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"Espero que a Constituição seja o livro de cabeceira de todos neste momento"

Com esta frase Lula encerrou a carta que enviou ontem para os organizadores do 4º Salão do Livro Político

Publicado: 19 Junho, 2018 - 15h31

Escrito por: Rosely Rocha, especial para Portal CUT

Reprodução
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O ex-presidente Lula, mantido como preso político há mais de dois meses, na sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, no Paraná, enviou uma carta ao IV Salão do Livro Político sobre o livro que mais marcou a sua vida.

A pedido dos organizadores do evento, aberto na noite desta segunda-feira (18) na PUC-SP, Márcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo, que estava representando Lula, leu a carta enviada pelo ex-presidente que leu 21 livros desde o dia 7 de abril, quando decidiu cumprir a ordem judicial.

Na carta, Lula destacou a trilogia de Lira Neto sobre Getúlio Vargas, ressaltou suas lutas, sua volta ao governo pelo voto, o enfrentamento com as forças que atuavam contra a soberania e o desenvolvimento do país e a oposição que era contrária as leis trabalhistas, à fundação da Petrobras, da Eletrobras, e das bases para um desenvolvimento industrial e tecnológico do país.

Em um dos trechos da carta, Lula diz ser candidato a presidente porque não cometeu crime e que o medo “deles” é que volte a ocupar o Palácio do Planalto.

No final, o ex-presidente lembra que a Constituição diz em seu 1º artigo que todo o poder emana do povo, que o exerce por representantes eleitos e espera que a Constituição seja o livro de cabeceira de todos nesse momento.

Leia a íntegra da carta do ex-presidente Lula

O livro que mais me marcou recentemente, na realidade, são três: a trilogia de Lira Neto sobre Getúlio Vargas.

Dos três livros, o primeiro é muito interessante por contar a origem de Getúlio e a política gaúcha do início do século XX.

Mas tendo lido a trilogia após ter sido presidente da República, o melhor foi observar no terceiro livro da trilogia as lutas de Getúlio em sua volta ao governo pelo voto, entre 1950 e 1954.

O enfrentamento com as forças que atuam contra a soberania e o desenvolvimento do país. Ao ler o livro notamos muitas semelhanças com o momento atual; que muitas dessas forças são as mesmas que atuam hoje contra o Brasil, com o mesmo discurso e as mesmas táticas.

A oposição que Vargas enfrentava na época era justamente contra as leis trabalhistas, a fundação da Petrobras, da Eletrobras, da siderurgia nacional, das bases para um desenvolvimento industrial e tecnológico do país.

O sacrifício máximo de Getúlio para muitos conseguiu fazer com que se impedissem por alguns anos aventuras antidemocráticas.

Hoje nós enfrentamos de novo forças que não querem a Democracia, não querem o desenvolvimento, não querem a soberania, não querem a inclusão social.

Sou candidato a presidente porque não cometi crime nenhum e quero fazer o Brasil ser feliz de novo. Não estou preso por causa de um apartamento no Guarujá no qual nunca dormi, do qual nunca tive chave, e que jamais foi meu. O medo deles é que eu volte a ocupar o Palácio do Planalto.

Lutaremos pela democracia até o fim. Pelo direito do povo brasileiro escolher quem os governa e para que a justiça seja feita.

A Constituição diz em seu primeiro artigo que todo o poder emana do povo, que o exerce por representantes eleitos.  Espero que a Constituição seja o livro de cabeceira de todos nesse momento. Deixem o povo decidir quem será o presidente do Brasil.

Um forte abraço,

Luiz Inácio Lula da Silva

Manifesto contra o golpe

Ao final do evento, os editores independentes leram uma manifesto contra o golpe de 2016 e as suas consequências na educação e no setor livreiro e o papel do livro na construção de uma sociedade mais igualitária.

Leia a íntegra da carta dos editores

Nós, editores independentes, somos também testemunhas do rumo destrutivo que o país tomou depois do golpe de 2016. Como não poderia deixar de ser, a mudança abrupta de poder significou cortes e perdas de continuidade nas políticas do livro e leitura, paralisação de discussões centrais para a área e crise econômica severa, que atinge, inclusive, os grandes grupos do setor que apoiaram a derrubada do governo democraticamente eleito.

O fechamento de livrarias, cujo exemplo mais recente é o encerramento das atividades da loja da Fnac-Livraria Cultura de Pinheiros, é o sinal mais evidente desse retrocesso. Pequenas e médias livrarias pelo país enfrentam situação similar, enfraquecendo a capilaridade da circulação do livro.

A crise política e econômica decorrente do golpe se soma, neste momento, à transformação tecnológica radical do setor, talvez a mais radical desde a invenção da prensa, há 500 anos, com a formação de grandes redes de livrarias baseadas no big data, a organização de conglomerados mundiais de edição, as vendas pela internet e a digitalização acelerada, legalmente ou não, de conteúdos.

Tudo isso parece ser praticamente ignorado pelo governo e pelos parlamentares, que, a despeito de uma ou outra legislação para o setor, não conseguem conceber uma política geral para o livro e a leitura. Reina o laissez-faire improdutivo ou, melhor dizendo, destrutivo, para o mercado editorial e para o debate democrático que ele deveria sustentar.

A construção social de um projeto inclusivo de leitura é tarefa nada simples. A ideia de que a cultura é naturalmente boa era uma falácia que, com dificuldade, combatíamos, tanto na organização do Salão do Livro Político quanto na Libre – Liga Brasileira de Editoras, entidade que reúne editores independentes de todo o país.

Essa falácia por muito tempo deixou o livro fora do alcance de políticas públicas pensadas a fundo. Por muito tempo, acreditou-se que bastava distribuir livros às mancheias, como diz o poema. Ninguém discutia a mediação e a construção da leitura. Ninguém discutia se o conteúdo era libertador ou ideologicamente aprisionador. Ninguém discutia os livros e como torná-los vivos: o livro era uma entidade quase religiosa, cujas festas serviam à elite e deviam ser admiradas pelo povo.

Se essa ideia era paralisante e constrangia a democratização do livro, uma pior tomou a frente da cena: a de que o livro é potencialmente perigoso.

Viceja a ideia de que cultura é coisa de esquerdista-comunista-feminista-gayzista (como se essas palavras fossem ofensas...). De que a cultura letrada, tradicionalmente dominada pelos poderosos, é potencialmente perigosa quando apropriadas pelos de baixo e pelos condenados da terra.

Um novo governo democrático, no país, deve buscar mais democracia, mais participação e mais diversidade – racial, de gênero, cultural e editorial – na construção de sua política de leitura. Será preciso reconstruir um diálogo, no âmbito federal, que foi altamente produtivo de 2003 a 2010 para o setor do livro, encontrou algum recuo entre 2010 e 2016 e tornou-se bastante avesso à bibliodiversidade e às editoras independentes depois disso.

Este salão, agora em sua 4ª edição, é um sinal da importância que o livro tem para a política, para a emancipação dos trabalhadores e dos oprimidos e para a construção de um projeto alternativo de sociedade.

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