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Maioria dos brasileiros tem medo de se contaminar com Covid-19 no transporte público

Levantamento da Agência Senado mostra que nove em cada 10 brasileiros considera alto o risco de pegar Covid-19 em transportes públicos. Usuários e trabalhadores estão expostos, dizem sindicalistas

Publicado: 05 Agosto, 2020 - 08h30 | Última modificação: 05 Agosto, 2020 - 09h03

Escrito por: Andre Accarini

Roberto Parizotti
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O risco de contaminação pelo novo coronavírus (Covid-19), em transportes públicos é um dos principais temores da maioria dos brasileiros que precisam se locomover para chegar ao trabalho usando ônibus, trens e metrô. O risco aumentou mais ainda, em especial nas capitais e grandes cidades do interior, desde que a economia começou a ser reaberta e ônibus e trens ficaram superlotados, sem que as autoridades locais tivessem implementado um plano efetivo para proteger a vida dos usuários e trabalhadores do setor.

Pesquisa realizada pela Agência Senado, entre os dias 27 e 29 de maio revelou que 89% dos entrevistados avaliam que há muito risco de contrair o vírus. Outros 10% acreditam em pouco risco e 1% não souberam ou preferiram não responder.

O percentual de pessoas que veem no transporte público um caminho de proliferação da Covid-19 é maior que do que o percentual daqueles que têm medo de contrair o vírus em escolas e faculdades (83%), academias (78%), parques praias (65%) e bancos (54%).

Desde o início da pandemia, em março deste ano, as estratégias de governadores e prefeitos têm se limitado a redução das frotas em épocas de restrições mais rígidas de circulação mais como forma de equilibrar as contas, já que o setor sofreu uma redução no de até 80% no número de passageiros nos primeiros meses da crise sanitária.

Na capital paulista, o retorno de 100% da frota às ruas só aconteceu após uma ação judicial promovida pelo Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário e Urbano de São Paulo (Sindmotoristas), que exigiu o retorno das operações.

No dia 16 de julho, a decisão da Justiça determinou que 100% da frota retornasse às atividades, sob pena de multa diária de R$ 50 mil.

O presidente do Sindmotoristas, Valmir Santana da Paz, conhecido como ‘Sorriso’, afirmou que com a flexibilização da quarentena e o retorno das atividades na capital, os reflexos no transporte público foram alarmantes.

“Os trabalhadores ficaram desesperados, conduzindo veículos superlotados em tempos que se prega evitar aglomerações. A saúde dos profissionais e de toda a sociedade está em risco, o único modo de evitar essa exposição é aumentar a frota. Buscamos ser sensíveis o tempo todo, mas precisamos recorrer à Justiça”, afirmou o sindicalista.

No despacho da decisão que determinou o retorno dos ônibus em São Paulo, a Justiça ainda afirmou que a atitude administrativa de manter a frota reduzida, mesmo diante da flexibilização foi “irracional”.

 

  

Uma análise feita pela Rede Pesquisa Solidária, coordenada pela Universidade de São Paulo (USP), mostra que 40% da população economicamente ativa utiliza o transporte coletivo para ir e voltar do trabalho, sendo que essa taxa chega a 60% entre os mais pobres e passa a ser menor do que 20% entre os mais ricos.

 Ainda de acordo com a pesquisa, as populações periféricas das cidades dependem mais do transporte público e, por isso, estão sujeitas a taxas mais elevadas de lotação.

 

 

Linha de frente

Os motoristas de ônibus urbano, de carga, ferroviários, metroviárias e navais fazem parte de um grupo profissional de atividades essenciais com o segundo maior risco para Covid-19. Eles ficam atrás apenas de quem atua na área de saúde. A constatação é de um estudo que dimensiona o risco de contágio em cada atividade, realizado pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).

De acordo com o levantamento, são 350 mil trabalhadores em ônibus que correm 70% de risco de serem contaminados devido ao exercício de sua profissão. O estudo mapeou mais de 2,5 mil ocupações no País. Os dados foram divulgados pela Agência Brasil e pelo portal do instituto.

Em se tratando de segurança e prevenção, a situação não é favorável. As medidas de proteção são pontuais e partem de iniciativas individuais, de prefeituras e de sindicatos.

Um exemplo é o Sindicato dos Rodoviários de Sorocaba e Região, no interior de São Paulo, que conseguiu que a Prefeitura realizasse, em uma parceria com o sindicato, a testagem dos trabalhadores.

O resultado, divulgado em 17 de julho, mostrou que, dos 1.403 trabalhadores testados, 98 tiveram resultado positivo para coronavírus, o que representa cerca de 7% do total.

Mas, em geral, não houve, desde que se anunciou a chegada da pandemia ao Brasil, nenhuma política de prevenção voltada a esses trabalhadores. A afirmação é do presidente interino da Confederação Nacional de Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL-CUT, Eduardo Guterra.  

“Não houve em nenhum momento uma política continuada e articulada do Governo Federal com os governos estaduais e municipais, que fosse capaz de trazer estratégias efetivas para enfrentar a pandemia”, diz Guterra, que também é secretário-adjunto de Cultura da CUT.

Ele reforça que todos estão correndo risco o por causa do impacto muito grande na economia, algumas categorias foram afetadas, inclusive os transportes, não só o urbano, mas os outros modais, como o rodoviário. “Se olharmos para as rodovias, têm muitos motoristas parados nas estradas e isso gera aglomeração”.

Roberto ParizottiRoberto Parizotti

 

 

Cuidados

De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), evitar lotação e aglomeração é o caminho mais seguro para se proteger do novo coronavírus, mas como a grande maioria da população não tem outra opção a não ser o transporte público, deve-se evitar horários de pico, em que esses transportes estão mais cheios.

Outros cuidados básicos necessários e já de conhecimento da população, são reforçados como o uso de máscara, evitar tocar boca e nariz, nariz e evitar tocar os cabelos. Se tiver álcool em gel, passar nas mãos ao longo da viagem e assim que sair do veículo, bem como, ao chegar no destino, lavar as mãos e o antebraço com água e sabão.

Outra das maiores prevenções, conforme aponta a Fiocruz,é manter distância entre as pessoas. Por isso, o ideal é que os passageiros não fiquem muito próximos, evitando especialmente os que apresentem sintomas de gripe como espirro ou tosse.

 

Tecnologia

O serviço de mapas do Google (Google Maps), recentemente atualizou sua plataforma e passou a emitir alertas sobre a aglomeração dentro de estações de metrôs, trens e ônibus.

O recurso é ativado automaticamente ao iniciar uma navegação que envolva o transporte público. 

Com base em alertas de agências de transportes locais, o Maps informa as restrições provocadas pela pandemia, como as limitações temporárias nos serviços e indicações de lotação do meio de transporte, em tempo real. O navegador também avisa sobre a necessidade de utilização de máscara no transporte coletivo. Os recursos podem ser acessados a partir da mais nova versão do Google Maps, tanto em aparelhos Android quanto iOS.

Imagem da tela do aplicativo Google Maps mostra orientação
para o uso de máscara (1) e situação da estação de Metro (2)

 

Para ter acesso às informações, os usuários devem traçar a rota (local de origem e local de destino) e selecionar no menu superior o modo 'transporte público', indicado na imagem por um trem destacado em azul (conforme tela 1 acima). Os passageiros podem também observar se as medidas de distanciamento social estão sendo adotadas com base na própria experiência e relatar as condições no app, para ajudar outras pessoas.