No Brasil não existe só a CUT, existem outras centrais sindicais. Por isso, precisamos articular com as demais centrais para fortalecer a luta da classe trabalhadora”, concluiu.