Flávio Bolsonaro pediu e recebeu R$ 61 milhões de Vorcaro, dono do banco Master
PF investiga o candidato do PL à presidência da República por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos sobre o financiamento do filme Dark Horse
Publicado: 01 Outubro, 2026 - 14h42 | Última modificação: 01 Outubro, 2026 - 15h07
Escrito por: Redação CUT
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em uma mensagem enviada pelo WhatsApp em 16 de novembro de 2025.
A frase escrita pelo hoje candidato à Presidência da República é parte de uma série de registros que indicam a existência de uma negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a produção de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre seu pai Jair Bolsonaro, revelou o Intercept Brasil, em maio deste ano. Segundo os documentos da investigação, efetivamente, Vorcaro desembolsou pelo menos US$ 12,3 milhões (R$ 61 milhões). Desde 4 de março deste ano o banqueiro está preso no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a Papudinha, em Brasília.
Documentos liberados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) mostram que Flávio negociava diretamente com Daniel Vorcaro; cobrava a liberação de recursos e acompanhava os pagamentos.
A PF identificou uma estrutura envolvendo a Entre Investimentos e Participações (produtora do Dark Horse) e o fundo americano Havengate Development Fund, sediado no Texas (EUA) e administrado por pessoas ligadas a Eduardo Bolsonaro.
Hoje Flávio Bolsonaro é investigado pela Polícia Federal (PF) por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos sobre o financiamento do filme Dark Horse. Há ainda a suspeita de que parte desse dinheiro foi enviado aos Estados Unidos, para onde fugiu o irmão dele, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), onde articulou com o governo de Donald Trump tarifas às empresas brasileiras e sanções a autoridades brasileiras, além de ser suspeito de tramar interferência dos EUA nas próximas eleições presidenciais deste mês.
A PF também investiga suspeitas de desvio de aproximadamente R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas a entidades que teriam relação com a produção de Dark Horse. Entre os principais alvos divulgados estavam Mário Frias, ex-secretário de Cultura no governo de Jair Bolsonaro e outras pessoas.
O escândalo do Banco Master
A PF aponta que o Banco Master vendeu ao BRB (Banco de Brasília) carteiras de créditos que, segundo a PF, não existiam ou não puderam ser comprovadas. O principal núcleo investigado envolve operações de cerca de R$ 12,2 bilhões.
Há ainda um bloco de R$ 4,05 bilhões em operações realizadas pelo BRB mesmo depois de o Banco Central ter questionado a origem dos ativos. A PF aponta indícios de que essas operações serviram para dar liquidez ao Master, que enfrentava dificuldades financeiras.
O Master também é investigado por indícios de concessão fraudulenta de empréstimos com desconto em folha e falhas graves em milhares de contratos de beneficiários do INSS, o que levou à suspensão de contratos e à mira do Banco Central.
Relatórios do Coaf enviados à CPMI do INSS apontam repasses de fundos ligados à gestão de ativos do Master para empresas sob suspeita de lavagem de dinheiro e desvio de recursos
Outras suspeitas sobre Flávio Bolsonaro
O candidato à presidência da República também teve seu nome envolvido nos escândalos das rachadinhas, da loja de chocolate, de envio de emendas parlamentares, aos assassinos da vereadora Marielle Franco, de compra de seis imóveis com dinheiro vivo e de uma mansão de R$ 6 milhões com financiamento do Banco de Brasília, que queria comprar o Banco Master, mesmo com sindicâncias apontarem um rombo estimado entre R$ 47 e R$ 52 bilhões.
Rachadinhas
Em 2018, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) - unidade de Inteligência Financeira do Brasil, responsável por receber, examinar e identificar ocorrências suspeitas de atividades ilícitas relacionadas principalmente à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo - apontou movimentações financeiras consideradas atípicas de Fabrício Queiroz, então assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Queiroz movimentou cerca de R$ 1,2 milhão no período analisado. O caso deu origem à investigação sobre a suspeita de que assessores devolvessem parte de seus salários ao gabinete de Flávio, no esquema conhecido como “rachadinha”.
