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CUT: Filósofo marxista Michael Löwy abre ciclo de debates

Relembre ou conheça um pouco mais sobre os pensamentos e obras de Michael Löwy

Publicado: 04 Outubro, 2017 - 19h23 | Última modificação: 05 Outubro, 2017 - 13h37

Escrito por: Vanilda Oliveira

Divulgação
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“As­sis­timos a uma guerra de classes, uma ofen­siva vi­o­lenta, brutal e eco­cida do grande ca­pital fi­nan­ceiro glo­ba­li­zado, que toma formas va­ri­adas se­gundo os países e as con­jun­turas, com ten­dên­cias cada vez mais au­to­ri­tá­rias, como o de­mons­tram os exem­plos de Trump (EUA), Er­dogan (Tur­quia), Orban (Hun­gria), assim como a qua­drilha no poder atu­al­mente no Brasil”.

A fala acima é do escritor, sociólogo e filósofo franco-brasileiro Michael Löwy, de 79 anos, uma das referências mais importantes do pensamento anticapitalista e um dos principais estudiosos das obras de Karl Marx. Löwy abre nesta quinta o “Ciclo de Debates Estratégicos” promovido pela CUT, na sede nacional da Central, cujo tema é: “Dilemas da Democracia e Desafios da Esquerda na Atualidade”.

O debate está sendo transmitido ao vivo: https://www.facebook.com/cutbrasil/videos/1204029599696522/

Löwy defende a importância do pluralismo da percepção socioecológica e afirma que é tarefa da esquerda encontrar maneiras de costurar esta proposição com suas questões clássicas. Para o filósofo, "o ecossocialismo implica uma revolução do processo de produção, das fontes energéticas. É impossível separar a ideia de socialismo, quer dizer, de uma nova sociedade, da ideia de novas fontes de energia, particularmente do calor. O ecossocialismo não é só a perspectiva de uma nova civilização, é também uma estratégia de lula, aqui e agora".

Também tido como dos principais pesquisadores das obras de Leon Trotski, Rosa Luxemburgo, György Lukács, Lucien Goldmann e Walter Benjamin, Michael Löwy, atualmente é Diretor Emérito de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique, de Paris e dirige seminários na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Ele tem mais de uma dezena de obras publicas em 25 países (ver bibiografia abaixo). Desde de 2013, passou a coordenar a coleção "Marxismo e literatura" da Editora Boitempo.

Relembre ou conheça um pouco mais sobre os pensamentos e obras de Michael Löwy

Sobre a crise
“A crise econômica é grave, porque serve às classes dominantes, ao capital financeiro, para aplicar suas receitas neoliberais, agravando o desemprego, destruindo conquistas sociais, privatizando os serviços públicos etc. Mas a crise ecológica é algo muito mais importante e muito perigoso, porque ameaça as condições de vida da humanidade no planeta”.

Sobre a tarefa da esquerda
Uma das tarefas da esquerda é encontrar maneiras de costurar esta união, respeitando os interesses fundamentais de todos. Não é uma tarefa fácil, mas as vezes se consegue. “Chico Mendes conseguiu juntar trabalhadores, camponeses, mulheres, indígenas, comunidades de base. É possível. Temos que ter este objetivo”. 

Sobre o crescimento do fascismo
“Eu não tenho uma explicação universal para a questão deste ascenso da ultra e extrema direita. Mas em cada lugar há características específicasNo Brasil ela é caracterizada pela nostalgia da ditadura militar, o que é profundamente preocupante. Já na Europa é o racismo e a xenofobia que estão em plena ascensão vertiginosa, aproveitando atentados e a chegada de refugiados que estão sendo usados com muito sucesso por esta direita, o que mostra que a explicação não é econômica. 

Sobre o Estado e as pressões das mobilizações sociais
“Há uma resistência, porque quem está por trás do Estado é o capital financeiro. O Estado é uma ferramenta do capital financeiro.”

Sobre o golpe no Brasil
“É mais um epi­sódio da série de golpes pseu­do­par­la­men­tares (na América Latina...). São as oli­gar­quias mais re­a­ci­o­ná­rias que, pas­sando com um trator em cima da de­mo­cracia, im­põem um go­verno não eleito e ile­gí­timo. No caso do Brasil, se re­ré a tra­gédia como farsa (como dizia Hegel): a tra­gédia foi o golpe mi­litar de 1964, se­guido de 20 anos de di­ta­dura; a farsa é o atual golpe “par­la­mentar” contra Dilma, em que uma qua­drilha de par­la­men­tares cor­ruptos afastou a pre­si­dente eleita, sob pretexto de “pe­da­ladas fis­cais”.

Sobre a Teologia da Libertação e a esquerda
Em primeiro lugar, ela nos ensina que a religião pode ser outra coisa, diferente de simples “ópio do povo”. Aliás, Marx e Engels já haviam previsto a possibilidade de movimentos religiosos com uma dinâmica anticapitalista. a esquerda deve tratar com respeito as convicções religiosas e considerar os militantes cristãos de esquerda como parte essencial do movimento de emancipação dos oprimidos. A teologia da libertação nos ensina também a importância da ética no processo de conscientização e a prioridade do trabalho de base junto às classes populares, em seus bairros, igrejas, comunidades rurais e escolas.

