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Fernando Haddad: educação é a esperança da nacionalidade e da democracia

Haddad acredita que as pessoas deixaram o "luto" e voltaram às ruas, e que o Brasil vai superar o momento "doloroso". "A sociedade não está desatenta"

Publicado: 07 Junho, 2019 - 09h30

Escrito por: Vitor Nuzzi, da RBA

Reprodução
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Fernando Haddad saiu da eleição presidencial de 2018 com um capital político de 47 milhões de votos. Ele descarta candidatar-se novamente a prefeito de São Paulo. “Adorei governar a cidade, me propus a um novo mandato. As coisas não voltam. A vida anda mesmo. Tem gente com vontade, com disposição de ser prefeito, no campo do centro-esquerda”, afirma o ex-ministro da Educação. Em conversa com o jornalista Juca Kfouri, no programa Entre Vistas, da TVT, Haddad falou sobre riscos à democracia, inaptidão de Jair Bolsonaro, denúncias sobre o governo, políticas educacionais, Paulo Freire, Lula e Ciro Gomes. Sobre planos, o também professor disse que neste momento pretende “rodar o país”, levando a mensagem da reconstrução do que está se perdendo.

Para Haddad, parte da sociedade já saiu do “luto” em meio ao processo histórico pelo qual passa o Brasil e voltou às ruas. Ele procurou mostrar otimismo ao falar sobre a possibilidade de o país voltar a um certo caminho virtuoso. “Vamos superar isso. O que temos de lutar pra fazer é abreviar esse processo. Nenhum país que deu muito certo não passou por momentos dolorosos”, afirmou. “E geralmente esses momentos precederam as fases de maior prosperidade.”

“Com algum tipo de ruptura?”, quer saber Juca, lembrando dos próprios exemplos dados pelo entrevistado, sobre França e Estados Unidos. “Essa ruptura tem de vir pela democracia, pela consciência”, responde o ex-prefeito e ex-ministro, entrevistado também pelas estudantes Isis Mustafá (Políticas Públicas na Universidade Federal do ABC) e Rebeca Santana (Direito no Mackenzie), esta beneficiária do Programa Universidade para Todos (ProUni), criado em 2004 e tornado lei no ano seguinte.

“Tem gente ainda de luto. Tem gente que saiu do luto e está na rua, na luta”, diz o ex-candidato, para quem a sociedade não permitirá que se governe por decretos. Tema de dois protestos de vulto, em 15 e 30 de maio, a educação dominou boa parte da entrevista de Haddad, que na última terça-feira (4) se reuniu com outros ex-ministros da área (Aloizio Mercadante, Cristovam Buarque, José Goldemberg, Murílio Hingel e Renato Janine Ribeiro).

Ao final do encontro, no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), eles divulgaram uma nota “de alerta ao país”, sobre os riscos causados pelo comportamento do governo, que segundo o documento atua de forma sectária”, sem preocupação com a melhoria de qualidade e igualdade de oportunidades. Ressaltaram que o movimento pela educação foi um fator de unidade em tempos recentes.

Mandato vai até o fim?

“A sociedade brasileira tomou consciência da importância dela no mundo contemporâneo. Numa palavra, a educação se tornou a grande esperança, a grande promessa da nacionalidade e da democracia. Com espanto, porém, vemos que, no atual governo, ela é apresentada como ameaça”, lamentam os ex-ministros.

Na entrevista à TVT, Haddad observa que o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), “o maior já criado no país, governo Lula”, expira em 2020. “Dá impressão que o governo não sabe disso, porque não se move. ”

Haddad observa que não é o primeiro caso de reunião entre ex-ministros apreensivos com os rumos do país. Já aconteceu no caso do meio ambiente, e também nesta terça um artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo expunha preocupações de autoridades na área de Justiça e segurança pública.

Diante de “tal estágio de loucura”, como define, o apresentador do Entre Vistas quer saber do convidado se o governo Bolsonaro chegará ao fim de seu mandato. Haddad responde com cautela, lembrando que existem apenas duas maneiras para que isso aconteça: impeachment por crime de responsabilidade ou renúncia. “Não existe outra hipótese. Se a gente sair da legalidade, vamos entrar numa aventura”, afirma, para emendar: “Entendo que a sociedade tem de se organizar para defender o país”.

Segundo ele, o Brasil enfrenta sérios problemas em pelo menos seis áreas: relações exteriores, direitos humanos, educação, segurança pública, meio ambiente e economia. E no poder está “uma pessoa que teve 30 anos para se preparar para alguma coisa”, mas vive dizendo que não está preparado para a Presidência da República. Haddad diz considerar “muito grave” o fato de o atual presidente ter “dificuldade” até para sair de Brasília, pois é sempre alvo de protestos. E há pouco tempo não conseguiu receber uma homenagem em Nova York, sendo criticado até pelo prefeito da metrópole que o petista chama de uma das capitais do mundo.

A universidade mudou

Isis pergunta sobre relatório do Banco Mundial que recomenda cobrança de mensalidade em universidades públicas – de resto, proposta defendida por simpatizantes do atual governo. Haddad afirma que a organização está “atrasada” em relação à realidade brasileira, pensando em um perfil “do século passado” – de uma universidade branca, elitista, de alta renda, excludente.

Cita pesquisa divulgada recentemente pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) mostrando outro cenário. “Nada menos que 70% dos estudantes das federais têm renda familiar média de 1,5 salário mínimo, 51% são negros. E 60% são egressos da escola pública”, destaca o ex-ministro. “A universidade mudou. Estão vendendo uma solução que não existe, que é falsa.”

