Escala 6x1 atinge 14,8 milhões de pessoas e pesa nos setores de serviços e comércio
Dados do Dieese indicam que grande parte dos trabalhadores brasileiros enfrenta jornadas superiores a 40 horas semanais, evidenciando a predominância de cargas horárias extensas no mercado de trabalho
Publicado: 21 Maio, 2026 - 11h12 | Última modificação: 21 Maio, 2026 - 19h12
Escrito por: Walber Pinto | Editado por: Rosely Rocha
Uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que pretende alterar as regras da escala de trabalho da atual 6x1, modelo de jornada que prevê seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso no país, deve ser votada na próxima semana na Câmara dos Deputados. A leitura do parecer sobre a proposta, porém, foi adiado após pressão de deputados da extrema direita e agora deve ser apresentado na segunda-feira (25).
Um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta que um em cada três trabalhadores e trabalhadoras brasileiros atua na escala 6x1. Segundo o estudo, cerca de 14,8 milhões de trabalhadores, o equivalente a 33,2% dos ocupados no país, estão submetidos a esse modelo de trabalho.
Os dados do Dieese mostram ainda que 64% dos trabalhadores formais têm jornada superior a 40 horas semanais, e cerca de 75% dos trabalhadores celetistas trabalham mais de 40 horas por semana.
Setores que estão na escala 6x1
Entre os setores com maior incidência da escala 6x1 estão transporte aéreo, hospedagem, alimentação e comércio, áreas marcadas por funcionamento contínuo e jornadas mais extensas. De acordo com o Dieese:
- Transporte aéreo — 53,2%
- Serviços de alojamento — 52,0%
- Serviços de alimentação — 47,1%
- Comércio — 42,2%
Os números revelam que trabalhadores de áreas com funcionamento diário e horários estendidos são os mais submetidos à jornada de seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso.
No entanto, empresários ligados aos setores do comércio e dos serviços estão entre os mais resistentes às mudanças. Ao mesmo tempo, empresas que testaram modelos alternativos, como a escala 5x2, relatam melhora no engajamento dos funcionários.
O que é jornada de trabalho
Jornada de trabalho é o período em que o trabalhador fica à disposição do empregador para exercer suas atividades. Atualmente, a Constituição Federal estabelece limite de 44 horas semanais, geralmente distribuídas na escala 6x1, seis dias de trabalho para um de descanso.
Apesar disso, a realidade da maioria da classe trabalhadora brasileira é de jornadas longas e desgastantes.
Segundo o Dieese, a maioria absoluta dos trabalhadores brasileiros atua entre 40 e 44 horas semanais. Além disso, cerca de 20 milhões de pessoas trabalham acima desse limite, chegando a jornadas entre 45 e 48 horas ou mais.
Pesquisa da CUT
Uma pesquisa encomendada pela CUT em parceria com o instituto Vox Populi investigou as mudanças no mundo do trabalho e o avanço da informalidade no Brasil.
Segundo o presidente da CUT, Sergio Nobre, muitos trabalhadores têm recusado vagas formais porque elas oferecem baixos salários e jornadas consideradas rígidas e exaustivas.“O grande fator que pesa muito é a jornada de trabalho extensa, a rigidez das escalas de trabalho, em especial a escala seis por um, que torna impossível conciliar o trabalho com a vida”, afirmou durante audiência pública na Câmara dos Deputados.
Entre os principais argumentos em defesa da redução da jornada está a melhoria da qualidade de vida. Com menos horas de trabalho, os trabalhadores passam a ter mais tempo para descanso, convivência familiar, estudo, lazer e cuidados com a saúde física e mental. De acordo com o Dieese:
- 71,2 milhões de trabalhadores precisam se deslocar para o trabalho;
- 14,5 milhões levam entre 30 minutos e uma hora no trajeto;
- 7,4 milhões gastam mais de uma hora para chegar ao trabalho;
- 1,3 milhão passa mais de duas horas no deslocamento diário.
Na prática, milhões de brasileiros passam grande parte do dia dedicados ao trabalho, somando jornada e deslocamento.