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Manchas óleo nas praias do Nordeste têm impactos econômicos, sociais e humanos

“Existe medo, tensão, tristeza, revolta nas pessoas. Estamos falando de um crime que vai precarizar ainda mais a vida de milhares de pessoas”, afirmou professor da universidade da Bahia

Publicado: 05 Novembro, 2019 - 08h53 | Última modificação: 05 Novembro, 2019 - 09h29

Escrito por: Érica Aragão

Reprodução foto Ibama
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Praia no Ceará

Há mais de dois meses manchas de óleo cru estão aparecendo no litoral do Nordeste. Na última sexta-feira (1º), o Ministério da Defesa, a Marinha e a Polícia Federal soltaram uma nota dizendo que dos 30 navios suspeitos, um navio-tanque de bandeira Grega, da empresa Delta Tankers, se encontrava na área de surgimento da mancha.

De 30 de agosto até agora o óleo já atingiu 322 localidades. Cerca de 4.000 toneladas de resíduos de óleo já foram retirados das praias nordestinas. Neste fim de semana, o governo anunciou que o petróleo já chegou ao Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, arquipélago com a maior biodiversidade do Atlântico Sul.

Além do enorme prejuízo para o meio ambiente e o turismo local, o crime afeta a saúde da população e tem consequências econômicas difíceis de serem mensuradas, pois centenas de pescadores vivem da produção que está interrompida e não se sabe quando será possível pescar novamente.

“Não tem como mensurar números, pois a dimensão deste crime é muito grande. A falta de estatísticas para a pesca artesanal é notória, o que torna quase impossível mensurar valores advindos direta ou indiretamente desta atividade”, afirma o professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Francisco José Bezerra Souto, conhecido como Franzé.

O verão está chegando e o turismo que emprega milhares de trabalhadores e trabalhadoras também deve ser afetado, acrescenta o professor, que complementa: “Sem falar que a destruição do modo de vida das pessoas também não se pode valorar e elas ainda não sabem quando a vida voltará ao normal. Se é que voltará”.

Para o economista Guilherme Melo, da Unicamp, o vazamento terá efeitos de curto e longo prazo na economia com impacto direto no turismo que vai enfrentar cancelamentos de reservas, setores de serviços, restaurantes e, em particular, na indústria do setor de pesca.

Guilherme aponta que no longo prazo o vazamento do óleo nas praias no Nordeste terá um impacto também na imagem do país porque “o petróleo atingiu regiões onde os peixes e a vida marinha se reproduzem e você não sabe até quando vai durar o efeito dessa tragédia ambiental”.

Desde que as manchas de óleo viraram manchetes em todos os jornais do país e até do mundo, mostrando inclusive voluntários que foram limpar as praias com problemas de saúde, os nordestinos ficaram com medo de comprar peixes, mariscos, camarões e tudo que vem do mar. Têm medo de intoxicação.

Nos mercados o movimento também caiu e as barraquinhas nas ruas estão cheias de frutos do mar encalhados.

A rede hoteleira até destacam em suas publicidades a origem de seus peixes para mostrar que não são do Nordeste. Além disso, está se iniciando o período de alta temporada e os turistas já estão cancelando suas reservas.

O professor Franzé, que também cancelou uma viagem que faria no feriado, alerta que esse crime pode prolongar seus efeitos por décadas e que os prejuízos humanos serão incalculáveis.  

“Não tem como dimensionar o desespero dessas comunidades que vivem exclusivamente de suas atividades. Existe medo, tensão, tristeza, revolta nas pessoas. Estamos falando de um crime que vai precarizar ainda mais a vida de milhares de pessoas”, finalizou o professor.

Pesca está paralisada e pescador vive de Bolsa Família

Filha de um pescador em cidade do Una, distrito de Comandatuba, litoral sul da Bahia, Beatriz Goldman afirmou que a pesca local agora está paralisada.

As manchas de óleo chegaram na ilha há menos de uma semana e a comunidade, que não tem subsídio nenhum do governo, está se mobilizando para tirar os resíduos do mar e vivendo, em sua grande maioria, de Bolsa Família.

“Estamos há dias limpando. O que aparece aqui na ilha é muito óleo e dá muito trabalho para limpar. Tem muito caranguejo morto, águas vivas mortas. Não encontramos nada vivo. Terminamos o trabalho por hoje e ainda tem muita coisa. A maré subiu e percebemos que tá vindo mais”, afirma Beatriz.

Foi uma falha humana e a gente tá vendo o governo de olhos fechados e não está solucionando nada. Se não tivesse os voluntários estaríamos em uma situação pior
- Beatriz Goldman

Sobre comer os peixes, Beatriz disse que não tem como. Muitas vezes, segundo ela, o caranguejo está limpinho e ai quando você abre está cheio de óleo. E mais, aponta ela, sem informações se é contaminado ou não, as pessoas não arriscam e não comem.

E a indignação dos nordestinos aumentou quando o Ministro de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif Junior, afirmou numa live no Facebook ao lado de Jair Bolsonaro (PSL), de que as pessoas poderiam sim continuar comendo os peixes porque eles são inteligentes e desviam das manchas de óleos.

“É um crime humano dizer que as pessoas podem comer os peixes sem qualquer respaldo em pesquisas e ciência. Há muitos casos de pessoas passando mal e sabemos que este óleo é muito prejudicial a saúde”, disse Beatriz.

Falta de informação só piora

A falta de informação de todos os governos e a falta de apoio às comunidades atingidas afetam o psicológico dos que vivem por lá, porque ninguém sabe como será o dia de amanhã.

São pequenos produtores que vivem e trabalham no mesmo lugar e têm relação com a terra, além de perder seus sustentos podem perder os locais onde vivem.

“E o receio é que se comprovada que as praias estão contaminadas como será o futuro delas?, questiona Davi Martins, da Campanha Clima e Energia do Greenpeace.

“A incerteza gera transtorno”, afirma ele.

Ele ainda destaca que o povo precisa de informações do governo federal com dados. Segundo Davi, as pessoas precisam saber se o óleo vai continuar aparecendo? Quanto mais está por vir? Por quanto tempo? A água está intoxicada? Em quais locais? Os animais estão sendo intoxicados? Quais serão os próximos passos?

“Existem pessoas sem comer há dias, vivendo de favor e como será reparado tudo isso? Este crime ambiental está acontecendo faz mais de 60 dias e nenhum Estado se propôs a tomar alguma medida de emergência e não existem propostas de fundos para aliviar os impactos negativos para estas comunidades”, critica Davi.

Seguro-defeso

O Seguro-Defeso é um benefício previdenciário destinado aos pescadores profissionais que ficam impossibilitados de desenvolver suas atividades durante o período de reprodução das espécies, quando a pesca é proibida.

Um direito que agora no Nordeste seria fundamental e humano. Mas não é isso que acontece. Segundo Davi, que está em Pernambuco para acompanhar o que está acontecendo, 400 pessoas estão sendo contempladas com o benefício.

“Só quem pesca lagosta conseguiu ter este direito e eu não entendi os motivos desta peculariedade. Segundo o IBGE, a comunidade pesqueira só em Pernambuco tem 30 mil pessoas isso sem contar as que o órgão não considera”, contou Davi Martins, da Campanha Clima e Energia do Greenpeace.