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Greve geral na Colômbia pressiona governo de Ivan Duque contra reforma econômica

Movimentos sindical e sociais querem aumento do salário mínimo e exigem fim das políticas de ajuste fiscal que incluem reformas tributária, trabalhista e previdenciária. Esta é a terceira greve geral no país

Publicado: 04 Dezembro, 2019 - 18h42 | Última modificação: 04 Dezembro, 2019 - 18h55

Escrito por: Andre Accarini

CUT Colômbia
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A quarta-feira (4) na Colômbia foi marcada por mais um dia de greve geral contra a política neoliberal do governo de Iván Duque, que promoveu um arrocho salarial que tornou o salário mínimo insuficiente para cobrir o custo de uma cesta-básica, conhecida no país como ‘cesta-família’.

A mobilização, chamada de #4dparonacional nas redes sociais, foi realizada em várias cidades como Medellín, Cali, Nieva, Bucaramanga, Barranquilla e Cartagena. Na capital Bogotá, milhares ocuparam a Praça de Bolívar, na manhã desta quarta.

As manifestações são lideradas por centrais sindicais como a Central Unitária de Trabajadores (CUT Colômbia), além de estudantes, professores e movimentos sociais. Os protestos começaram no dia 21 de novembro, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas.

A população colombiana exige que o governo volte atrás em medidas econômicas, que incluem uma reforma no sistema previdenciário, tributário e nas leis trabalhistas, cumpra acordos de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia(Farcs), além do fim do Esmad (Esquadrão Móvel Antidistúrbios) que tem reprimido com violência as manifestações.

Até agora já são cerca de 40 feridos. Dilán Cruz, jovem de 18 anos, foi morto após um disparo de espingarda calibre 12 por um agente do Esmad, em 25 de novembro.

Outra reivindicação é o cumprimento do investimento de US$ 1,3 bi em educação, prometido pelo governo em um acordo firmado em 2018 com o setor.

Na terça-feira (3), governo e líderes dos movimentos se reuniram para negociações, mas não houve acordo em pontos das reivindicações populares como as reformas trabalhista, previdenciária e a tributária, que aumentará em 35% as tarifas de energia elétrica, e sobre o fim do esquadrão de repressão às manifestações.

Com o impasse nas negociações, o movimento grevista foi mantido para esta quarta-feira e uma nova tentativa de negociação deve ocorrer na quinta-feira (5).

O presidente CUT Colômbia, Diógenes Orjuela, disse em entrevista a uma rádio local que há protestos marcados até, pelo menos, o dia 10 de dezembro, mas o que se procura é um exercício de negociação que leve a acordos sobre as reivindicações feitas pelos cidadãos.

Sobre a greve geral desta quarta, o dirigente afirmou que o movimento sindical colombiano exigiu a garantia de que o Esmad não estivesse presente nas manifestações.  

 

 

 

Vozes da América: A luta contra o neoliberalismo no continente

A América Latina vive um momento de acentuada luta de classes. O secretário de Relações Internacionais da CUT, Antônio Lisboa, explica, no entanto, que há dois movimentos opostos na região.

“Um é das populações para exigir direitos básicos retirados pelo capital, pelo sistema financeiro, pelas privatizações e são direitos que, em muitos casos, os trabalhadores nunca tiveram”, diz Lisboa se referindo à luta por trabalho, renda e previdência.

“Por outro lado”, ele continua, “há um movimento de tentativa de retomada do poder sobre a América Latina pelos Estados Unidos. Isso levou ao golpe no Brasil, na Bolívia e as sanções econômicas na Venezuela”.

Lisboa afirma que “os Estados Unidos investem pesado em uma ofensiva, que é uma guerra não tradicional”. A tática, segundo ele, é a guerra híbrida, que envolve usar elementos como disputa tecnológica, econômica, midiática e até jurídica.

“A estratégia norte-americana é de derrubar governos democráticos da América Latina, por meio de ações que potencializem crises e façam com que essas democracias entrem em colapso, o que abre caminho para a dominação econômica e consequente exploração das riquezas”, explica o dirigente.

Como exemplo ele cita a exacerbação do tema ‘corrupção’ no Brasil e a ascensão de Sérgio Moro, então juiz e hoje ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro, que perseguiu e condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem provas.

Ainda de acordo com Antônio Lisboa, os Estados Unidos articulam suas ações para manter governos conservadores no poder, caso do Brasil, mas vão ter de enfrentar a luta popular contra a exploração e retirada de direitos.

