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Funcionários da Eletrobras defendem CPI do Itaipugate

Para eles, ensaia-se alta da conta de luz e Léros, ’empresa de fundo de quintal’, merece investigação

Publicado: 16 Agosto, 2019 - 10h40 | Última modificação: 16 Agosto, 2019 - 11h20

Escrito por: André Barrocal, da Carta Capital

Reprodução/Carta Capital
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Os funcionários da Eletrobras, a estatal que vende no Brasil a energia da usina de Itaipu, defendem uma CPI para investigar o acordo recentemente selado e rompido que se tornou uma ameaça de impeachment para o presidente do Paraguai, o direitista Mario Abdo Benítez. Para eles, o acordo é o ensaio geral de um plano pró-especuladores e grandes indústrias usuárias de energia com chances de vingar até 2023, favorecimento capaz de encarecer a conta de conta de luz dos brasileiros.

A ideia de CPI foi discutida por eletricitários sindicalistas com o Congresso nos últimos dias. Eles puseram a proposta em uma carta aberta divulgada nesta quarta-feira 14 pelo Coletivo Nacional dos Eletricitários, do qual os funcionários da Eletrobras fazem parte. A carta seria encaminhada também ao presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Jr, membro do Conselho de Administração de Itaipu.

No Paraguai há uma CPI. Para os funcionários da Eletrobras, uma CPI aqui deveria mirar, em primeiro lugar, a tentativa de “uma comercializadora de ‘fundo de quintal'” de “usurpação de competências formalizadas entre os dois países”.

A empresa de “fundo de quintal” é a Léros. “É uma incógnita como ela surge nessa história. Pode ser laranja de alguém”, diz um funcionário da Eletrobras.

Na empresa, trabalhadores enxergam a presença da Léros nesse enredo com o olhar de quem vê o governo Jair Bolsonaro dono de planos pró-especuladores e grandes usuários de energia. E isso seria prejudicial aos consumidores em geral, com aumento da conta de luz em algum momento adiante.

Conforme o noticiário paraguaio, a Léros teve um representante em uma reunião realizada em maio com autoridades locais e esse representante identificou-se como ligado à família Bolsonaro. Trata-se do empresário Alexandre Giordano. Ele é suplente do líder do partido de Bolsonaro no Senado Major Olímpio (PSL). E dono de firmas que funcionam no mesmo prédio da sede do PSL paulista.

Giordano nega ter sido representante da Léros em reuniões no Paraguai. Notícias divulgadas em 13 de agosto mostram-no tendo viajado para lá ao menos três vezes em 2019 em jatinhos da empresa.

A Léros queria conseguir do governo paraguaio o direito de vender no Brasil energia de Itaipu que não é consumida por lá. Hoje quem faz isso é a Ande, a Eletrobras paraguaia, em transações com a estatal brasileira. A brecha para tirar as duas estatais do caminho constava de versão preliminar do acordo selado em maio e rompido em agosto.

O rompimento se deu quando Benítez virou alvo de impeachment por topar condições desvantajosas ao Paraguai. Na visão dos eletricitários, o Brasil enfiou essas condições goela baixo do Paraguai movido por interesses de empresas privadas.

Há setores industriais que usam muita energia, caso de siderurgia, mineradoras, fábricas de alumínio. Estes caçam uma fatia maior do mercado gerador de energia e de energia mais barata. Itaipu, produtora de muita energia e barata, seria a solução.

O tratado original de Brasil e Paraguai sobre Itaipu vence em 2023. É no chamado anexo C do tratado que estão as condições de compra pelo Brasil da energia que cabe ao Paraguai mas não é consumida lá. O acordo feito agora em 2019 anteciparia o espírito que o Brasil levará para a mesa de negociação do tratado, na visão dos eletriciários.

Os interesses dos grandes usuários brasileiros de energia estão infiltrados em Itaipu desde 2017. Naquele ano, o governo Michel Temer botou no Conselho de Administração da empresa binacional o então número 2 do ministério de Minas e Energia, Paulo Pedrosa. Pedrosa tinha sido presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores (Abrace). Esteve no conselho até maio de 2019.

Para o lugar dele, o governo Bolsonaro indicou Luiz Fernando Vianna, ex-dirigente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica (Apine). Vianna tinha estado no conselho juntamente com Pedrosa, em 2017. Tinha sido nomeado por Pedrosa, que comandava o conselho, para o cargo de diretor-geral de Itaipu.

Vianna ficou cerca de um ano em Itaipu. Saiu ao ser convidado para trabalhar na Delta, uma comercializadora de energia como é a Léros. Ele é citado na carta dos eletricitários favoráveis a uma “CPI do Itaipugate”. Para os eletricitários, Vianna e a atual composição do conselho deveriam ser investigados, bem como o papel que tiveram no acordo recém rompido com o Paraguai.

Segundo um funcionário da Eletrobras, se as negociações entre Brasil e Paraguai relativas a Itaipu forem feitas para privilegiar os grandes usuários de energia no lado brasileiro, a conta de luz vai subir para a população. E a privatização da estatal ficaria mais fácil, de acordo com ele.