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Falta de testes esconde que contágio é mais elevado no Brasil

Sem anunciar testes em massa para a população, Mandetta admite que número de infectados pode ser maior. Governo estima aumento de casos ocorrerá em maio e junho

Publicado: 14 Abril, 2020 - 09h42

Escrito por: Agência PT

Reprodução
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O presidente Jair Bolsonaro desrespeita diretamente as recomendações de organismos internacionais, colocando em risco a saúde e a vida dos brasileiros ao sair rotineiramente às ruas. A irresponsabilidade do Palácio do Planalto agrava a situação brasileira, cujo número de casos oficiais de contaminação por coronavírus é apenas a ponta do iceberg no cenário da maior pandemia dos últimos 80 anos. O ministro da Saúde, Henrique Mandetta, admitiu, em entrevista ao Fantástico, da Rede Globo, que o número de casos pode não corresponder às infecções totais do país, dias após defender um relaxamento do isolamento social. Ele afirmou que não há testes disponíveis para a população. O Brasil está entre os países com o menor número de testes massivos – apenas 62 mil realizados – e detém 22 mil casos confirmados e 1,2 mil mortes.

“A gente imagina que o mês de maio e o mês de junho serão os 60 dias mais duros para as nossas cidades”, limitou-se a dizer Mandetta. O ministro, entretanto, não explicou que as subnotificações em decorrência da falta de testes apontam para um cenário ainda mais catastrófico para a saúde pública. No momento em que já se detecta o relaxamento do isolamento social em várias cidades brasileiras, o Brasil caminha cegamente na escuridão, parecendo alheio à gravidade da crise.

Diante da tragédia que se anuncia, os fatos vão calando, um a um, os que consideram a quarentena uma paranoia alarmista e demonstram que as subnotificações são uma realidade. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criou um portal da transparência com dados sobre óbitos por coronavírus registrados em cartório. Elaborado pela Arpen Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais), a ferramenta revelou, na semana passada, um número de mortes muito maior do que o indicado pelo Ministério da Saúde: entre 16 de março e 5 de abril, foram registradas 722 certidões de óbito em decorrência da doença, 48% a mais do que os 486 divulgados pelo governo federal.

Na contramão do negacionismo de Bolsonaro, que já chamou o coronarírus de “gripezinha”, a ciência atesta que os países que aplicaram mais testes por milhão de habitantes tiveram menos mortes por Covid 19. É o caso da Coreia do Sul ou da Alemanha. A estratégia de testagem adotada pelos coreanos, que realizaram quase 470 mil testes, manteve a letalidade em baixa e a curva de aumento do contágio sob controle no país.

Ilusão é grave

A negação do conhecimento com base científica sobre a realidade do cenário pandêmico em um país é prejudicial às ações de combate e contenção para o avanço do contágio, alertam autoridades da OMS. De acordo com o neurocientista e coordenador do Comitê Científico Consórcio do Nordeste, Miguel Nicolelis, a subnotificação pode levar a uma falsa ilusão de normalidade e consequente agravamento da crise, caso dos Estados Unidos. “Quando Nova York teve o pico [de casos], o resto do país não acreditou que iria se espalhar e sair de Nova York. As pessoas continuaram viajando, e o país não entrou no confinamento no mesmo momento que Nova York”, alerta. “Então, o vírus ainda está se espalhando nos Estados Unidos”.

Segundo o cientista, especialistas calculam que, em função da subnotificação, os Estados Unidos podem ter mais de um milhão de pessoas infectadas hoje. “Daqui a seis ou oito semanas, provavelmente teremos 100 milhões de infectados, isso é um terço da população americana”, alertou Nicolelis, em entrevista nesta segunda-feira (13) ao economista Eduardo Moreira, pela internet.

Nicolelis traçou um cenário perturbador em relação ao avanço da doença em cidades americanas com grande número de moradores de rua, como Los Angeles, que possui mais de 70 mil de pessoas sem teto. “A hora que [o coronavírus] chegar à população de rua, veremos uma explosão como nunca visto na Califórnia”, prevê. Ele lembrou que o alto índice de mortalidade nos bairros mais pobres e com maior densidade demográfica de Nova York, caso de Queens, Bronx e Harlem, é um alerta para o Brasil. Se transferir esse cenário para o Brasil, observou, “teremos uma ideia do tamanho da encrenca quando o vírus se espalhar pela periferia das cidades brasileiras”.

A história ensina

Para Nicolelis, “a primeira grande lição é que todos os países que duvidaram, negligenciaram, deixaram de lado o aconselhamento científico, sofreram as maiores perdas de vidas e vão sofrer as maiores perdas econômicas, caso da Itália, Espanha, Estados Unidos e, provavelmente, do Brasil”.

Ele considera que a própria história americana ensina e pode servir de exemplo para evitar a repetição de erros. Ele mencionou a doença respiratória de 1918 – a chamada Gripe Espanhola –, que matou entre 50 e 100 milhões de pessoas, e foi recentemente tema de um estudo de economistas publicado no jornal New York Times. “Todas as cidades americanas que recorreram ao distanciamento social em 1918, prosperaram, economicamente, muito mais do que aquelas que ignoraram o aconselhamento”, lembrou o neurocientista.