Julho das Pretas: Podcast Estúdio CUT reforça luta da mulher negra contra o racismo
Secretária nacional de Combate ao Racismo da CUT, Maria Júlia Nogueira, fala sobre o significado da campanha e da atuação da Central no combate às violências contra as mulheres negras
Publicado: 26 Julho, 2026 - 18h04 | Última modificação: 27 Julho, 2026 - 17h33
Escrito por: Redação CUT
O mais recente episódio do Podcast Estúdio CUT traz um bate-papo sobre Julho das Pretas, mobilização nacional realizada ao longo de julho para dar visibilidade às lutas das mulheres negras, denunciar o racismo, a violência e cobrar políticas públicas voltadas à promoção da igualdade. A convidada desta edição é a secretária nacional de Combate ao Racismo da CUT, Maria Júlia Reis Nogueira, que falou sobre o significado da campanha, a atuação da Central e os desafios para construir uma sociedade livre de preconceitos.
Durante a entrevista, a dirigente também abordou temas como a violência contra as mulheres negras, a importância da educação para enfrentar o racismo estrutural, a necessidade de ampliar a representação de mulheres e da população negra nos espaços de poder e o papel histórico da CUT na defesa de direitos e de políticas públicas para a classe trabalhadora.
Veja o episódio:
Julho das Pretas - o podcast
O Julho das Pretas nasceu da decisão do movimento de mulheres negras de ampliar as ações realizadas em torno do 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. A data foi oficializada no Brasil por meio da Lei 12.987/2014, pela ex-presidente Dilma Rousseff.
Em vez de concentrar as mobilizações em uma única data, o movimento transformou o mês inteiro em um período de debates, atividades culturais e ações de conscientização em todo o país.
“A gente sempre precisa reafirmar, gritar, que o racismo ainda está muito presente em nossa sociedade e que, de forma particular, as mulheres negras são as maiores vítimas do racismo neste país."
Ela destacou que a CUT orienta suas estaduais e ramos a promoverem atividades durante todo o mês de julho para fortalecer esse debate. "O importante é debater, discutir, propor para evitar que mais mulheres sejam vítimas de violência, que mulheres negras deixem de ser discriminadas no Brasil."
Ao falar sobre a violência contra as mulheres, Maria Júlia ressaltou que ela não se resume aos casos de feminicídio. Para a dirigente, é preciso compreender também outras formas de violência que atingem as mulheres negras, como a discriminação econômica, social e no mundo do trabalho.
Ela lembrou ainda que essas desigualdades têm origem no processo histórico de escravização da população negra no Brasil e seguem produzindo reflexos até hoje.
"Quando a gente se reporta ao passado e reflete sobre isso, muito do que a gente ainda vivencia hoje tem a ver com esse passado tenebroso."
A secretária também recordou que, neste ano, a CUT lançou a Campanha Permanente de Combate ao Feminicídio – “Pela vida das mulheres, a luta é de todos”, fomalizou a adesão da entidade ao Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, do governo federal. A iniciativa da CUT busca fortalecer ações de prevenção e combate ao feminicídio no âmbito do trabalho
Luta ampla
Para Maria Júlia, o enfrentamento ao racismo e à violência contra as mulheres não pode ficar restrito aos grupos diretamente atingidos. Ela defendeu que toda a sociedade assuma essa responsabilidade.
"O combate ao racismo no Brasil não pode, não deve ser uma luta dos negros e negras, assim como o combate à violência contra as mulheres não pode ser uma luta apenas das mulheres", disse.
Na avaliação da dirigente, somente uma ação coletiva permitirá superar as desigualdades históricas. "Nós só teremos uma sociedade efetivamente livre de preconceito e de racismo à medida que o conjunto da sociedade entender e assumir esse papel no dia a dia, combatendo a violência e combatendo o racismo."
Eleições
Outro tema abordado durante a entrevista foi a importância da democracia e da representatividade política. Maria Júlia afirmou que a composição atual dos espaços de poder ainda não reflete a diversidade da população brasileira e defendeu maior participação de mulheres, da população negra, indígenas e trabalhadores nas instâncias de decisão.
"Nós temos que, nas próximas eleições, buscar ter representação de trabalhadores e trabalhadoras, de mulheres, da população negra, dos indígenas, ciganos, para que esse Congresso represente o povo brasileiro."
Políticas públicas
Ao tratar das políticas públicas, a dirigente ressaltou que conquistas importantes da sociedade brasileira são resultado da organização popular e da atuação histórica do movimento sindical.
Ela citou como exemplos o Sistema Único de Saúde (SUS), o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e também a Lei da Igualdade Salarial, lembrando que a existência da legislação precisa ser acompanhada de sua efetiva implementação.
"A lei que preconiza a igualdade salarial entre homens e mulheres precisa ser efetivamente implementada."
Segundo Maria Júlia, a desigualdade salarial ainda persiste e afeta principalmente as mulheres negras.
"Nós temos uma sociedade de desiguais no Brasil e o que nós precisamos é trabalhar para que esta sociedade possa ter o respeito ao trabalho entre homens e mulheres, entre negros e brancos, para que um dia a gente possa ter efetivamente uma sociedade mais igual."
Racismo estrutural
Ao responder sobre os caminhos para combater o racismo estrutural, Maria Júlia apontou a educação como instrumento fundamental de transformação. Para ela, a implementação das leis que determinam o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana é indispensável para desconstruir preconceitos e ampliar o conhecimento sobre a contribuição da população negra para a formação do país.
"Enquanto essa história não for ensinada, não for debatida, muita gente vai achar que apenas a cor da pele é capaz de alimentar o racismo."
Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha
Na parte final da entrevista, a dirigente destacou a importância de valorizar a memória de lideranças negras brasileiras. Tereza de Benguela, homenageada no dia 25 de julho, foi uma liderança quilombola, no século XVII que assumiu o comando do Quilombo do Quariterê, também conhecido como Quilombo do Piolho, após a morte de seu companheiro, José Piolho.
Tereza tornou-se símbolo da resistência à escravidão e ao sistema colonial. Sua história inspira o dia nacional instituído em sua homenagem e reforça a importância de reconhecer mulheres negras que tiveram papel decisivo na formação do Brasil.
Maria Júlia observa que muitas dessas trajetórias foram apagadas pela narrativa oficial, enquanto personagens associados à violência contra negros e povos indígenas receberam homenagens públicas.
"É preciso buscar a história real, o que efetivamente aconteceu, para evitar que falsos ídolos sejam homenageados por nós", afirma.
Além de Tereza de Benguela, a dirigente cita nomes como Antonieta de Barros, Lélia Gonzalez e Carolina Maria de Jesus, mulheres negras que deixaram contribuições fundamentais para a política, o pensamento social, a literatura e a luta por direitos no país.
Podcast Estúdio CUT terá série sobre personalidades negras
Ao final do episódio, Maria Júlia propõe que o Estúdio CUT realize mensalmente uma edição dedicada a uma personalidade negra relevante para a história brasileira.
A proposta é envolver dirigentes das secretarias de Combate ao Racismo das CUTs estaduais e dos ramos sindicais, formando um rodízio de convidados e convidadas para recuperar trajetórias que ainda são pouco conhecidas.