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Lula aos filhos: estou melhor do que 90% da população

Mesmo isolado em um quarto de 15 m², o ex-presidente Lula não foi abandonado por aqueles que o carregaram no ombro em São bernardo, cena imortalizada na foto de Francisco Proner Ramos

Publicado: 16 Abril, 2018 - 10h11 | Última modificação: 16 Abril, 2018 - 10h18

Escrito por: Marcelo Auler, de Curitiba

RICARDO STUCKERT
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Independentemente da indignação que continua mantendo, sem se conformar com a prisão a que foi recolhido há uma semana, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mantém-se sereno e ainda consegue fôlego – tal como aconteceu na sexta-feira e sábado (6 e 7/04), em que permaneceu no Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo -, para tranquilizar seus interlocutores. Naquelas 48 horas antes de se entregar não foram poucas às vezes em que ele consolou e deu força a amigos mais emocionados.

Aos interlocutores com os quais tem se encontrado, Lula elogia as instalações que lhe dispuseram bem como o pessoal que trata diretamente com ele. Na quinta-feira, ao receber seus três filhos – Fábio, Lurian e Luiz Cláudio -, e o neto Thiago, Lula voltou a agir dessa forma. Chegou mesmo a dizer que está mais bem acomodado que a grande maioria da população. Pediu que não tivessem “dó dele, porque 90% dos brasileiros não têm a acomodação que ele tem”.

Na realidade, nestes primeiros sete dias de Lula recolhido na Polícia Federal de Curitiba, ele só se viu completamente sozinho no sábado e domingo (14 e 14 de abril) dias em que não são permitidas as visitas de advogados. Nos demais dias, um dos seus defensores, sempre marcou presença. Sábado, provavelmente, nem banho de sol – que se iniciou na quarta-feira – ele teve. Chovia na cidade.

Embora isolado e em condições que na sua coluna deste domingo (15/04) Élio Gaspari, na Folha de S. Paulo,  mostra serem totalmente diferentes das impostas em pleno regime ditatorial – “Indo-se para um exemplo brasileiro, Lula está num regime muito pior que aquele vivido em 1969 por Darcy Ribeiro, ex-chefe da Casa Civil de João Goulart. Ele ficou preso no Batalhão de Comando do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio. Darcy ficava num quarto iluminado e espaçoso. Fazia suas refeições e via a novela “Nino, o Italianinho” com os oficiais. Podia conviver com outros presos e, depois do expediente, circulava no pavilhão onde estava seu alojamento. Pelas paixões da época, Darcy era detestado, uma espécie de José Dirceu de Jango.” – o encarceramento do ex-presidente poderá causar efeito diverso daquele desejado pelos seus algozes.

Apoio de militantes e anônimos – Lula, como o próprio juiz Sérgio Moro se viu obrigado a reconhecer, como ex-presidente merece tratamento distinto. Ou, como Moro classificou, mereceu dele deferência. Foi um ex-presidente que por duas eleições arrebatou milhões de votos e concluiu seu mandato com mais de 85% de aprovação. Tornou-se, mais do que um político que apesar de toda a pressão sofrida nos últimos anos, arrebata ainda o apoio de parcelas expressivas da população, mas um líder reconhecido mundialmente. Por isso, o isolamento que pretendiam lhe impor, permitindo apenas visita de familiares e advogados, poderá começar a ruir nesta semana que se inicia.

Ainda que sozinho no quarto de 15 m² que Moro definiu como “sala reservada, uma espécie de Sala de Estado Maior”, nesses sete primeiros dias o ex-presidente contou com a solidariedade de milhares de pessoas, entre lideranças e militantes políticos, de movimentos sociais, ou simples cidadão engajados politicamente.

É grande o número de visitantes ao acampamento, não só moradores de Curitiba, mas pessoas que chegam de outras cidades e que ali não dormem. Mas marcam presença durante todo o dia. São, segundo organizadores, milhares que passam por ali. Uns dias mais, outros menos. Há ainda casos como do carioca aposentado Richard Faulhaber, 63 anos, autor do vídeo abaixo, que deixou o Rio por conta própria e juntou-se aos acampados. São eles que diariamente, às 08H00 e às 20H00 dirigem-se ao ex-presidente com os já famosos “Bom Dia  e Boa Noite Presidente Lula!”

Quebrando o isolamento – Nesta semana (15 a 21 de abril), mesmo diante da negativa da juíza Carolina Lebbos – da 12ª Vara Federal, encarregada de acompanhar a execução das penas de condenados pela Justiça Federal -, de permitir a visita de amigos, o isolamento deverá ser rompido.

Na próxima terça-feira (17/04) estarão na sede do DPF, em Curitiba, membros da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal para, como define o ofício encaminhado à juíza Carolina pela presidente da Comissão, senadora Regina Souza (PI-PT), “a fim de verificar as condições de encarceramento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos demais presos naquela sede”.

