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Lula: Bolsonaro está mais preocupado com sua viabilidade política do que com o povo

Em vídeo divulgados nas redes sociais, ex-presidente diz ter ficado assustado com o papelão, o espetáculo de grosseria que Bolsonaro protagonizou em rede nacional

Publicado: 26 Março, 2020 - 10h41 | Última modificação: 26 Março, 2020 - 11h45

Escrito por: Redação CUT

Reprodução
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“Fiquei assustado, porque o papel de um governante é tentar orientar a sociedade", disse o ex-presidente Lula em tramissão em rede social ao lado do ex-ministro Fernando Haddad, na noite desta quarta-feira (25).

Lula se referiu ao pronunciamento de Jair Bolsonaro feito no dia anterior. O presidente usou uma rede nacional de televisão para criticar governadores que tomaram medidas de isolamento social para conter a disseminação do novo coronavírus (Covid-19), que já infectou mais de 413 mil pessoas no mundo e fez mais de 19 mil vítimas fatais, quase 60 delas no Brasil. Para Bolsonaro, as medidas, que são orientadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo próprio Ministério da Saúde, são um problema para a economia e as pessoas tinham de sair da quanrentena e voltar a trabalhar.  

"Para minha surpresa, o presidente aparece na televisão, de forma intempestiva, fazendo uma guerra política contra a sociedade brasileira, os governadores, os prefeitos”, afirmou Lula, que classificou a fala de Bolsonaro como um “papelão, um espetáculo de grosseria”.

Lula disse ainda que o presidente mostrou que está mais preocupado com sua viabilidade eleitoral, em “manter um acirramento político”, do que com a sociedade. Na opinião dele, Bolsonaro chegou ao limite “das pessoas mais compreensivas” e “realmente não está preparado” para comandar o país.

Dizendo-se pessimista, porque o país “perdeu muito tempo” no combate à pandemia, Lula lamentou que o atual presidente não tenha buscado o diálogo e uma ação coordenada em todo o país.

“A quem ele falou? Com que interesse ele falou? Parecia uma preocupação eminentemente política e eleitoral”, disse ainda o ex-presidente sobre o pronunciamento de Bolsonaro em cadeia nacional de rádio e TV.

“Acho que o Congresso Nacional, os partidos políticos, a sociedade precisam dar um jeito no Bolsonaro.” Para ele, é preciso garantir saúde para “recuperar a democracia” no Brasil.

Discurso raivoso

Em vez de governar para todos, inclusive os que não votaram nele, o presidente parece se dirigir apenas a uma parcela minoritária da sociedade. E sempre com um “discurso raivoso” voltado para quem não o elegeu. “O Bolsonaro nunca se preocupou com isso (governar para o conjunto)”, criticou Lula.

Haddad se referiu ao que considera um “comportamento errático” do atual presidente, que muda suas decisões de um dia para o outro. Citou o exemplo da Medida Provisória 927, que permitia suspensão de contratos e de pagamentos de salários por até quatro meses. Após pressão da CUT e demais centrais, Bolsonaro recuou e em menos de 24 tirou esse item da MP.

Para Lula, o presidente assinou sem ler. “Ele não sabia da medida provisória. Ele não leu, assinou e só foi descobrir a bobagem que tinha feito no dia seguinte.” Para o petista, a MP mostrou a “submissão” do ministro da Economia, Paulo Guedes, à Confederação Nacional da Indústria. Ele disse ainda que a medida foi um “passa-moleque” da CNI nos trabalhadores.

Momento econômico já era ruim

Com a ressalva de que foram situações bastante diferentes, Haddad perguntou a Lula sobre as ações do governo durante a crise econômica-financeira global de 2008. “Eu conversei com muita gente para que a gente pudesse tomar atitudes que fossem de consenso”, respondeu Lula, lembrando do pedido que fez publicamente para que as pessoas não deixassem de consumir.

Mas ele observou que, agora, o Brasil já vinha de um momento ruim na economia, que se tornou mais grave com a crise do coronavírus. “O milagre econômico que a elite brasileira prometeu com o impeachment da Dilma não aconteceu.”

Lula ressaltou que é preciso unir todas as forças neste momento: “Todos nós juntos seremos responsáveis pelo sucesso do combate ao coronavírus ou pelo fracasso. Bolsonaro não ouve, não conversa”, afirmou, sugerindo ainda a renúncia do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na medida em que o próprio presidente descumpre recomendações de sua pasta. “Ele não se preocupe com a verdade, o que ele quer é criar o caos no país.”

Para Haddad, países como China, Coreia e Japão dão mostras de que é possível equilibrar a questão sanitária com a econômica.

Lula considerou que a China teve comportamento “exemplar” ao isolar a região onde se originou o vírus, e agora tenta ajudar outros países.

E defendeu ampliação do investimento público – observou que não estava usando a palavra “gasto” por se tratar de uma questão de saúde. “A gente não tem que ficar regateando dinheiro para combater esse mal (…) Como se o Guedes fosse dono do dinheiro. Você pode utilizar recursos e ao mesmo tempo fazer investimento na economia, pode pegar uma parte das reservas internacionais que nós temos, transformar em reais e fazer grandes investimentos em infra-estrutura para dinamizar a economia brasileira. Não é incompatível. Você pode pensar em várias coisas ao mesmo tempo. Acontece que esse governo não pensa nada.”

Renda mínima

Ele espera que o presidente “crie juízo” e garanta uma renda mínima para que as pessoas possam se manter durante esse período. E também criticou o fato de a comitiva do presidente ter voltado dos Estados Unidos com mais de 20 infectados. “Onde é que essa cara foi? Ele foi no ninho do coronavírus? Ou pensaram que na terra do Trump não tinha?”

O ex-presidente disse ter voltado do “epicentro” da crise, na Europa, sem que ninguém de sua equipe tivesse se adoentado. Lembrou que amanhã se completam 14 dias desde que ele voltou da Alemanha, e desde então não saiu de casa.

Nesse período, conversou com os médicos Roberto Kalil Filho e Davi Uip, preventivamente. “Não saí, não vi minha netinha que nasceu, não vi nenhum filho meu até agora. É uma das formas que eu posso contribuir. O jeito de eu ajudar é ficar em casa. Agora vai completar 15 dias (do retorno), vou voltar a falar com os médicos. Tenho 74 anos, eu me sinto bem, saudável, mas a gente não brinca com doença.”

O ex-presidente disse ainda que é preciso recuperar o humanismo e a solidariedade. Inclusive na hora de ir ao supermercado, para pensar no outro. “Tem gente que está comprando papel higiênico pro ano inteiro.”

Veja na íntegra:

Com apoio da RBA.