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Legado da Lava Jato para o país: desemprego, obra parada e investimento jogado fora

Somente o setor de construção civil perdeu cerca de 1,1 milhão de postos de trabalho por cauda do modo de operar dos procuradores da Lava Jato. Obras paradas ainda dão prejuízos aos cofres públicos

Publicado: 17 Março, 2021 - 16h05 | Última modificação: 17 Março, 2021 - 16h20

Escrito por: Andre Accarini

arte: Alex Capuano/CUT
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Ao perseguir os CNPJs (empresas) ao invés de investigar os CPFs (pessoas) responsáveis pelos supostos desvios de recursos nas companhias, os procuradores responsáveis pela Operação Lava Jato de Curitiba causaram estragos à economia do Brasil e destruíram vários postos de trabalho. A construção civil foi um dos setores mais afetados pela atuação da República de Curitiba. Centenas de obras foram paralisadas e cerca de 1,1 milhão de trabalhadores perderam o emprego.  

O impacto começou a ser sentido a partir das denúncias de corrupção e desvios de verbas públicas, fase em que a Justiça se antecipava e determinava a revisão de contratos e a suspensão de obras e licitações. Isso aconteceu durante a fase inicial das investigações, apenas a partir de delações premiadas, algumas não confirmadas.

“Ao invés de investigar e punir dirigentes, diretores e gestores das empresas, envolvidos nas denúncias, os procuradores da Lava Jato agiram sem ter qualquer tipo de cuidado ou preocupação em manter as atividades das empresas, que quebraram por causa da operação”, afirma o presidente da Confederação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores nas Indústrias da Construção e da Madeira filiados à CUT (Conticom-CUT), Cláudio da Silva Gomes, o Claudinho.

“Esse modo de operar da Lava Jato provocou um efeito nefasto para os trabalhadores. De uma hora para outra, grandes obras, principalmente de infraestrutura, tudo foi paralisado e veio o desemprego. Investigar quem é denunciado é necessário, mas a empresa, em si, tem que continuar em atividade”, completa o dirigente.

De acordo com o estudo “Implicações Econômicas Intersetoriais da Operação Lava Jato”, que o DIEESE fez a pedido da CUT, os economistas e técnicos fizeram um balanço dos estragos causados pela operação à economia brasileira e concluiu que, no total, 1.075.719 empregos foram extintos só no setor de construção civil.

A operação também deixou rastros de prejuízo aos cofres públicos por causa dos investimentos públicos feitos em parte das obras que foram paralisadas. O prejuízo continua, diz Claudinho, afirmando que os recursos não estão sendo aproveitados porque as obras não prosseguiram, continuam paralisadas. “A função social dessas obras não se cumpriu”.

“Obra parada gera muitos prejuízos. Além dos custos do financiamento e da deterioração do projeto, também tem o prejuízo dos benefícios e da não solução dos problemas que a obra propiciaria, como no caso da construção de moradias populares, e claro, para os trabalhadores que estão desempregados”, ressalta Claudinho.

Efeito cascata

Para o diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Fausto Augusto Jr, a deterioração no nível de emprego como o observado na construção civil, tem desdobramentos na economia brasileira.

Ele destaca dois dados importantes do estudo feito pelo Dieese: o impacto no emprego direito e o chamado “efeito renda”.

“O ‘efeito renda’ é a forma como o dinheiro que entra na economia se transforma, como ele vai gerando mais riquezas conforme adentra a economia”, diz Fausto, se referindo a empregos indiretos gerados enquanto a economia gira.

A Lava Jato impactou fortemente o investimento com consequências para toda a economia.  Produção de riqueza, o PIB, os empregos e a arrecadação dos impostos foram afetados
- Fausto Augusto Jr


O caminho de volta

Reverter o quadro de destruição da Lava Jato, recuperar os empregos, mesmo em tempos de agravamento da crise econômica por causa da pandemia da Covid-19 e também pela inércia do governo de Jair Bolsonaro (ex-PSL), de acordo com Claudinho da Conticom, é possível, mas não é fácil.

“A solução, independentemente da pandemia, seria a retomada das obras paradas e uma política de investimento na infraestrutura do país”, diz.

O dirigente explica que a pandemia gera impactos em um determinado espaço de tempo mais curto, mas os investimentos na infraestrutura do Estado, que são de médio e longo prazo, não podem parar sob pena de promover um atraso nas melhorias sociais. “Inclusive nas estruturas de saúde no país”, pontua.

 

Estudo do Dieese

O levantamento feito a pedido da CUT traz outros dados sobre a destruição provocada pela Lava Jato na economia brasileira. De 2014, quando foi deflagrada até 2017, cerca de R$ 172,2 bilhões deixaram de ser investidos no Brasil.

Desse montante, R$ 104 bilhões se referem a investimentos que deixaram de ser feito na Petrobras, que passou a ser uma empresa apenas de prospecção e petróleo, perdendo a característica de desenvolvedora de tecnologia e indutora do crescimento econômico do país e outros R$ 67,8 bilhões em investimentos que deveriam ter sido feitos em obras de infraestrutura, paralisadas pela Lava Jato.

A operação custou ao Brasil, entre 2014 e 2017, por conta disso, mais de 4,4 milhões de empregos e uma redução de 3,6% no PIB. “O Brasil deixou de gerar essa riqueza em função do não investimento e isso tem impacto no país até hoje”, diz Fausto Augusto Jr.

Ele diz ainda que ao se observar o quanto o Estado deixou de arrecadar, o total chega a R$ 47,4 bilhões de reais, valor 12 vezes maior o que a Lava Jato diz ter recuperado aos cofres públicos. Sobre esse valor ainda haveria a incidência R$ 20 bilhões, valor que deixou de ser arrecadado para a previdência, por exemplo.

Os dados ainda mostrar que a massa salarial poderia ter chegado a R$ 86 bilhões, “dinheiro que poderia ter circulado na economia”, afirma o técnico do Dieese.

De acordo com o estudo, setores foram mais afetados, como o da construção civil, mas outros foram desorganizados, como o setor de engenharia. “A gente viu um conjunto importante de engenharia, de projeto, de execução, tudo ser desmontado porque esses setores não estão mais nas empresas que quebraram por causa da paralisação das obras”, explica Fausto.

 

*Edição: Marize Muniz