Mulheres são as primeiras vítimas dos impactos das guerras e crises
Soberania dos povos é pauta do Mês Internacional da Mulher; guerras e crises ampliam desigualdades que atingem sobretudo as mulheres
Publicado: 18 Março, 2026 - 13h53 | Última modificação: 18 Março, 2026 - 15h24
Escrito por: André Accarini
As guerras e os conflitos armados seguem produzindo impactos devastadores em todo o mundo, mas não de forma igual a todas as pessoas. Em meio ao avanço da extrema-direita, à intensificação de disputas geopolíticas e ao enfraquecimento de democracias, são as mulheres que sentem primeiro e com mais intensidade os efeitos da violência, da fome, da perda de direitos e da instabilidade econômica.
A defesa da soberania dos povos e o fim das guerras é uma das pautas do Mês de Março - o Mês Internacional da Mulher. A CUT e movimentos feministas definiram esta como uma das bandeiras de luta para 2026, junto com o fim da escala 6x1, o combate ao feminicídio e a ampliação da representação política feminina.
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O mundo em conflito
Secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, Amanda Corcino afirma que o fato de as mulheres serem as mais impactadas em cenários de conflitos não é pontual, mas resultado de desigualdades históricas que se agravam em momentos de crise.
“As mulheres trabalhadoras são as primeiras a sentir os impactos das guerras, das sanções e das políticas de austeridade, porque já estão em uma posição mais vulnerável na sociedade. Quando esses processos se intensificam, essa desigualdade também se aprofunda”, diz.
Ela também destaca o caráter político da luta. “Defender a vida das mulheres é também defender a soberania dos povos, o direito à autodeterminação e um projeto de desenvolvimento que coloque a vida acima do lucro”, afirma.
Entenda por que elas são mais impactadas
Quando a soberania dos países é atacada e a democracia enfraquece, os impactos recaem de forma mais dura sobre quem já enfrenta desigualdades estruturais. Historicamente, as mulheres ocupam esse lugar.
Em cenários de crise democrática, políticas públicas são desmontadas, direitos são relativizados e agendas conservadoras avançam. Como as mulheres dependem mais dos serviços públicos e concentram a responsabilidade pelo cuidado, qualquer redução do papel do Estado amplia sua sobrecarga física, mental e econômica.
“Quando há desmonte das políticas públicas, são as mulheres que absorvem esse impacto no dia a dia, no cuidado, na renda e na própria saúde. Isso aumenta a sobrecarga e a precarização da vida”, afirma Amanda Corcino.
Além disso, as mulheres estão mais presentes em empregos informais e precarizados. Em momentos de crise, são as primeiras a perder renda ou ter direitos reduzidos. Em contextos autoritários, enfrentam ainda maior controle sobre seus corpos, perseguição a lideranças femininas e enfraquecimento das políticas de enfrentamento à violência.
Violência, fome e deslocamento
Os impactos das guerras sobre as mulheres são múltiplos e interligados. Um dos mais graves é o aumento da violência sexual e de gênero, frequentemente utilizada como estratégia de guerra.
“A violência contra as mulheres aumenta nesses contextos e muitas vezes é usada como arma de guerra. Isso revela como o corpo das mulheres ainda é tratado como território de disputa”, aponta Amanda.
Segundo reportagem da organização Global Citizen, durante conflitos a saúde, a segurança, os direitos humanos e o futuro de mulheres e meninas ficam em risco extremo. A análise destaca que a violência baseada em gênero, o deslocamento forçado, a falta de acesso a cuidados de saúde reprodutiva e o aumento de práticas como o casamento infantil estão entre os principais impactos. A educação das meninas também é profundamente afetada nesses contextos.
Além da violência direta, os conflitos provocam crises humanitárias profundas. Mulheres em zonas de guerra enfrentam falta de acesso a alimentos, água potável e serviços básicos de saúde, incluindo cuidados reprodutivos. Hoje, 61% das mortes maternas no mundo ocorrem em países afetados por conflitos.
A fome também se intensifica: estima-se que metade das mulheres e meninas em áreas de conflito viva em situação de insegurança alimentar moderada ou grave.
Outro impacto significativo é o deslocamento forçado. Mais da metade da população mundial de refugiados é composta por mulheres e crianças, que enfrentam riscos elevados de violência, exploração e pobreza.
“O deslocamento coloca mulheres e meninas em situações ainda mais vulneráveis, muitas vezes sem acesso a proteção, renda ou condições dignas de sobrevivência”, afirma Amanda.
Trauma, sobrecarga e invisibilidade
Os efeitos das guerras vão além da sobrevivência imediata. A perda de familiares, a destruição de comunidades e o medo constante geram impactos duradouros na saúde mental, como ansiedade, depressão e traumas.
Ao mesmo tempo, muitas mulheres assumem o papel de principais provedoras das famílias, acumulando responsabilidades econômicas e de cuidado em condições extremamente adversas.
“Mesmo diante de todas essas dificuldades, são as mulheres que sustentam comunidades, cuidam das famílias e ajudam a reconstruir a vida. Mas esse papel ainda é invisibilizado e pouco reconhecido”, destaca Amanda Corcino.
Apesar disso, as mulheres seguem sub-representadas nos espaços de decisão. Em negociações de paz, sua participação raramente ultrapassa 10%, o que evidencia sua exclusão dos processos formais de resolução de conflitos.
Escalada global e retrocessos
Dados das Nações Unidas apontam o agravamento desse cenário. Em 2024, cerca de 612 milhões de mulheres e meninas foram diretamente afetadas por conflitos armados — mais do que o dobro registrado há uma década.
Relatórios apresentados no âmbito da ONU também indicam que a proporção de mulheres mortas em conflitos dobrou em 2023. Os casos confirmados de violência sexual relacionada a conflitos aumentaram 50%, enquanto as violações graves contra meninas cresceram 35%.
Além disso, a própria ONU Mulheres alerta para uma regressão na agenda de paz e segurança voltada às mulheres, com queda no financiamento de políticas de proteção e baixa participação feminina nos processos de negociação.
“Há um investimento crescente em guerra e destruição, enquanto a proteção das mulheres e a garantia de direitos ficam em segundo plano. Isso precisa ser denunciado”, afirma Amanda Corcino.
Luta por direitos e por um novo projeto
Para a CUT, enfrentar os impactos das guerras sobre as mulheres passa pela construção de projetos que articulem democracia, soberania e justiça social.
“O avanço da extrema-direita e de políticas de retrocesso representa um risco direto para as mulheres. Por isso, falar de democracia, de soberania e de direitos é também falar da vida das mulheres”, diz Amanda.
Ela reforça que a mudança exige prioridade política. “Não é possível construir paz sem garantir a participação das mulheres e sem colocar suas vidas e seus direitos no centro das decisões”, afirma.
Em um cenário global marcado por conflitos e desigualdades crescentes, os dados e relatos reforçam que guerras não atingem apenas territórios. Elas aprofundam injustiças históricas e colocam, mais uma vez, as mulheres na linha de frente da sobrevivência e da resistência.