“Por um lado, temos a ofensiva dos Estados Unidos tentando manter governos submissos e ‘abocanhar outros’, financiando golpes como no Brasil e na Bolívia, e por outro lado a resistência do povo latino-americano”, afirma o dirigente. 

Panorama:

Equador: uma tentativa de ajuste fiscal começou pelo fim do subsídio aos combustíveis, o que foi um estopim para o início da maior crise política do governo de Lenín Moreno. A política de preços de combustíveis, assim como no Brasil, por lá, passou a seguir o mercado internacional.

Sindicatos ligados ao setor de transporte iniciaram os protestos, alegando que o fim dos subsídios pode aumentar os preços dos combustíveis em até 120%.

Os protestos ganharam amplo apoio popular e diversos grupos aderiram às manifestações. Moreno decretou estado de exceção no país por dois meses, como medida de repressão. A onda de protestos tomou o país no dia 3 de outubro, dois dias depois do anúncio do fim dos subsídios.

O Conselho Latino-Americano de Justiça e Democracia enviou, nesta semana, um pedido ao governo do país para que cesse a repressão que inclui prisões e processos contra opositores - funcionários públicos e líderes de movimentos sociais.

Bolívia:O país, que teve a maior média de crescimento da região – 5% ao ano – durante o governo de Evo Morales, enfrentou a perseguição da direita a seu líder. Evo nacionalizou recursos naturais como gás e petróleo e estatizou parte das empresas privadas do setor para investir em programa de combate à desigualdade. O ex-presidente também propôs a mudança da Constituição Boliviana, em 2009, transformando o país em Estado Plurinacional, com reconhecimento de 36 etnias diferentes, o que garantia às minorias uma maior participação política.

Em 2016 foi aberta a discussão sobre reeleição e aliados do governo convocaram um referendo popular para alteração da lei sobre o tema e propondo que não houvesse limite à quantidade de vezes que um candidato pudesse se reeleger.

A população não aprovou. Evo, presidente progressista, recorreu às instâncias superiores e obteve autorização para se candidatar novamente. Foi eleito após o pleito de 20 de outubro e acusado pela oposição de querer se perpetuar no poder. A oposição também acusou o Tribunal Superior Eleitoral de fraude. Após a onda três semanas de protestos, Evo anunciou que convocaria novas eleições. No mesmo dia, o general Williams Kaliman sugeriu que ele renunciasse ao cargo.

“É minha obrigação como presidente indígena e de todos os bolivianos garantir a paz social.”

A frase marcou o discurso de renúncia de Evo Morales naquele 10 de outubro.

No Chile, a política neoliberal de arrocho salarial e ataque a direitos que se arrasta há décadas, desde a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), aumentou a desigualdade social. 

Milhões de pessoas foram às ruas em vários dias de protestos após o anúncio de aumento das tarifas de transporte pelo governo de Sebastián Piñera. Os protestos começaram no dia 17 de outubro.

Os chilenos foram às ruas também por causa do alto custo de vida, salários baixos, difícil acesso ao sistema de saúde e educação, e contra o sistema previdenciário, baseado na capitalização, que levou aposentados à miséria. Hoje a maior parte dos chilenos aposentados recebe 30% do salário de contribuição. O modelo é o mesmo que Paulo Guedes, ministro da Economia do governo Bolsonaro, tenta implementar no Brasil.

Assim como na Bolívia e no Equador, protestos foram reprimidos com forças militares.

Argentina: A resposta ao neoliberalismo veio pelo voto, após paralisações e greves. A última greve geral no país foi realizada em 29 de maio deste ano. A política neoliberal de Maurício Macri mergulhou o país em uma recessão que começou há mais de dois anos. O governo argentino recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que impôs sanções econômicas que penalizaram os trabalhadores, não resolveram problemas sociais e priorizaram o capital.

No dia 27 de outubro de 2019, a chapa composta por Alberto Fernández e Cristina Kishner foi escolhida pela população para comandar o país pelos próximos quatro anos, indicando assim um “basta” às políticas neoliberais.

Uruguai:  a direita venceu as últimas eleições. Luis Lacalle Pou será o novo presidente. Mas a vitória mostrou uma divisão acentuada no país. A apuração terminou com 48,7% dos votos para Lacalle.

Daniel Martinez, do Frente Amplio, coalizão de partidos de esquerda que governou o Uruguai nos últimos 15 anos, obteve 47,5% dos votos.

 

*com informações do Brasil de Fato e agências de notícias