Sobre a Igreja brasileira
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A Igreja brasileira, apesar de seus limites, em particular no que concerne ao direito das mulheres sobre seu corpo – divórcio, contracepção, aborto – é uma das mais progressistas do mundo católico. A esquerda deveria inspirar-se nas igrejas para retomar trabalho de bases"

Sobre a luta socioecologica
“As lutas socioecológicas são o mais importante que vem acontecendo hoje, porque são lutas de alta organização local e comunitária, indígenas e de periferias, com uma convergência: uma auto-organização pela base, uma espécie de democracia direta em cima de pontos socioecologicos. Se colocarmos uma perspectiva, a longo prazo, de uma mudança radical, que é o que o programa ecossocialista propõe,  isso vai implicar também na visão de uma outra democracia, porque a que vivemos é de muito baixa intensidade. 

Sobre Marx
O marxismo nos permite compreender a natureza destrutiva do capitalismo, sua tendência inexorável à expansão perpétua e, portanto, sua contradição com os limites naturais do planeta. O marxismo nos permite colocar nas vítimas do sistema, nas classes e grupos oprimidos e explorados o sujeito possível de uma transformação anticapitalista. Finalmente, o marxismo nos propõe, com o programa socialista, os fundamentos de uma alternativa radical ao sistema. Mas, sem dúvida, necessitamos de uma reformulação ecossocialista das concepções marxistas

Sobre a classe trabalhadora
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Veja, eu sempre serei um marxista. Heterodoxo, mas ainda assim um marxista. Acredito que, sem o apoio da classe trabalhadora, do campo e da cidade, não conseguiremos mudar nada. Precisamos então ter este objetivo de ganhar a classe trabalhadora, que é maioria da população, em torno de um projeto de mudança radical. Não acho que a classe trabalhadora faça parte do capitalismo, ela é sim, vítima deste sistema que a joga na miséria, oprime na exploração, na prostituição, no narcotráfico. O interesse destas pessoas é se opor ao capital. Falta consciência, mas há um potencial enorme de oposição. Dito isso, o que precisamos criticar é uma visão dogmática que reduz o sujeito de uma transformação social unicamente ao trabalhador, e no caso dos mais atrasados, à um operário de fábrica que veste macacão. Infelizmente existe isso na esquerda. Precisamos ter uma visão mais ampla que inclui na classe trabalhadora, não apenas aquelxs que vendem sua força de trabalho em uma definição marxista mais clássica, mas todas as pessoas que trabalham. A dona de casa, xs estudantes, enfim, ampliar esta visão e incluir também populações como as indígenas e ribeirinhas que estão mais ligadas à outras formas de vida. O sujeito de transformação na percepção socioecológica é plural; além disso há, dentro da classe trabalhadora, interesses específicos: a mulher, o negro, o camponês. É necessário ter uma visão plural do que é uma coalição de forças e que entre elas podem ter contradições: mulheres e homens, negros e brancos, trabalhadores do campo e da cidade. Uma das tarefas da esquerda é encontrar maneiras de costurar esta união, respeitando os interesses fundamentais de todxs. Não é uma tarefa fácil, mas as vezes se consegue. Chico Mendes conseguiu juntar trabalhadores camponees, mulheres, indígenas, comunidades de base. É possível. Temos que ter este objetivo. "

Sobre ecossocialismo e quais suas referências?
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O ecossocialismo é uma alternativa radical ao capitalismo que resulta da convergência entre a reflexão ecológica e a reflexão socialista (marxista). Sua premissa fundamental é que a preservação de um ambiente natural favorável à vida no planeta é incompatível com a lógica expansiva e destrutiva do sistema capitalista. Não se podem salvar os equilíbrios ecológicos fundamentais do planeta sem atacar o sistema, não se pode separar a luta pela defesa da natureza do combate pela transformação revolucionária da sociedade. O ecossocialismo propõe uma reorganização do conjunto do modo de produção e de consumo baseado em critérios exteriores ao mercado capitalista: as necessidades reais da população e a defesa do equilíbrio ecológico. Isso significa uma economia de transição ao socialismo, na qual a própria população – e não as “leis de mercado” ou um Birô Político autoritário – decidam, num processo de planejamento, as prioridades e os investimentos. (...) já em Marx e alguns marxistas se encontram elementos de crítica de como a dinâmica do capitalismo leva à destruição do meio ambiente, ao envenenamento do solo, à destruição das florestas. Isso já aparece em Marx, mas muito pouco desenvolvido. Isso precisa ser retomado. Colocado não como uma questão marginal, mas como um tema central"

Sobre ecossuicídio
Löwy diz que dependerá da capacidade que tenham as organizações de esquerda para integrar esses debates em seus respectivos eixos estratégicos, a possibilidade (ou não) de enfrentar o último desafio programático da revolução socialista: o perigo do colapso da civilização e da extinção humana, ou melhor, “ a ameaça de um ecossuicídio planetário”.

