Modelo de Milei, proposto por Flávio Bolsonaro, pode levar o Brasil à crise sem fim
Jornadas exaustivas, desemprego e cortes em benefícios são alguns exemplos da crise na Argentina com a retirada de investimentos do Estado, modelo econômico que extrema direita quer adotar no Brasil
Publicado: 18 Setembro, 2026 - 08h48 | Última modificação: 18 Setembro, 2026 - 09h01
Escrito por: Texto: Rosely Rocha | Editado por: André Accarini
Os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil devem ficar atentos ao que vem acontecendo com a população da Argentina após três anos de governo de Javier Milei que implementou uma política neoliberal em que o Estado deixou de ser o principal investidor e gerador de emprego e renda. É este modelo econômico que vem sendo proposto pelo candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), caso vença as próximas eleições de outubro deste ano.
As consequências das medidas do presidente Milei são graves. Hoje mais de cinco milhões de argentinos passaram a viver na pobreza e de cada dez crianças argentinas, sete são pobres. A crise econômica da Argentina está levando grandes empresas a deixar o país ou vender ativos diante da inflação fora de controle e da inflexibilidade do governo. Desde a chegada de Milei ao poder mais de 22 mil empresas fecharam as portas.
"Desde o início do governo até abril de 2026, foram eliminados 329.667 empregos formais com carteira assinada, considerando os setores privado, público e o trabalho doméstico. O setor privado, longe de se tornar o principal gerador de empregos após as reformas, responde por mais de sete em cada dez postos de trabalho destruídos, com saldo negativo de 235.419 empregos. E essa tendência não parou. Somente nos quatro primeiros meses de 2026 foram perdidos 31.912 empregos formais no setor privado", contou o diretor da CTA Autónoma da Argentina (Central de Trabajadores de la Argentina Autónoma) Daniel Jorajuria Kahrs, em entrevista ao Portal CUT, no final de julho deste ano.
A crise também alcançou trabalhadores com emprego formal. Reportagens do Clarín apontam que o receio de não conseguir chegar ao fim do mês deixou de atingir apenas os setores mais vulneráveis. Famílias que antes integravam a classe média baixa passaram a enfrentar dificuldades diante do aumento das tarifas públicas, dos alimentos e dos aluguéis.
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Enquanto no Brasil se discute o fim da escala 6x1, um trabalhador na Argentina pode ter jornada de até 12 horas diárias, as horas trabalhadas excedentes podem ser trocadas por folgas, já que a reforma trabalhista de Milei reduziu a garantia de pagamento das horas extras e, ao sair da empresa o empregado pode receber indenização menor do que previa a legislação anterior.
Mas a escala 5x2 sem redução salarial e jornada de até 40 horas semanais, aprovada pela Câmara Federal e que aguarda votação no Senado para passar a valer, é um dos alvos de políticos de direita. Flávio Bolsonaro, em diversas vezes, defendeu o pagamento por hora e a negociação direta do trabalhador com o patrão.
Seu coordenador de campanha à presidência, senador Rogério Marinho (PL-RN) é o autor de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que acaba com o salário-mínimo como garantia de renda mensal; reduz proporcionalmente o FGTS, 13º e férias; esvazia o teto de jornada; inverte aa hierarquia entre negociação coletiva e contrato individual e fragiliza a representação sindical, entre outras medidas. Não foi à toa que o texto foi apelidado de PEC da Escravidão. Saiba mais aqui.
Mas o que significa retirar do Estado o poder de ser o maior indutor da economia, privatizando e privilegiando empresas privadas?
Uma das propostas do candidato Flávio Bolsonaro (PL) é a de copiar o modelo de privatizações da Argentina, como disse sua assessora econômica, Daniella Marques. Um dos possíveis alvos é o Banco do Brasil, o que pode impactar negativamente a vida dos brasileiros.
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Em entrevista ao Portal CUT durante o governo de Jair Bolsonaro, ao analisar as propostas econômicas à época, a professora de economia da Unicamp, Marilane Teixeira, apontou que a cartilha econômica que rejeita o Estado como indutor e aposta todas as fichas na iniciativa privada é ineficaz. Segundo ela, "é o Estado que faz grandes obras e cria demanda de empregos", reforçando que os empresários não investem sem que haja um direcionamento e investimentos prévios vindos da União.
Já Adriana Marcolino, diretora-técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), enfatizou também no mesmo período, que a visão de governos de corte liberal enxerga a renda do trabalhador e o ganho real do salário mínimo apenas como "despesa para os grandes empresários", ignorando que o fortalecimento do poder de compra funciona, na verdade, como um motor indutor da economia e de dinamização do mercado interno.