O ex-ministro afirma que, em alguns anos, o número de estudantes universitários saltou de 3 milhões para 8 milhões, incluindo grande parte de jovens de baixa renda, famílias “que esperaram uma século” pelo primeiro diploma. O orçamento do ministério que ele dirigiu saltou de R$ 20 bilhões para R$ 100 bilhões. Segundo ele, Bolsonaro fala “besteira” e comete “erro grave” em seus comentários sobre a educação, lembrando que no Brasil se faz pesquisa, e principalmente em instituições públicas.

Paulo Freire

Haddad observa ainda que o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), criado em 2007, permite monitorar a situação do ensino por meio do cumprimento de metas – os dados mostram, segundo ele, que o ensino médio está “patinando” e inspira cuidados. “Em vez de o governo centrar atenção no ensino médio, fica arrumando briga com a comunidade educacional”, critica.

E o ataque bolsonarista a Paulo Freire, Patrono da Educação Brasileira? “Você não acredita que o Bolsonaro e o ministro dele leram Paulo Freire…”, comenta Haddad. Ele cita o livro Pedagogia do Oprimido, publicado pela primeira vez em 1968. Para o ex-ministro, Freire transcendeu a educação, tornando-se referência universal. “Aos olhos dos especialistas, ele se transformou em filósofo.”

Na sequência, Rebeca quer saber da meta de destinar 10% do Produto Interno Bruto (PIB) ao setor, uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE). O ex-ministro observa, inicialmente, que no início dos anos 2000 o então presidente Fernando Henrique Cardoso vetou o dispositivo que falava em 7%. Lembra que houve avanços com Lula, que entregou o governo com aproximadamente 6%. Mas aponta um cenário de estagnação.

“Durante quase 100 anos, nós investimos menos que a média da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Sistematicamente”, diz Haddad. Para ele, o ideal seria que o Brasil ficasse pelo menos 1 a 2 pontos percentuais acima da média da entidade, que está entre 5% e 6% do PIB. “O Brasil não podia ficar nesse faixa, tem de ser um pouco mais. Aí o Congresso resolveu pôr 10%.” Juca pergunta que nível seria considerado ideal. “Qualquer coisa de 7% para cima é um número muito respeitável” avalia, acrescentando que o período da ditadura “foi um dos piores” para a educação e marcou o início de um processo de sucateamento da escola pública.

Governo tem de cair na real

Ele acredita que a população já começou a reagir. “Não me parece que a sociedade esteja desatenta aos riscos. É o país que está em jogo. A reação está vindo. Acho que eles se assustaram com o 30 de maio. Quem sabe tenham outra surpresa boa em 14 de junho”, afirma, referindo-se à greve geral que está sendo organizada pelas centrais sindicais e por movimentos sociais. Não é para desgastar, ressalta. “O objetivo é fazer o governo cair na real. As coisas não estão bem. Não é verdade que a economia está reagindo”, diz Haddad, ao citar o resultado negativo do PIB no primeiro trimestre, anúncios “preocupantes” na segurança pública, e itens que alimentam a inflação, como gás, combustíveis, que têm impacto nos gêneros de primeira necessidade.

Para ele, mesmo quem votou no candidato vencedor e torce para que as coisas deem certo precisa pressionar e fazer o governo sair do Twitter, das redes sociais. “Teria de fazer umas cinco, seis substituições imediatamente.”

E quanto ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde 7 de abril do ano passado? Seu ex-ministro conta que ele demonstra capacidade de comunicação e destaca o fato de Lula recuperar o direito de dar entrevistas. “Parcela ponderável” da sociedade, que conseguiu acompanhar o noticiário, não consegue encontrar justificativa para a prisão, diz ele, originada de um imóvel que Lula nunca possuiu, enquanto um só filho do atual presidente da República tem uma investigação do Ministério Público sobre 17 imóveis, “e tudo de papel passado”. “A Folha de S. Paulo fez uma reportagem muito criterioso, mostrando que não há explicação para o patrimônio da família Bolsonaro. Quem é assalariado sabe o esforço para comprar um imóvel na vida.”

Juca aproveita para adiantar que a TVT também entrevistará Lula. Na semana que vem, ele e José Trajano viajarão a Curitiba para conversar com o ex-presidente na Superintendência da Polícia Federal do Paraná. O acesso à entrevista foi obtido por meio de ação no Supremo Tribunal Federal (STF), por intermédio do ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, em nome da emissora.

Quase no final da conversa, Juca quer saber das relações com o ex-ministro e ex-candidato Ciro Gomes (PDT), que para o apresentador anda “tão bélico quanto Bolsonaro”. É o momento em que entrevistado demonstra algum desconforto. “Eu não falo com Ciro desde o domingo do primeiro turno (das eleições presidenciais de 2018)”, lembra o petista, contando que telefonou e ele não atendeu, para depois atender à ligação da vice de Haddad, Manuela D’Ávila (PCdoB).

“Depois que ele viajou, não nos falamos mais. Tenho apreço pelo Ciro, sou amigo dele, fui colega de ministério. Para você procurar alguém, as pessoas precisam estar numa boa para conversar, numa situação de estabilidade. E acho que o Ciro está um pouco irascível”, diz. “O Ciro é um quadro importante, uma pessoa preparada, tem toda condição de ajudar o país, tem boas ideias. Eu espero que ele supere esse momento e procure as pessoas. Não precisa procurar todo mundo. Tem um campo com quem ele tem de dialogar.”

A última questão é sobre racismo. Para Haddad, o Brasil só começou a abolir a escravidão recentemente. “Até os anos 50 não havia negros na escola pública.” Estendendo o raciocínio, ele afirma que o país só avançará de fato quando democratizar três itens: educação de qualidade, crédito e terra. “Não fizemos nenhuma destas três coisas durante o século 20.”