Saiba mais sobre Michal Löwy

Nasceu no Brasil, em 06 de maio de 1938, filho de pais judeus que se radicaram no Brasil, formou-se em Ciências Sociais na USP, em 1961 e se radicou na França a partir de 1969. “Na melhor tradição do marxismo clássico”, como diz sua biografia oficial no blog da Editora Boitempo, Michael Löwy busca articular a reflexão teórica de qualidade e uma atuante militância política. Ele tem intensa colaboração com movimentos sociais e políticos, centros de pesquisas e publicações de todas as orientações de esquerda no Brasil e em todo o mundo. Nos anos 1950-1960, fez parte da Liga Socialista Independente, se associou à Quarta Internacional, se tornou membro da Primeira seção, a Ligue Communiste. Em sua militância revolucionária, Löwy esteve atento às lutas sociais e organizações políticas de esquerda, das Ligas Camponesas ao MST. O fiósofo marxista também é um estudioso da Teologia da Libertação há décadas.

Obras do autor

1970 – A Teoria da Revolução no Jovem Marx. Petrópolis: Vozes, 2002. (Col. Zero à Esquerda)

1970 – O Pensamento de Che Guevara. São Paulo: Expressão Popular, 1999.

1975 – Método Dialético e Teoria Política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

1976 – Para uma Sociologia dos Intelectuais Revolucionários: a evolução política de Lukács, 1909-1929. São Paulo: LECH, 1979.
          (Republicado sob o título A Evolução Política de Lukács. São Paulo: Cortez, 1999.)

1980 – (organizador). O Marxismo na América Latina: Uma antologia de 1909 aos dias atuais. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999.

Ideologias e Ciência Social: elementos para uma análise marxista. São Paulo: Cortez, 1985.

1985 – As Aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. São Paulo: B

1988 – Redenção e Utopia: o judaísmo libertário na Europa Central. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Romantismo e Messianismo: ensaios sobre Lukács e Benjamin. São Paulo: Perspectiva / Edusp, 1990.

Marxismo e Teologia da Libertação. São Paulo: Cortez, 1991.

1992 – Revolta e Melancolia: o Romantismo na contramão da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1995. São Paulo: Boitempo, 2015

Romantismo e Política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993. (Em co-autoria com Robert Sayre.)

1996 – A Guerra dos Deuses: religião e política na América Latina. Petrópolis: Vozes, 2000.

1997 – Nacionalismo e Internacionalismos: da época de Marx até nossos dias. São Paulo: Xamã, 2000.

2000 – Marxismo, Modernidade e Utopia. São Paulo: Xamã, 2000. (Em colaboração com Daniel Bensaid.)

2000 – A Estrela da Manhã: Surrealismo e Marxismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

2004 – Franz Kafka, sonhador insubmisso. Rio de Janeiro: Azougue, 2005.

2005 – Walter Benjamin: Aviso de Incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo,

2009 – Lucien Goldmann, ou a dialética da totalidade. São Paulo: Boitempo, 2005. (em colaboração com Sami Naïr)

2009 – Revoluções. São Paulo: Boitempo Editorial, 2009. (Organizador.)

2012 – A teoria da revolução no jovem Marx. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012.

2013 – O capitalismo como religião, de Walter Benjamin. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013. (Organizador.)

2013 – A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano. São Paulo: Boitempo, 2014. 

2015 – Afinidades revolucionárias: nossas estrelas vermelhas e negras. Por uma solidariedade entre marxistas e libertários. São Paulo, Unesp 
 

Fontes de pesquisa

http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/Autores/visualizar/michael-lowy
https://subverta.org/2017/05/23/michael-lowy-historia-razoes-e-eticas-do-ecossocialismo/
http://controversia.com.br/3788
https://www.carosamigos.com.br/index.php/grandes-entrevistas/5756-entrevista-michael-loewy
http://marxismo21.org/michael-lowy/#prettyPhoto
http://www.esquerda.net/artigo/o-significado-historico-de-outubro-de-1917-por-michael-lowy/50178
https://movimentorevista.com.br/autores/michael-lowy/
https://www.brasildefato.com.br/2017/02/23/michel-lowy-a-esquerda-precisa-romper-com-o-paradigma-da-produtividade/
https://www.rebelion.org/hemeroteca/sociales/lowy090602.htm.
http://www.jornada.unam.mx/2015/09/12/cultura/a36n1cul.
http://www.eldesconcierto.cl/2017/03/15/manuel-casal-lodeiro-y-su-libro-sobre-la-izquierda-ante-el-colapso/
http://www.eldesconcierto.cl/2017/02/24/entrevista-a-peter-wadhams-el-artico-esta-en-peligro/.
https://www.theguardian.com/environment/earth-insight/2014/mar/14/nasa-civilisation-irreversible-collapse-study-scientists.
http://elpais.com/elpais/2015/06/19/ciencia/1434727661_836295.html