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Fim da escala 6x1: pesquisadora rebate “terrorismo” contra redução da jornada

Em entrevista ao ContrafCast, pesquisadora do Cesit/Unicamp afirma que previsões de desemprego, inflação e fechamento de empresas repetem discurso usado historicamente contra direitos trabalhistas

Publicado: 15 Maio, 2026 - 11h49 | Última modificação: 15 Maio, 2026 - 12h25

Escrito por: André Accarini | Editado por: Rosely Rocha

Letycia Bond, Agência Brasil
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Sempre que trabalhadores conquistam ou lutam por novos direitos, o discurso é semelhante: empresas vão fechar, haverá demissões, os preços subirão e a economia entrará em crise. Hoje no debate sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada sem redução salarial, a estratégia se repete.

Este é um tipo de “terrorismo” que faz parte dos argumentos usados por setores empresariais contra a proposta em discussão no Congresso Nacional, do fim da jornada 6X1, na avaliação da pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp, Marilane Teixeira.

Em entrevista ao ContrafCast, da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), ela afirmou que previsões de demissões em massa, aumento da inflação e quebra de empresas reproduzem uma narrativa histórica mobilizada sempre que direitos trabalhistas entram em pauta.

“Eles já vêm ameaçando: ‘vai ter demissão’, ‘vai aumentar custo’, ‘a inflação vai voltar’, ‘os negócios vão fechar’. Então, é terrorismo na veia”, criticou.

Segundo a pesquisadora, que também é professora de economia da Unicamp, em vez de apresentar alternativas para reorganizar a produção ou discutir formas de adaptação, parte do empresariado adota uma postura de chantagem econômica.

“Eles não vêm como um apelo: ‘nós temos que repensar, como é que a gente pode se reorganizar’. Não. Já vêm ameaçando”, afirmou.

Discurso se repetiu com 13º, férias, salário mínimo e reforma trabalhista

Em 1925, ano em que foi criada a “Lei das Férias”, de apenas 15 dias, em registros da imprensa da época, os empresários alegavam que iriam à falência se tivesse de pagar salário mesmo no mês sem o serviço do trabalhador. Como a lei falava que o direito vinha apenas após o décimo-segundo mês de emprego, também se tornou comum a demissão antes do fim deste período, lembrou uma reportagem da BBC no ano passado quando o direito às férias completou 100 anos. O mesmo ocorreu com o direito ao 13º salário. Em 26 de abril de 1962 a manchete do jornal O Globo era “Considerado desastroso para o país um 13º mês de salário”

Marilane lembrou que o mesmo argumento foi utilizado quando o país debateu a política de valorização do salário mínimo, uma luta vitoriosa da CUT. À época, representantes empresariais também diziam que aumentos salariais provocariam inflação, desemprego e falência de empresas.

“Pergunta se houve incremento da inflação, se houve desemprego, se houve aumento da informalidade, se as empresas fecharam. Nada disso”, afirmou.

Para a professora de economia, a repetição desse tipo de discurso busca frear avanços sociais e atua como uma disputa ideológica em torno do trabalho.

“É exatamente a mesma coisa. Toda vez que entra em pauta o tema do trabalho, os agentes econômicos se levantam para falar das suas mazelas”, observou.

Marilane também criticou o argumento de que o Brasil precisaria manter jornadas extensas porque teria baixa produtividade. Segundo ela, justamente o modelo atual, baseado em excesso de trabalho e sobrecarga, tem demonstrado limitações.

“Se jornadas extensas ainda reproduzem produtividade estagnada, será que não é hora justamente de mudar essas formas de organização do trabalho?”, questionou.

Redução da jornada não derruba PIB, nem gera recessão

Outro argumento frequentemente utilizado por entidades empresariais é o de que a redução da jornada provocaria queda do Produto Interno Bruto (PIB) e desaceleração econômica. Durante a entrevista, foi citado um estudo encomendado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) que prevê impacto econômico semelhante ao período recessivo vivido entre 2015 e 2016.

Marilane rejeitou a comparação e classificou como equivocada a tentativa de associar redução de jornada a crise econômica.

Segundo ela, a recessão daquele período teve origem em fatores completamente diferentes, como retração dos investimentos públicos e privados, cortes de gastos e desaceleração econômica.

“A natureza da crise de 2015 e 2016 é completamente distinta do impacto da redução da jornada de trabalho”, explicou.

Na avaliação da pesquisadora, a redução da jornada com manutenção dos salários preserva a renda das famílias, mantém o consumo e não cria razões para uma retração econômica.

“A renda disponível continua. As pessoas continuam tendo que comer, pagar aluguel, transporte, lazer”, afirmou.

Ela ironizou ainda o raciocínio de quem prevê paralisação econômica em caso de aprovação da medida.

“Só faria sentido imaginar queda do PIB se as pessoas fossem congeladas nos dias livres e só voltassem a consumir quando retornassem ao trabalho”, disse.

Chile e experiências internacionais desmontam previsões alarmistas

Ao defender o fim da escala 6x1, Marilane também citou experiências internacionais recentes, especialmente a do Chile, que reduziu sua jornada de trabalho sem registrar efeitos negativos sobre emprego, renda ou crescimento econômico.

“Todos os países que reduziram jornada de trabalho, os dias e horas trabalhadas não apresentaram queda do PIB, não apresentaram perda de produtividade, muito pelo contrário”, afirmou.

Segundo ela, as experiências internacionais demonstram que jornadas menores podem coexistir com crescimento econômico e ganhos de produtividade.

A pesquisadora defende que o debate brasileiro deveria se inspirar nesses exemplos, em vez de reproduzir projeções alarmistas.

“São essas experiências que a gente tem que estudar e projetar como modelo”, disse.

Sobrecarga gera adoecimento e custo social

Para além da disputa econômica, Marilane argumenta que manter jornadas extensas impõe um alto custo social ao país. Ela destacou o aumento expressivo de afastamentos relacionados ao adoecimento mental e psicossocial, consequência direta da intensificação do trabalho, estresse e sobrecarga.

Segundo a pesquisadora, somente no último ano, quase 600 mil pessoas foram afastadas por doenças relacionadas ao sofrimento psíquico e ao adoecimento no trabalho.

“Você tem um custo social muito elevado mantendo essa sobrecarga de trabalho”, afirmou.

Além do impacto humano, ela ressalta que o problema pressiona o sistema público de saúde e a seguridade social, elevando custos coletivos.

Para Marilane, reduzir jornada e garantir descanso adequado não é apenas uma medida trabalhista, mas também uma política de saúde pública e de reorganização do trabalho.

“O caminho é promissor”, avaliou. “A sociedade brasileira não suporta mais essa sobrecarga de trabalho”.