Troca de carne vermelha por frango, porcos e burros
Apesar de ser um dos maiores produtores de carne vermelha do mundo, os preços internos na Argentina dispararam acima da inflação média, de 33,5%, nos últimos 12 meses. O preço do produto atingiu em março deste ano uma inflação acumulada de 55%. Com isso, o consumo de carne bovina despencou 11,3%, no primeiro semestre deste ano, com o argentino comendo 4,2 quilos a menos ao ano, sendo este o menor nível em 20 anos. Segundo relatório da Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da Argentina da (CICCRA) a pressão inflacionária e oferta interna reduzida de animais para abate pesam no bolso do argentino; enquanto exportações atingem patamares históricos com um avanço de 10,2% em comparação com o mesmo período do ano passado.
Para compensar o alto custo os argentinos trocaram o produto por aves, porcos e até burros. Na cidade de Trelew, província de Chubut, a carne de burro começou a ser vendida por cerca de 7.500 pesos o quilo (aproximadamente R$ 27, na cotação atual). O quilo da carne vermelha pode chegar a R$ 90 em algumas regiões do país.
Segundo dados do Unicef divulgados pelo jornal La Nación, cerca de 10 milhões de crianças e adolescentes diminuíram o consumo de carnes e laticínios por falta de dinheiro. Em situações mais graves, refeições completas foram substituídas por preparações simples de farinha e água, como as tortas fritas.
Aumento da pobreza é generalizado
Dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) indicaram que a taxa de pobreza caiu para 28,2% no final de 2025, mas voltou a subir para 30,7% no início de 2026.
Nos bairros populares, uma das faces mais visíveis da crise é o aumento da procura pelos comedores, como são chamados os restaurantes comunitários. No primeiro ano do governo Milei, o repasse de alimentos para organizações sociais e entidades responsáveis por essas cozinhas foi interrompido sob a justificativa de realização de auditorias. Sem os produtos, muitos locais reduziram as porções ou deixaram de funcionar, o que acabou com a Justiça determinando que o governo argentino distribuísse mais de 5 mil toneladas de alimentos armazenadas em depósitos públicos e que corriam o risco de perder a validade.
Outras reportagens mostram filas de pessoas com vasilhas e panelas vazias em bairros como Barracas e Tres de Febrero. Cozinheiras comunitárias afirmam que precisam colocar mais água nas sopas e reduzir as porções para conseguir atender ao número crescente de famílias.
Nas grandes cidades, outro efeito foi o crescimento da população em situação de rua. Sem condições de renovar os contratos de aluguel, trabalhadores e famílias perderam suas moradias. O problema tornou-se mais visível em centros urbanos como Buenos Aires, Córdoba, Tucumán e Rosário.
Os relatos revelam uma realidade que os percentuais gerais de pobreza não conseguem mostrar por completo. Mesmo quando os indicadores apresentam melhora, restaurantes comunitários cheios, famílias reduzindo refeições e trabalhadores perdendo a moradia demonstram que os efeitos sociais do ajuste econômico continuam presentes na vida de milhões de argentinos.
Economia do Brasil x Argentina
A diferença entre a crise atual da economia Argentina sob Milei e o boom econômico que o Brasil vive com pleno emprego, baixa da inflação e crescimento econômico, foi motivo de protesto em uma sessão do parlamento argentino pelo economista e deputado nacional pela província de Buenos Ayres, Nico Massot, de posição política de centro. Como membro da Comissão de Relações Exteriores do Parlamento argentino ele elogiou a conduta do presidente do Brasil na economia.
Disse Massot : “Em todas as métricas que o presidente Milei apresenta — e em muitas delas nós queremos acompanhá-lo, embora ele não permita —, ele tenta estabelecer uma comparação para avaliarmos seu governo. Só que o governo do Brasil tem muito mais confiança do mercado, enquanto o mercado parece não confiar na Argentina.
O risco-país da Argentina é três vezes maior que o do Brasil. O Brasil acumulou um volume de reservas que é o dobro ou até o triplo do da Argentina. As reservas brasileiras equivalem a 10% do Produto Interno Bruto, enquanto as da Argentina representam apenas 1%.
O Brasil também tem um superávit comercial que é o dobro do argentino. A geração de empregos formais no setor privado acumula crescimento de 14% durante o governo Lula, enquanto, no governo Milei, houve uma destruição de 4% desses empregos.
O desemprego caiu pela metade. E, por último, presidente, o investimento estrangeiro direto no Brasil, nos últimos anos do governo Lula, acumula US$ 160 bilhões. Na Argentina de Milei, houve uma saída líquida de US$ 1 bilhão. O Brasil está muito à frente da Argentina em todas as métricas”.
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