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Explosão e morte causadas pela Sabesp expõem os efeitos nefastos das privatizações

População paga um alto preço pela venda de estatais

Publicado: 12 Maio, 2026 - 15h12 | Última modificação: 12 Maio, 2026 - 15h34

Escrito por: Rosely Rocha

TV Brasil / Reprodução
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A explosão de uma tubulação de gás da Comgás, que causou a morte de um homem de 49 anos, feriu três pessoas, desalojou 194 famílias e destruiu dezenas de casas no bairro do Jaguaré, zona oeste da capital de São Paulo é, infelizmente, mais uma confirmação dos efeitos nefastos das privatizações feitas por governos liberais que atendem os interesses do mercado financeiro em detrimento das necessidades da população. O acidente ocorreu durante uma obra da Companhia de Água e Esgoto (Sabesp), feito por uma empresa terceirizada, na tarde de segunda-feira (11). A companhia de água anunciou um auxílio emergencial de R$ 5 mil às famílias atingidas pela explosão.

Este não é o primeiro acidente grave provocado por empresas terceirizadas que prestam serviços à Sabesp. Em março deste ano o rompimento de um reservatório em Mairiporã matou um trabalhador terceirizado e desalojou dezenas de famílias. Em Mauá, uma idosa perdeu a vida após uma tubulação cair sobre sua casa durante outra obra da empresa.

Enquanto os acidentes seguem sendo investigados, representantes dos trabalhadores afirmam que a sequência de ocorrências reforça o debate sobre os impactos da privatização de serviços essenciais no país, especialmente em setores ligados à água, energia e saneamento.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema), José Antonio Faggian diz que a tragédia já era prevista após a privatização da Sabesp feita pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

“Uma empresa privada tem como objetivo principal o lucro, e esse tipo de coisa [acidentes] vai acontecer mais, infelizmente, e a gente só não achava que ia ser tão rápido”, lamentou o dirigente sindical.

Na época da venda em 2024, Tarcísio prometeu que a privatização traria preços mais baixos e melhor atendimento à população, o que não ocorreu. As queixas de um péssimo atendimento e contas altas são recorrentes. Dados da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) mostram que as queixas passaram de cerca de 3,7 mil em 2023 para quase 10 mil em 2024, um aumento de 162%, segundo informações do Sintaema.

A privatização de serviços essenciais como água e esgoto é também criticada pelo presidente da Federação Interestadual dos Urbanitários do Sudeste; (FRUSE-CUT), Esteliano Pereira Gomes Neto, que faz parte da Direção Executiva da Central Única dos Trabalhadores. A FRUSE é filiada à Confederação Nacional dos Urbanitários (CNU).

Segundo Esteliano, a lógica mercadológica transforma direitos básicos em produtos sujeitos apenas à rentabilidade financeira. “A gente transforma serviços essenciais e necessários como se fosse uma mercadoria. Ou seja, ou tem lucro, ou eu não faço”, afirmou.

Para o dirigente, a consequência é a redução de investimentos em equipamentos, manutenção e segurança. “Se em vez de comprar um equipamento que vai fazer um serviço mais eficiente ou eficaz, mas tem um custo alto e não dá retorno para aquilo que a gente espera, não é feito”, disse.

Ele destacou ainda que o saneamento não pode ser tratado apenas como atividade econômica, mas como política pública ligada à saúde coletiva.

“Saneamento não só trata a questão de esgoto, mas também faz referência à questão de saúde. A parte sanitária de toda uma cidade depende do saneamento”.

Terceirização compromete bons serviços

O presidente do Sintaema afirmou que os acidentes recentes têm relação direta com o aprofundamento da terceirização após a privatização da Sabesp.

“Tem um vasto material aí que mostra que a terceirização, depois da privatização, foi aprofundada”, disse Faggian.

Segundo ele, atualmente a companhia possui cerca de 8,5 mil funcionários próprios, enquanto aproximadamente 40 mil terceirizados atuam em obras e serviços para a empresa.

Faggian afirmou que houve um esvaziamento acelerado do quadro técnico da companhia antes e depois da privatização. “Se você pegar esses dois últimos anos, antes da privatização, o quadro que a gente tinha e o quadro que a gente tem hoje, nós já perdemos 50% do quadro original”, declarou.