Mas os senadores não serão os únicos. Nesta segunda-feira (16/04), do Rio de Janeiro, onde tem compromissos assumidos anteriormente, o prêmio Nobel de Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, assinará procuração para advogados curitibanos intercederem junto à 12ª Vara Federal pedindo autorização para se encontrar com Lula na quarta-feira. Se conseguirá ou não, só o tempo dirá. O fato de ir à porta do DPF, porém, já terá repercussão internacional, aumentando a pressão do exterior que já ocorre com atos públicos, ou manifestações isoladas, em diversos países.

O pedido de Esquivel será mais um a ser analisado pela juíza que, na sexta-feira, deixou seu gabinete sem conseguir concluir a análise de outras cinco petições relacionadas à execução da pena do ex-presidente. Ela já acumula três pedidos de visita, ajuizados pelo PDT (em nome de Carlos Lupi, presidente e de Ciro Gomes e André Figueiredo) – sem dúvida, o mais bem fundamentado; pela senadora Gleisi Hoffamann, redigido pelo ex-subprocurador Geral da República,Eugênio Aragão; e pelo deputado federal José Carlos Becker de Oliveira e Silva, o Zeca Dirceu (PT-PR).

Embora na decisão que impediu a visita de oito governadores e três senadores – narrada aqui em Juíza barra governadores, que deixam carta a Lula – (que acabou gerando a decisão da inspeção pela CDH do Senado), ela tenha alegado não existir flexibilização do regime geral de visitas próprio à carceragem da Polícia Federal, os pedidos mostram que a recusa da visita dos chamados “amigos” esbarra não apenas na legislação nacional como nos tratados internacionais assinados pelo Brasil.

Tal como mostra a petição do PDT assinada pelos advogados Ian Rodrigues Dias (de Brasília) e Marcos Ribeiro de Ribeiro (do Rio de Janeiro), cuja íntegra reproduzimos ao final desta reportagem.

Lula e os presos políticos da ditadura – Lula, hoje é considerado por muitos como um “preso político. Muitos consideram, como disse Tereza Cruvinel, na sua coluna do Jornal do Brasil, O santo castigado, que “o juiz Sérgio Moro condenou Lula mesmo não encontrando atos de ofício, vale dizer, provas de que ele favoreceu a construtora OAS em troca do tríplex do Guarujá, do qual nunca teve a posse nem a propriedade legal por escritura. Este é um ponto que, para muitos juristas e advogados, fragiliza a sentença de Moro”.

Também foi revelada na recente pesquisa da Ipsos publicada pelo O Estado de S. Paulo, no sábado (veja quadro acima). Nela, fica claro que a maioria – 73% – dos entrevistados vê na prisão de Lula uma manobra para retirá-lo das eleições. Sem falar que 55% concordam que “a Lava Jato faz perseguição política contra Lula”.

Com isto, barrar a visita de amigos a Lula torna-se, acima de tudo, uma arbitrariedade que não ocorreu nem com os presos políticos da ditadura civil-militar vivenciada pelo país entre 1964/1985.

Em agosto de 1979, como relembrou  Gilney Amorim Viana, ex-preso político em  Conheci Lula na prisão, da qual reproduzo a foto abaixo. Estiveram no presídio Heitor de Souza Santos (Presidente do Sindicado dos Trabalhadores Rurais de Rio Bonito), Dep. Edson Khair (MDB-RJ), Luiz Inácio Lula da Silva (Presidente do Sindicado dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo), e Wagner Benevides (Presidente do Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais).

Como ele diz, o então apenas presidente do Sindicato dos Metalúrgico, Lula, que começava a despontar no meio político brasileiro, esteve no presídio Milton Dias Moreira, no Rio de Janeiro Foi com outros sindicalistas visitar os presos políticos da ditadura civil-militar. Um ato político, de solidariedade a quem estava perseguido por um regime de força. Presos e visitantes nem sequer se conheciam. Mas, ainda assim, nenhum juízo impediu a visita, como hoje impedem os amigos e companheiros do ex-presidente de visitá-lo.

Nesta semana os pedidos de visita deverão aumentar. A juíza também devera decidir sobre o pedido de transferência do preso, feito pela prefeitura municipal a propósito da presença do acampamento que, conforme alega a Procuradoria do Município, estaria incomodando moradores e servidores da PF.

Os organizadores, porém, já decidiram, como explicou ao Blog o presidente do PT do Paraná, o ex-deputado federal Florisvaldo Fie, mais conhecido como Dr. Rosinha, que mesmo que o acampamento seja removido do entorno da sede da Superintendência da Polícia Federal, diariamente, entre 08H00 e 20H00, os manifestantes marcarão presença no local. Ou onde Lula estiver, caso ele realmente seja transferido.

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