Dois anos depois, em 2020, o Ministério Público do Rio denunciou Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz e outros 15 investigados. Flávio foi acusado de peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa. A acusação sustentava que o esquema teria desviado recursos de funcionários do gabinete.
Mas em 2021, o STF anulou quatro dos cinco Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Coaf utilizados na investigação. Para o Supremo, o Coaf produziu relatórios de inteligência financeira "sob encomenda" do Ministério Público antes de existir um procedimento investigatório formal instaurado contra o investigado. Com a anulação das principais provas, o caso perdeu sua base probatória e a investigação contra Flávio acabou encerrada sem condenação.
Operação Furna da Onça e suspeita de vazamento
O empresário Paulo Marinho afirmou que Flávio teria recebido informação antecipada sobre uma operação da Polícia Federal que atingiria deputados da Alerj. A suspeita era de vazamento de informação policial. O episódio foi investigado, mas não houve comprovação de que Flávio tivesse cometido crime.
Foi a partir da operação Furna da Onça que se lançou luz sobre as rachadinhas. Para subsidiar as investigações sobre a corrupção de deputados fluminenses e o Detran, o Ministério Público Federal solicitou ao Coaf um levantamento geral sobre transações financeiras atípicas envolvendo servidores da Alerj. Foi nesse relatório que os investigadores encontraram a movimentação suspeita de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, então assessor do deputado Flávio Bolsonaro. Fabrício chegou a ser preso em junho de 2020, mas foi para o regime de prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica em julho do mesmo ano.
Relações com Adriano da Nóbrega e o escritório do crime
A investigação da rachadinha identificou relações entre pessoas ligadas ao gabinete de Flávio e Adriano da Nóbrega, ex-policial apontado pelo Ministério Público como ligado a grupos de milícia e ao chamado Escritório do Crime, suspeito de envolvimento na morte de Marielle Franco e Anderson Gomes, ocorrida em março de 2018. Flávio havia empregado no gabinete a mãe e a mulher de Adriano. Segundo os investigadores, Danielle Nóbrega repassou pelo menos R$ 150 mil a Fabrício Queiroz, dos quais cerca de R$ 115 mil teriam passado por contas relacionadas a Adriano. Não houve denúncia contra Flávio por integrar uma milícia. Adriano foi preso, depois ficou foragido, e foi morto pela Polícia, na Bahia, em 2020.
Imóveis e dinheiro em espécie
A investigação também analisou operações imobiliárias de Flávio e de sua mulher, Fernanda Bolsonaro. O Ministério Público apontou cerca de R$ 977 mil em gastos cuja origem não teria sido comprovada e investigou transações imobiliárias que poderiam ter sido utilizadas para ocultar recursos. Entre os episódios analisados estava a compra e posterior venda de dois apartamentos em Copacabana.
Flávio também comprou uma mansão em Brasília avaliada em quase R$ 6 milhões e quitou em apenas três anos, o que não condiz com seu salário de senador da República. No contrato original, Flávio e sua mulher declararam renda conjunta de R$ 36.957,68, enquanto uma simulação do próprio BRB indicava renda mínima de aproximadamente R$ 46,4 mil para aquela operação. A prestação inicial era de R$ 18.744,16.
Loja de chocolates
A franquia de chocolates da Kopenhagen da qual Flávio era sócio também foi investigada. O Ministério Público apontou uma diferença de aproximadamente R$ 1,6 milhão entre valores de faturamento informados pelo shopping e os valores que teriam entrado nas contas da empresa. A suspeita era de possível utilização da empresa para lavagem de dinheiro.
Emendas e pessoas ligadas ao caso Marielle
A PF encontrou conversas entre uma assessora de Flávio e Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, ligado ao grupo dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, condenados pelo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. A investigação apura possíveis irregularidades e desvios em recursos de emendas destinados por Flávio a entidades relacionadas ao caso. Um dos repasses foi de R$ 199 mil; considerando outro repasse, os recursos destinados chegaram a cerca de R$ 600 mil.
Com informações de sites de pesquisa Google e GPT