Governo Temer é taxado de “ilegítimo” por manifestantes
Movimentos sociais fazem grande marcha em Brasília contra golpe. Militantes e lideranças dizem que não reconhecerão Temer
Publicado: 11 Maio, 2016 - 23h10 | Última modificação: 11 Maio, 2016 - 23h25
Escrito por: Isaías Dalle
O clima na capital federal nesta quarta-feira era o de que o resultado da votação no Senado, que noite adentro decidiria pelo afastamento ou não da presidenta Dilma, já estava dado. E seria desfavorável aos defensores do governo e daqueles que enxergam no processo de impeachment um golpe com fachada constitucional.
No entanto, isso não impediu que manifestantes realizassem uma grande e animada marcha pela Esplanada dos Ministérios em defesa da democracia.
A alegria dos batuques, das cantorias, das letras de rap entoadas sobre os caminhões de som e a energia das palavras de ordem não eram apenas manifestações de apoio à Dilma, contra a qual não há comprovação de nenhuma irregularidade, corrupção ou desvio de função.
Era, acima de tudo, uma demonstração de que os movimentos sociais e o movimento sindical representado pela CUT e pela CTB não vão desanimar e que estão prontos para defender valores maiores: liberdades individuais, garantias constitucionais, políticas públicas de inclusão social, de busca de igualdade e de respeito às diferenças. Era a defesa da busca pela valorização da classe trabalhadora, contra um projeto, representado pelo governo Temer – que militantes, lideranças políticas e partidárias classificam de “ilegítimo” e “provisório” – que anuncia às claras a pretensão de adotar medidas como privatização, arrocho salarial e diminuição de investimentos em políticas públicas.
“Para nós é um golpe. Não vamos admitir. A Dilma é a presidenta legitimamente eleita. E o Temer não reconheceremos”, disse Moisés Borges, integrante do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), que se preparava para deixar o acampamento, montado há dias nas proximidades do estádio Mané Garrincha, para se somar à marcha que começaria dali a instantes.
Antes disso, no início da manhã, a Executiva Nacional da CUT, reunida em Brasília, convergiu na direção de que uma nova fase da luta começa, exigindo dos sindicatos e da Central uma postura firme e combativa para impedir o avanço de projetos contrários à classe trabalhadora, que hoje tramitam no Congresso, e daqueles que são anunciados, de maneira explícita, embora não detalhada, pelo programa “Ponte para o Futuro”, apresentado ao país pelo vice-presidente Michel Temer.
Lançamento da Frente Parlamentar em Defesa da Democracia: "Temer Jamais será Presidente"
Vice que foi classificado ao longo do dia como golpista, conspirador e símbolo de um iminente governo “ilegítimo”. No meio da tarde, as bancadas do PT e do PCdoB lançaram a Frente Parlamentar em Defesa da Democracia e na coletiva de imprensa deixaram claro que, para elas, Temer não será considerado presidente e enfrentará dura oposição.
“Teremos dois presidentes ao longo dos próximos meses. Uma democraticamente eleita, e outro ilegítimo”, afirmou a deputada Luciana Santos (PCdoB-PE). “Este é um governo biônico”, taxou.
Constituinte exclusiva
O deputado Henrique Fontana (PT-RS), na mesma coletiva, disse que o governo Temer “começa isolado, com baixa aprovação popular. Na opinião do deputado, a maioria em torno do impeachment e de Temer “foi construída com farta distribuição de cargos e privilégios”.
Fontana fez um prognóstico: “As pessoas perceberão que não haverá novas eleições, porque já foi feito um acordão. Quanto tempo vai durar este governo, se um mês, dois meses, um ano, eu não sei. Só sei que estaremos resistindo. Faremos oposição firme”.
O deputado petista anunciou que as bancadas que compõem a recém-criada frente retomarão a defesa de uma constituinte exclusiva para reformar o sistema político.
Para Paulo Pimenta (PT-RS), é hora de se reinventar. “Temos de reinventar uma maneira de lidar com outros atores, como a Frente Brasil Popular e a Frente Povo sem Medo, o movimento dos estudantes, os movimentos sociais”. Ele prevê que o processo de julgamento deverá durar quatro meses, em virtude das exigências regimentais.
Pouco antes da chegada ao Senado, a marcha foi barrada por policiais militares (leia aqui). Ao final da mobilização, já noite, o secretário-geral da CUT Sérgio Nobre afirmou aos manifestantes: “Essa é uma etapa da luta, que não termina aqui. A classe trabalhadora já viveu o que é ditadura e não queremos mais isso na nossa história. Se quiser mandar nesse país, vai ter de passar por eleições. Não vamos reconhecer esse governo golpista”.