Ele disse que a saída de trabalhadores experientes provocou perda de conhecimento acumulado ao longo de décadas. “Foi embora também todo o conhecimento acumulado, todo o know-how que a nossa equipe construiu ao longo de 50 anos da história da empresa”.

O sindicalista também denunciou diferenças salariais entre trabalhadores próprios e terceirizados. Segundo ele, enquanto o piso operacional da Sabesp gira em torno de R$ 2,7 mil, funcionários terceirizados recebem entre R$ 1,7 mil e R$ 1,8 mil, além de terem menos benefícios.

“É uma mão de obra mal remunerada, consequentemente atrai um público pouco qualificado, que tem rotatividade alta”, afirmou. Ao mesmo tempo, ele criticou os altos lucros da companhia e a remuneração da diretoria. “A gente tem os diretores ganhando 400, 500 mil reais por mês e a Sabesp tendo um lucro recorde, novamente de 6,3 bilhões no último ano”, contou.

Já o presidente da FRUSE concordou com a crítica sobre o avanço da terceirização após a privatização da companhia e afirmou que os efeitos já aparecem no curto prazo. “Já começou a transparecer a gestão privatista, a gestão privada e a gestão mercadológica de um produto que é água, que é um bem universal”.

Esteliano comparou a situação brasileira a experiências internacionais de reestatização de serviços públicos. Segundo ele, cidades europeias decidiram retomar o controle estatal após aumentos tarifários e piora na qualidade dos serviços.

“Os preços ficaram altíssimos. Segundo, que os serviços já não conseguiam atender mais a população”, afirmou ao comentar casos de cidades europeias que reestatizaram seus serviços.

Venda da Sabesp

O presidente do Sintaema criticou o processo de venda da Sabesp e afirma que a empresa foi privatizada abaixo do valor de mercado. “Já foi na largada ali um crime”, disse Faggian ao comentar a valorização das ações após o leilão de privatização. Foram 32% das ações vendidas em 23 de julho de 2024 pelo valor de R$ 14,7 bilhões, o equivalente a R$ 67 cada uma, enquanto o preço dos papéis no pregão era de R$ 87 naquela data.

DivulgaçãoDivulgação
Governador de SP Tarcísio de Freitas durante leilão da Sabesp

Hoje a Equatorial Participações e Investimentos, administra a Sabesp gerando críticas dos trabalhadores e trabalhadoras, já que a vencedora do leilão não tinha experiência no setor de água e esgoto.

O presidente do Sintaema afirmou que os trabalhadores alertaram anteriormente sobre os possíveis impactos da privatização. “Nós avisamos”, declarou Faggian.

Empresa privatizada, dinheiro público

Na avaliação do presidente da FRUSE, empresas privadas não investem recursos próprios na expansão dos serviços e acabam utilizando financiamento público enquanto preservam os lucros. “Eles vão em bancos públicos, por exemplo, com o BNDES, e pegam dinheiro para fazer investimento, mas não mexem no seu lucro”, criticou Esteliano.

Para o sindicalista, “o sinônimo de privatização é, sim, retrocesso para o serviço. E coloca em risco também, não só a população, mas também a vida dos trabalhadores”.

“A gente vem há 30 anos falando a respeito das privatizações. Aconteceu as privatizações na telefonia, aconteceu as privatizações no setor elétrico, na distribuidora de energia elétrica’.

“O grande ápice desse descalabro, vamos dizer assim, foi agora, recentemente, a Enel [companhia de energia] em São Paulo. Mas isso, não se engane, acontece em todas as distribuidoras do país, essa forma de trabalhar a financista, financeira somente, só visando lucro. Então quer dizer que nós temos que rever”. São Paulo enfrentou diversos apagões com milhões de pessoas sem luz depois que a Enel assumiu a distribuição de energia na cidade. Os prejuízos são calculados acima de R$ 1,5 bilhões

“Recentemente foi privatizada a Eletrobras, a maior empresa de energia elétrica da América Latina, que coloca em risco a segurança energética”, criticou Esteliano. A venda da estatal foi aprovada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em maio de 2022.

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