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Eleição de Pedro Castillo no Peru será vitória do poder popular, diz analista

Amauri Chamorro pede prudência com resultado, vê projeções favoráveis ao candidato do Peru Livre e defende unidade para superar problemas sanitários e econômicos

Publicado: 10 Junho, 2021 - 09h56

Escrito por: André Rossi RBA

Twitter / PERU_LIBRE1
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O analista internacional Amauri Chamorro afirma que a virtual vitória do professor Pedro Castillo na eleição no Peru para presidente representa prevalência do poder popular. Chamorro, porém, ainda pede prudência em relação aos resultados, embora afirme que todas as projeções apontam para a vitória do candidato do partido Peru Livre. Se confirmada a vitória, ele entende que o novo governo vai precisar buscar unidade para tirar o país das graves crises sanitária e econômica.

“A máxima autoridade eleitoral do país vai decidir se contabiliza ou não esses votos (questionados pela chapa adversária). Todas as projeções dão a vitória do professor Castillo. Poderíamos dizer que virtualmente ele é o vencedor neste momento”, afirma, Chamorro, reforçando ser necessário esperar o posicionamento das autoridades. “O país está polarizado, há uma tensão nos centros de poder, do poder midiático, econômico, das forças armadas, o poder político que se opõe ao Professor Castillo, que estão se opondo ao poder popular, que é o que venceu.”

De acordo com o autoridade eleitoral peruana (Onpe), às 22h20 (horário de Brasília) desta quarta-feira (9) haviam sido registrados no sistema 99,99% dos votos, com 99% já contabilizados, sendo 8,79 milhões para Castillo (50,2% dos válidos) e 8,72 milhões para Keiko Fujimori (49,8%). De 25,1 milhões de eleitores aptos, 18,7 milhões compareceram às urnas, com 25,3% a abstenção, além de 6,4% de votos em branco e nulos. A vantagem de Castillo é de 71 mil votos.

O povo falou

Pedro Castillo se declarou vencedor da eleição no Peru na noite de terça (8) após abrir boa distância para a adversária da Forca Popular, de direita, com poucos votos ainda a serem contabilizados, boa parte deles de redutos eleitorais do candidato do Peru Livre, de esquerda. “O povo falou”, disse Castillo a apoiadores da varanda do comitê do partido, em Lima. “De acordo com o relatório de nossos fiscais, já temos o resultado”. “Vimos que o povo impôs essa vitória por meio das urnas.”

O candidato vence em 16 dos 25 departamentos eleitorais, confirmando favoritismo nas áreas pobres. Já Keiko venceu com folga nas áreas mais ricas, incluindo Lima e o litoral, e também com os votos no estrangeiro, onde a candidata da direita compensou parte da vantagem perdida nas urnas dentro do país. Mas no total do território peruano a dianteira de Castillo é de 175 mil votos.

Diante da iminente derrota, a filha do ex-ditador Alberto Fujimori alegou “fraude sistêmica” no processo. “Existe uma estratégia por parte do Peru Livre para distorcer ou atrasar os resultados que refletem a vontade popular”, disse Keiko, em entrevista coletiva. O partido de Castillo rebateu em comunicado com o título “Mente, mente, mais do mesmo: o fujimorismo”.

Sem fraude

Cerca de 1.300 atas da eleição no Peru foram contestadas e enviadas para análise posterior. Alega-se dados ilegíveis, rasuras e dúvidas sobre assinaturas. Uma primeira observação é feita por juizados eleitorais especiais, com uma decisão final, se necessária, tomada pelo Júri Nacional de Eleições. O Júri Nacional de Eleições, segundo a Folha de S. Paulo, informou que a Missão de Observadores da União Interamericana de Órgãos Eleitorais considerou o pleito regular e com êxito. De acordo com O Globo, o chefe dos enviados pela Organização dos Estados Americanos (OEA), Rubén Ramírez, parabenizou as autoridades peruanas pela “organização de um processo de grande complexidade marcado pela pandemia e pela polarização política”.

Apesar disso, diversos escritórios de advocacia de Lima passaram a convocar advogados para apoiar as pretensões de Fujimori, de acordo com o site LaMula. Eles preparam uma onda de observações com o objetivo de anular mais de 100 mil votos. A estratégia é procurar nas atas nas regiões onde Castillo ganhou, apesar de não haver suporte legal nem evidência.

Efeito Bolsonaro

Amauri Chamorro destacou também a violência da campanha de Fujimori e afirmou ser esse mais um reflexo na América Latina da campanha de Bolsonaro em 2018. E não foi só lá. “Eu estive na campanha presidencial do Equador, do Andrés Arauz, e aqui no Peru, junto ao Professor Castillo. E a gente vê na Colômbia, viu na Argentina”. “O objetivo deles não é só enganar a população, mas também gerar uma reação violenta da direita, dos setores da classe média, contra o setor popular. A atitude da Keiko e dos meios de comunicação era de gerar ódio. De ir para a rua e agredir o opositor”, afirma. “Por isso que a gente tem uma votação nos setores indígenas, rurais, andinos muito favorável ao Professor Castillo. Essa população também se sentiu agredida.”

O analista destaca o perigo que é utilizar o ódio como instrumento político. “Pode desatar reações violentas. A gente vê contextos no Peru, onde o país tem vinte anos de guerra civil envolvendo o Sendero Luminoso contra o Estado Peruano, e ter como resposta a chegada de uma ditadura cívico-militar, como foi a do (Alberto) Fujimori, que gerou dezenas de milhares de mortos. O Fujimori castrou 300 mil mulheres de maneira forçada. Mulheres pobres”, lembra.

Poder econômico e midiático

A eleição no Peru também teve como componente uma campanha absolutamente desigual. “A quantidade de dinheiro investido pela Keiko Fujimori, a ação das empresas de comunicação em tentar colocar um pensamento de que o professor era terrorista, comunista, que iria invadir e distribuir as casas para os pobres, aquela receita que a gente está acostumado a ver, mas com uma violência impressionante.” Apesar disso, venceu a força popular, organizações sindicais e os trabalhadores do campo e dos centros urbanos.

Outro ponto que chamou a atenção foi “a posição dos meio de comunicação, da empresas e dos donos, muito favorável a apoiar Keiko”, disse o analista, acrescentando que há um setor dos jornalistas que não estava de acordo com o posicionamento das empresas. Muitos apresentaram demissões em massa, como ocorrido naAmérica TV e no Canal N. Antes, segundo a Folha de S.Paulo, ocorrerram outros desligamentos, que, segundo os demitidos, deram-se por conta de opiniões divergentes. Nos jornais El Comércio e Peru21, funcionários foram afastados alegando discordância com a linha editorial em favor da candidata.